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Agronegócio alivia crise no Brasil e será fundamental na retomada

Sustentabilidade na produção de alimentos é principal desafio para produtores brasileiros

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São Paulo

O agronegócio brasileiro anda na contramão na crise gerada pela pandemia do novo coronavírus. Enquanto a economia, de forma geral, sofre um intenso baque, o campo resiste e acumula vários recordes positivos.

O setor impede um retrocesso ainda maior da atividade econômica nacional, principalmente porque está espalhado por todo o país, dando suporte tanto a pequenos como a grandes municípios.

A retomada econômica do país após esta crise sanitária seguramente terá o agronegócio como um dos seus baluartes.

A situação de calamidade que assolou o mundo, porém, traz novas lições para o produtor brasileiro. Uma delas é que, a partir de agora, os cuidados dos consumidores não serão apenas sanitários; haverá, por certo, muito mais preocupação com a busca da qualidade dos alimentos.

Muitas das crises sanitárias recentes têm como origem produtos alimentares. E isso vai elevar as exigências do consumidor mundial. O Brasil tem bom controle sanitário interno, mas episódios recentes mostraram falhas, em especial no setor de proteínas.

Outro desafio para os produtores brasileiros é a sustentabilidade na produção dos alimentos. O país está sob fogo cruzado neste governo, devido ao aumento de incêndios, desmatamento e grilagem de terras públicas.

Avaliações sanitárias e de sustentabilidade vão pesar cada vez mais nas exportações brasileiras. Devido à presença maior do país no mercado mundial de alimentos, esses temas passam a ser o calcanhar de Aquiles e motivos para barreiras tarifárias.

Esses entraves não são generalizados no setor, mas suficientes para dificultar a presença brasileira de alimentos no mundo, principalmente em países que estão em condições desfavoráveis de produção agrícola.

Os números do agronegócio mostram por que o setor evitará uma saída ainda mais dolorosa da crise. Os dados mais recentes da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) apontam para safra recorde de 257 milhões de toneladas de grãos neste ano.

Com isso, o VBP (Valor Bruto de Produção) indica um recorde de R$ 742 bilhões nas mãos dos produtores com a venda de sua safra. Esse valor nunca foi atingido antes e é uma injeção de renda no campo.

O bom momento da agricultura brasileira não ocorre por acaso. O país vem construindo esse caminho há vários anos. Nas duas últimas décadas, a produtividade agrícola cresceu 75%. Isso permitiu que a safra aumentasse 206% nesse período, embora a área utilizada tenha evoluído apenas 74%.

Assim como no setor de grãos, a cadeia de proteínas evoluiu, aumentou a produtividade e colocou mais produto no mercado.

Com isso, o Brasil, importador de alimentos há algumas décadas, assumiu a liderança mundial na exportação de diversos produtos e não deverá perder essa hegemonia.

O ano de 2020 está sendo excepcional, o que está ajudando o país na crise provocada pela Covid-19. Produção recorde, apetite chinês insaciável e câmbio favorável permitiram exportações de US$ 61 bilhões (mais de R$ 341 bilhões) de janeiro a julho.

A participação dos produtos do agronegócio nas exportações brasileiras mostra a importância do setor. Enquanto as receitas dos demais setores da economia caíram 19% neste ano, as do agronegócio subiram 9%.

Com isso, 51% dos dólares obtidos com as vendas externas até julho vieram do agronegócio, um percentual bem superior aos 43% de igual período de 2019.

O Brasil atingiu patamar de fornecimento de alimentos no mercado externo que não deverá perder. É líder em soja, café, açúcar, suco de laranja e carnes bovina e de frango. Está avançando muito em milho, algodão e carne suína. Essa diversidade de produtos garante receitas mesmo em épocas de crise.

Olhando para os números macroeconômicos, o agronegócio vai bem. Mas um recorte desses dados aponta situação menos confortável para pequenos e médios produtores, que dependem do mercado interno.

O PIB (Produto Interno Bruto) do agronegócio deste ano deverá crescer, ao contrário do dos demais setores, mas essa alta será impulsionada pelos grandes produtores, que encontram uma situação externa favorável.

O cenário para os pequenos, porém, não é tão animador assim. Sumiram do mercado de trabalho pelos menos 391 mil vagas no trimestre de abril a junho, e o auxílio emergencial chegou a 92% dos domicílios de baixa renda no campo.

Os dados são do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, e indicam que o fim da assistência emergencial poderá deixar essas famílias em situação vulnerável.

Quanto aos grandes produtores, os desafios relativos à busca de sustentabilidade de produção são ainda maiores, uma vez que estão expostos ao mercado externo. As responsabilidades social, ambiental e ecológica tornaram-se imprescindíveis.

Cresce o consenso na cadeia produtiva de que o relatório de sustentabilidade de uma empresa será tão importante quanto o de bons resultados financeiros.

Tanto que investidores estrangeiros e os próprios empresários brasileiros alertaram o governo recentemente sobre os estragos que o afrouxamento de controles ambientais pode trazer para os produtos brasileiros no mercado exterior.

São poucos os que burlam as leis ambientais, mas em número suficiente para pôr sob suspeita todo o sistema produtivo. Como diz o produtor Pedro Camargo Neto, ex-vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira, o setor tem de reagir à ação desses infratores. "Afinal, o que é ilegal é ilegal."

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