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Descrição de chapéu Agrofolha

Relacionamento entre setor do agronegócio e Planalto amadurece com a crise

Movimento coincide com arrefecimento da agenda ideológica do bolsonarismo

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São Paulo

Setor associado a Jair Bolsonaro quando sua candidatura ainda era alvo de chacota em Brasília, o agronegócio chega ao segundo semestre de 2020 em alta no governo.

Na semana passada, o ministro da Economia Paulo Guedes disse que o bom desempenho do agro ajudou a evitar um colapso nas exportações do país durante a pandemia.

Enquanto a indústria de transformação caiu 15% no primeiro semestre, a agropecuária teve 21% de aumento nas suas vendas. Cerca de 24% do PIB (Produto Interno Bruto) deste ano virá do campo.

A isso somou-se o arrefecimento da agenda ideológica do bolsonarismo no governo, que coincide com a prisão do ex-assessor do clã presidencial Fabrício Queiroz, em junho.

Os dois movimentos pacificaram, por ora, uma relação que foi menos harmoniosa do que fazia crer o envolvimento de líderes do agro com a campanha de Bolsonaro.

“Hoje somos muito mais respeitados do que no passado”, afirma Alceu Moreira, deputado federal pelo MDB-RS que preside a FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária).

Moreira ressalta que o grupo, que conta com 39 de 81 senadores e 245 dentre os 513 deputados em suas fileiras, não pode ser chamado de bolsonarista.

“Tanto há independência que trabalhamos para derrubar vetos do governo”, disse, em relação aos três dispositivos de crédito agrícola que Bolsonaro quis retirar da chamada Lei do Agro, reinstalados neste mês.

O agro não é monolítico, contudo, assim como não é sua representação no governo.

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, é quem está à frente das negociações institucionais.
“O agro tem recebido atenção do ministério e aposta e acredita no trabalho sério e eficiente da ministra. Ela é produtora rural e conhece o setor”, afirma o presidente da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), João Martins. A entidade não apoiou nenhum candidato em 2018.

“O trabalho da ministra é excelente”, afirma o deputado Alceu Moreira.

A ministra era a presidente da FPA quando, a cinco dias do primeiro turno da eleição de 2018, a entidade apoiou Bolsonaro.

Na mesa em que estavam para a foto de celebração estava também Luiz Antônio Nabhan Garcia. O presidente da UDR (União Democrática Ruralista), demonizado pela esquerda e pelos sem-terra, era e é o principal nome que Bolsonaro ouve quando o assunto é o campo.

O presidente esteve com o então deputado em viagens a feiras agropecuárias no interior brasileiro. Foi Nabhan quem o apresentou a lideranças e ajudou a modular o discurso.

Como no caso do mercado financeiro, Bolsonaro não tinha histórico a apresentar, mas tocava a música que a plateia queria ouvir. No caso do agro, temas como segurança no campo e regularização fundiária.

Nabhan era visto como aposta certa para o ministério, mas acabou ficando com o cargo de secretário de Assuntos Fundiários da pasta. Com um estilo abrasivo oposto ao de Tereza, colecionou polêmicas, derrubou um general da Funai e outro do Incra, e teve parte da desenvoltura tolhida pelo Supremo Tribunal Federal.

Mas segue sendo ouvido pessoalmente ao menos uma vez por semana pelo presidente no Palácio do Alvorada.

Nas intrigas do governo, Nabhan é descrito no círculo do presidente como mais antenado a questões dos produtores, enquanto Tereza faz uma interlocução maior com frigoríficos e tradings.

A ministra até aqui resistiu aos ataques especulativos contra seu posto. Eles vieram primariamente da ala ideológica, em três episódios distintos.

Tereza, com o apoio do vice-presidente, Hamilton Mourão, ajudou a acalmar os ânimos de árabes e chineses quando arroubos ideológicos colocaram o governo em antagonismo com esses grandes compradores de commodities agrícolas.


A embaixada brasileira em Jerusalém acabou virando um escritório, e Bolsonaro conversou com o colega chinês, Xi Jinping, após críticas de um de seus filhos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), à condução da pandemia por Pequim.

“Esse pessoal não é preponderante mais, já não falam tanto”, afirma o deputado Alceu Moreira, acerca da ala dos ideológicos.

O outro foco é o ambiente, já que a questão da Amazônia fecha mercados no Ocidente. Isso colocou Tereza num polo antagonista ao do ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, que teve a cabeça pedida por exportadores de proteína animal.

Em entrevista à Folha há duas semanas, a ministra defendeu a aplicação do Código Florestal como forma de normatizar a questão do desmatamento, mas não entrou em dividida com Salles.

Na ponta, o governo segue sendo aprovado, no geral. “Quando o estado mandou a gente fechar nossa fábrica em 48 horas, por causa da pandemia, o ministério entendeu que éramos essenciais para fazer o pão chegar na mesa de quem estava de quarentena”, afirma Carolina Rossato.

Ela dirige uma fábrica de máquinas agrícolas no Rio Grande do Sul e é vice-presidente do sindicato do setor, que foi incluído na categoria essencial pelo governo.

“O desafio agora é a industrialização, para podermos mudar nosso patamar de exportadores só de commodity e vender produtos elaborados do campo”, diz Rossato.

Martins, da CNA, vai na mesma linha, defendendo “que as novas tecnologias cheguem ao campo, para manter e ampliar o mercado internacional, com uma pauta exportadora cada vez mais diversificada”.

Antes disso, o próximo item que deverá gerar atrito político entre o agro e o governo é a reforma tributária. Nenhuma das propostas no Congresso agrada o setor.

A CNA vê problemas com alíquotas únicas, com a obrigação de o produtor rural pessoa física se tornar contribuinte do Imposto sobre Bens e Serviços e com o fim da desoneração da cesta básica, entre outros.

“Queremos a simplificação. Temos força para não deixar ninguém aumentar a carga em cima do agro”, diz Moreira.

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