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Número de pessoas que passam fome nos EUA cresce com a pandemia

Segundo o Censo americano, causas incluem maiores preços dos alimentos e fechamento de escolas

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Washington | The Wall Street Journal

O número de americanos que afirmam não ter condições de comprar comida suficiente para si ou para seus filhos está aumentando, de acordo com dados do Censo dos EUA, e é provável que cresça ainda mais agora que alguns benefícios do governo expiraram.

No final do mês passado, cerca de 12,1% dos adultos eram de famílias que não tiveram o suficiente para comer em algum momento da semana anterior, ante 9,8% no início de maio, segundo os números do Censo. E quase 20% dos americanos com filhos em casa não tiveram dinheiro para alimentar suficientemente os filhos, contra quase 17% no início de junho.

Os dados são de pesquisas semanais conduzidas pelo Censo dos EUA de abril a julho, nas quais os pesquisadores perguntaram aos entrevistados se suas famílias estavam ganhando o bastante para comer.

Os bancos de alimentos também afirmam ter visto uma alta da demanda nos últimos meses. E o número de pessoas que recebem benefícios por meio do Programa de Assistência à Nutrição Suplementar (Snap na sigla em inglês), comumente conhecido como vale-refeição, aumentou quase 16% entre março e abril, de acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, um aumento muito mais rápido do que durante a última recessão, quando o maior aumento em um mês foi de 7,3% em setembro de 2008.

Bandeira norte-americana em Nova York, Estados Unidos - Johannes Eisele/AFP

"Está claro para mim que há um grande problema aqui, e parece ser pior do que no auge da Grande Recessão", disse Diane Whitmore Schanzenbach, economista da Universidade Northwestern.

Esse número deverá crescer agora que os trabalhadores desempregados não recebem mais US$ 600 semanais em benefícios extras federais. As negociações para prorrogar o programa foram interrompidas enquanto os democratas buscavam manter os pagamentos em US$ 600 e os republicanos queriam gastar menos. O presidente Trump está tentando manter parte do dinheiro fluindo por meio de ações executivas.

Katie Fitzgerald, diretora de operações da Feeding America, com sede em Chicago, espera que mais pessoas apareçam agora na rede do grupo de 200 bancos de alimentos ou solicitem assistência nutricional federal. Na maioria dos casos, os benefícios extras ao desemprego levaram a renda familiar acima do limite de elegibilidade para o vale-refeição.

"Já respondemos de forma extraordinária à demanda elevada", disse Fitzgerald. "Nosso medo é porque precisamos muito do apoio federal para continuar, porque poderemos ter dificuldade para responder se tivermos que ir muito além disso."

A Feeding America distribuiu 1,9 bilhão de refeições desde março, cerca de 50% a mais que o normal, disse ela. O grupo espera uma demanda por mais de 14 bilhões de refeições até junho próximo, mais que o dobro da quantidade que poderá oferecer.

Na Virgínia, o Departamento de Serviços Sociais se prepara para um aumento nas inscrições no Snap, disse o comissário Duke Storen. Ele estima que cerca de 33 mil famílias poderão se tornar elegíveis para o vale-refeição com o término dos benefícios extras a desempregados. Um total de 384.686 famílias da Virgínia receberam benefícios do Snap em junho, contra 333.669 em fevereiro.

"Estamos tentando juntar dinheiro para fazer horas extras e trabalhadores temporários", disse ele.
O Congresso facilitou temporariamente a inscrição para o vale-refeição e deu a todos os destinatários o benefício máximo permitido, independentemente de eles se qualificarem para tanto. Os deputados democratas pressionaram por um aumento de 15% até o benefício máximo. Os republicanos não incluíram um aumento na verba do Snap em sua proposta mais recente, mas indicaram disposição a discutir a ideia.

Pesquisadores apontam várias explicações possíveis para o aumento da insegurança alimentar relacionada à pandemia. Primeiro, pode demorar um pouco para que os trabalhadores demitidos comecem a receber o seguro-desemprego. Conseguir comida suficiente pode ser um desafio durante esse intervalo.

Em segundo lugar, algumas escolas e creches que ofereciam refeições gratuitas estão fechadas. O pagamento dessas refeições pode ser caro, mesmo para os pais que trabalham.

Lauren Bauer, pesquisadora do Instituto Brookings, estima que quase 12% dos adultos com filhos em casa que mantiveram sua renda não conseguiram comprar comida suficiente para essas crianças na semana que terminou em 21 de julho.

Terceiro, as interrupções no fornecimento aumentaram os preços dos alimentos. Eles subiram 4,1% em julho em relação ao ano anterior, muito mais rápido do que a taxa de inflação geral, de 1%, segundo o Departamento do Trabalho. Os preços da carne moída aumentaram 15%.

Os esforços federais para reforçar a segurança alimentar tiveram algum sucesso. A expansão dos benefícios ao desemprego reduziu em 42% a probabilidade de comer menos devido a restrições financeiras entre as famílias com renda abaixo de US$ 75 mil anuais, de acordo com pesquisa de Julia Raifman e Jacob Bor, da Universidade de Boston, e Atheendar Venkataramani, da Universidade da Pensilvânia.

Um estudo do Brookings descobriu que entre 2,7 milhões e 3,9 milhões de crianças deixaram de passar fome graças a um programa que as reembolsava por merenda escolar a preço reduzido ou gratuita que perderam porque as escolas foram fechadas. Mas esse programa expirou no verão.

"Cada uma dessas peças se mostrou um pouco eficaz, mas não estamos nem perto de resolver o problema", disse Bauer, uma das autoras do estudo.

Em Washington, D.C., o Exército de Salvação distribui cerca de 400 sacolas de supermercado com feijão enlatado, arroz e outros não perecíveis todos os meses em seu centro na Sherman Avenue, contra cem antes da pandemia, disse Indrani Bhatnagar, que dirige o centro. Muitos destinatários estão recebendo doações pela primeira vez.

Uma delas é Estefani Iraheta, mãe de dois filhos, que recebe alimentos doados desde abril, quando perdeu o emprego em um restaurante. O marido, que trabalha em uma loja, teve o horário reduzido.

"Cada vez tem mais pessoas na fila", disse ela em uma manhã recente, ao parar no centro. "Nunca vivemos uma situação como a que temos hoje."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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