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Descrição de chapéu A Cor da Desigualdade no Brasil

Dispara a desigualdade entre brancos e negros no Nordeste com crise econômica

Na região, renda dos brancos 10% mais ricos subiu de 2012 a 2019, enquanto a dos negros caiu

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Salvador e Maragogipe

Nas margens do rio Paraguaçu, operários entram em um barco e seguem até uma das três grandes plataformas de petróleo a poucos metros do cais. Eles não vão construir nem fazer reparos no maquinário: vão retirar parte dos equipamentos que serão vendidos como sucata.

As plataformas estão junto à vila de São Roque do Paraguaçu, em Maragogipe (140 km de Salvador), cidade do recôncavo baiano que foi do céu ao inferno em menos de uma década.

O distrito, que abriga galpões da Petrobras e um estaleiro erguido por empresas privadas, reflete o arrefecimento das grandes obras que dizimou a renda em estados do Nordeste, com impacto ainda maior para os trabalhadores negros. Dados do Ifer (Índice Folha de Equilíbrio Racial) apontam que houve aumento no fosso que separa a renda de pretos e pardos, de um lado, e brancos, de outro, na maioria dos estados nordestinos nos últimos anos.

A disparidade na região como um todo se traduzia em um indicador já negativo de -0,43, em 2012, que piorou para -0,60 em 2019. Os números apontam uma sub-representação dos negros, em relação a seu peso populacional, no grupo dos nordestinos 10% mais ricos. Com a piora de 40% no Ifer, o Nordeste perdeu o posto de região menos desigual do país, despencando para a quarta posição, na frente apenas do Sudeste.

Embora a crises econômica tenha abalado a economia nordestina como um todo, os brancos 10% mais ricos viram sua renda subir de 2012 a 2019, enquanto os salários e rendimentos dos negros caíram.

Em Maragogipe, cuja população é formada por 81% de pretos e pardos, a paralisação das obras do estaleiro foi como um baque. O desemprego na cidade explodiu, empurrando profissionais como o caldeireiro Renato Bispo de Souza para a informalidade.

“Foi um empreendimento que aqueceu a economia de todo o recôncavo”, lembra Renato.

Renato Bispo de Souza, 33, em frente a uma plataforma abandonada no rio Paraguaçu; arrefecimento das grandes obras dizimou a renda em estados do Nordeste - Rafael Martins/Folhapress

Desde a demissão, ele conseguiu apenas empregos temporários em obras pontuais. Trocou a construção pesada pela venda de roupas e cosméticos de porta em porta há cerca de um ano.

Em um mês movimentado, ele lucra cerca de R$ 2.000. Mas a pandemia fez com que, desde o início de 2020, caísse a demanda pelos produtos que vende, dificultando o sustento dele, da mulher e de seus quatro filhos.

“Foi uma mudança drástica, tivemos que apertar o orçamento”, diz Souza.

Colega de Renato no estaleiro, Alex Cavalcante, 35, também trocou a construção pesada pela informalidade. Hoje, trabalha como taxista.

Cavalcante, que permanece em São Roque, ainda alimenta a esperança de uma retomada: “Tenho muita sede para trabalhar”.

Na grande Salvador, a situação do operário Eliezer Souza Júnior, 48, não é diferente. Mesmo com larga experiência na construção pesada, não consegue um emprego formal desde o início de 2020.

“Até 2014, houve um ciclo de gastos elevados no Nordeste. Mas com o crescimento do déficit público, as despesas discricionárias do governo acabaram sendo reduzidas. Isso teve um impacto forte na economia da região”, avalia o economista Alexandre Rands, da Universidade Federal de Pernambuco.

A conta da crise caiu, sobretudo, sobre os trabalhadores negros. Especialistas apontam o passivo histórico de desigualdades como fator que faz com que a população negra esteja mais suscetível ao impacto das crises.

“As empregadas domésticas que perderam seus empregos são negras. Os entregadores de aplicativo também são em sua maioria negros”, afirma Olívia Santana (PCdoB), deputada estadual e ex-secretária do Trabalho da Bahia.

A falta de um trabalho com carteira assinada se reflete em um efeito cascata na vida de profissionais como Júnior, reduzindo mais suas chances de mobilidade social.

Operários trabalham na desmontagem das plataformas da enseada do Paraguaçu - Rafael Martins/Folhapress

Há três anos, ele conciliava o seu trabalho com os estudos na Faculdade de Direito na Universidade Federal da Bahia, onde ingressou pelo sistema de cotas raciais.

Nos últimos dois anos, não conseguiu acompanhar a maior parte das aulas, que passaram a ser remotas. Não tem um computador e nem sempre tem condições de pagar a internet no celular.

Com a renda que consegue com os biscates, prioriza o filho de 14 anos, que está fazendo um curso de informática.

Mas as dificuldades sempre existiram. Júnior diz que nunca teve incentivos para estudar nas empresas onde trabalhou. Pelo contrário: encontrava dificuldades até quando precisava deixar o serviço um pouco mais cedo para conseguir chegar a tempo na universidade.

Em sua avaliação, a roda gira para não sair do lugar, sobretudo na construção.

“A construção ainda tem aquele resquício da escravidão. Em muitos lugares, os operários ficam jogados, como em senzalas”, diz.

Apoio

Esta reportagem faz parte de uma série que resultou do programa Laboratórios de Jornalismo de Soluções da Fundación Gabo e da Solutions Journalism Network, com o apoio da Tinker Foundation, instituições que promovem o uso do jornalismo de soluções na América Latina.

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