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A nova realidade de hábitos e consumo

Crise corta vagas, reduz renda e deixa futuro do emprego incerto

Perda de rendimentos atinge 61% dos moradores de São Paulo das classes D e E

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São Paulo

Quase metade dos moradores de São Paulo perdeu rendimentos do trabalho depois do início da pandemia: 46%. É o que registra pesquisa Datafolha sobre os novos hábitos dos paulistanos, realizada no início de julho.

O levantamento mostra também que a esperança mais comum dos paulistanos para o fim da epidemia é conseguir um trabalho com registro, sair do bico, do emprego informal ou do desemprego, em vez de se tornar funcionário público ou empresário, por exemplo.

Uma parte importante dos entrevistados, 6%, não sabe qual trabalho terá depois da pandemia (13% entre aqueles das classes D e E).

A probabilidade de ter passado a receber menos depende do nível de instrução e da classe social. Entre os moradores da cidade das classes D e E, 61% tiveram rendimentos menores —ante 43% daqueles do segmento A e B.

Entre os que tiveram rendimentos reduzidos, 41% fazem trabalho remoto, de casa, o home office, e 59%, não. Apenas 9% dos que fizeram até o ensino fundamental trabalhavam de forma remota. Entre quem fez faculdade ou além, eram 59%.

O teletrabalho doméstico na cidade de São Paulo parece muito mais frequente do que no restante do país, a julgar pelos dados do Datafolha e da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Covid-19, do IBGE.

Parece, pois as estatísticas não são imediatamente comparáveis. Seus questionários , por exemplo, são diferentes. No entanto, a disparidade é grande. Pelo Datafolha, ressalte-se, 44% dos ocupados faziam home office em São Paulo no início de julho. Na Pnad Covid-19, trabalhavam remotamente 12,5% dos brasileiros e 15,9% dos moradores da região Sudeste.

Apenas 2% dos paulistanos na PEA (População Economicamente Ativa) dizem que estavam desempregados antes do novo coronavírus. A parcela daqueles sem trabalho agora é de mais de 16%.

Cerca de 43% dos moradores da cidade de São Paulo eram assalariados com registro antes da calamidade do vírus; agora são 34%. https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/06/97-milhoes-de-trabalhadores-ficaram-sem-remuneracao-em-maio-diz-ibge.shtml

A própria PEA, resultado da soma do número de empregados com desempregados à procura de emprego, diminuiu de 81% para 75%. A maior parte da diferença se deve ao crescimento do número de desalentados, que não procuravam trabalho no momento da entrevista.

Apesar das dificuldades, há otimismo quanto aos salários. Para 33% dos paulistanos entrevistados, seus rendimentos serão maiores depois da pandemia. Para 57% deles, os ganhos ficarão pelo menos iguais.

Mas o futuro do trabalho está entre muito incerto e muito preocupante.

A recessão anterior começou em 2014 e terminou em 2016. O número de pessoas ocupadas continuou a cair até chegar ao fundo do poço, em março de 2017.

Levou mais dois anos, até 2019, para que o país voltasse ao pico do nível anterior do número de empregos.

Do saldo de vagas criadas nesse período, dois de cada três eram de assalariados sem carteira assinada e “por conta própria”, sem CNPJ, pelos dados da Pnad, a pesquisa do IBGE. O número de empregos formais, com carteira, jamais se recuperou.

A dificuldade de prever o destino do trabalho é ainda maior do que depois dessa grande recessão de 2014-2016. O choque econômico de agora é muito diferente.

Em primeiro lugar, esta crise afeta especialmente o setor de serviços (que inclui comércio), o que mais emprega e o mais prejudicado pelo distanciamento social, seja decretado por governos ou voluntário (por medo de contaminação).

Pode ser também o setor de recuperação mais lenta, por causa da longa duração da epidemia no Brasil ou das dificuldades em geral de atividades que dependem muito do fim da pandemia de fato (como turismo, aviação ou entretenimento de aglomeração: shows, arenas esportivas e casas noturnas).

Em segundo lugar, a crise não apenas reduziu o rendimento das empresas. Destruiu muitas delas.
Terceiro, os governos estarão sem recursos para investir em um grande programa de obras públicas.

Quarto, muitas empresas fazem experimentos obrigatórios de inovação, como o teletrabalho, em casa ou não (motoristas e entregadores de aplicativo também têm um teletrabalho).

Pode ser que parte ainda maior das vagas seja agora terceirizada ou contratada por tarefa, em regime intermitente. A automação também pode aumentar.

Quinto, é possível que o teletrabalho reduza a ocupação de escritórios ou atividades de entretenimento e, assim, a circulação por certas regiões das cidades, prejudicando restaurantes ou outros comércios e serviços nas redondezas.


Inovação é por definição imprevisível. Retomadas econômicas têm seu grau de incerteza, mas a recuperação brasileira depois da recessão de 2014-2016 foi a mais lenta da história e nem havia se completado quando essa nova crise chegou.

Por ora, as estimativas são de que o PIB (Produto Interno Bruto) volte ao nível ainda empobrecido de 2019 apenas em 2022. Em geral, o nível de emprego se recupera apenas depois do PIB.

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