Siga a folha

Descrição de chapéu
Governo Trump Eleições EUA 2020

Sem surpresas, Trump faz de discurso na ONU outro palanque eleitoral para convertidos

Republicano espelhou na Assembleia Geral receita na qual aposta para ser reconduzido à Casa Branca: falar com os seus

Conteúdo restrito a assinantes e cadastrados Você atingiu o limite de
por mês.

Tenha acesso ilimitado: Assine ou Já é assinante? Faça login

Washington

Surpresa seria se fosse diferente. Donald Trump usou a Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira (22) como mais um palanque de sua campanha à reeleição. Com um discurso de tema quase único, o presidente embalou convertidos na tese de que a China é a culpada pela pandemia de coronavírus.

Trump sabe que se existe um assunto hoje capaz de unir americanos —e isso inclui democratas— é a tomada de posição anti-Pequim. Mas o presidente leva isso à décima potência ao usar o termo "vírus chinês", culpar o país asiático por praticamente todas as mazelas dos EUA e dizer que é preciso responsabilizar Pequim por ter infectado o mundo todo.

Em um vídeo gravado de dentro da Casa Branca, Trump não precisou encarar a delegação chinesa —que normalmente assistiria ao discurso do plenário se não fossem as restrições da pandemia— e fez o que foi considerado por diplomatas um dos pronunciamentos mais duros entre grandes potências dentro da ONU.

Em telão da ONU em Nova York, o presidente dos EUA, Donald Trump, discursa na Assembleia Geral do órgão - Rick Bajornas/UN Photo via AFP

"Temos que responsabilizar a nação que espalhou essa praga pelo mundo: a China", disse Trump, para, em seguida, acrescentar que a ONU precisa liderar um movimento global contra Pequim.

A 42 dias da eleição, o atual líder americano está atrás do democrata Joe Biden nas pesquisas nacionais e na maior parte dos estados-chave. Assim, ele luta para se eximir de responsabilidades e tentar mudar a narrativa para que o pleito não seja um referendo sobre sua condução errática e ineficaz da pandemia.

A estratégia —reprisada em comícios, entrevistas, entrevistas coletivas e pronunciamentos públicos— foi levada hoje ao centro do plenário da ONU, diante dos holofotes das autoridades internacionais para tentar amplificar a mensagem de que é necessário fazer pressão sobre o governo de Xi Jinping.

"Todos os líderes abriram seus discursos [nesta terça] com o tema da Covid-19 e seu impacto na situação global", disse Kristina Rosales, porta-voz do Departamento de Estado americano. "A ONU deveria ser eficaz, e Trump faz essa pressão porque parece que ninguém quer apontar o dedo [para o país asiático]."

A retórica de que a China escondeu ou deu informações incompletas sobre o coronavírus, junto com a OMS (Organização Mundial da Saúde), é repetida pelo republicano há meses.

O presidente é crítico contumaz de organismos multilaterais e sabe que sua posição, adepta ao nacionalismo e ao protecionismo, agrada à base conservadora. Eleitores de redutos importantes do presidente preferem muitas vezes se escorar na defesa que ele faz de posições pró-armas e anti-aborto a se preocupar com o fato que os EUA são o país com mais casos de Covid-19 no mundo: quase 7 milhões.

E foi para eles que Trump falou. Disse que seu governo protege "crianças que ainda não nasceram", que a China cometeu "abusos comerciais" e, ao elencar o que classifica como conquistas de sua política externa, citou a saída do pacto nuclear com o Irã, o "maior estado financiador do terrorismo."

De olho no eleitorado latino mais conservador, fundamental em estados cruciais como a Flórida, expressou apoio às populações de Cuba, Nicarágua e Venezuela "em suas lutas pela liberdade."

O discurso, concebido com a participação de diversos auxiliares e setores do governo americano, terminou com o que Trump considera a receita óbvia para ser reconduzido à Casa Branca: falar com os seus. "Como presidente, orgulhosamente estou colocando os EUA em primeiro lugar, assim como vocês devem priorizar seus países. Isso é ok, é o que vocês deveriam estar fazendo."

Trump não sabia se a imprensa americana daria ou não grande destaque ao pronunciamento —não deu. Mas o apetite eleitoral do presidente faz com que a poucos dias da eleição não haja espaço para muito além da mensagem que, acredita ele, vai reconduzi-lo à Casa Branca.

Receba notícias da Folha

Cadastre-se e escolha quais newsletters gostaria de receber

Ativar newsletters

Relacionadas