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Silencioso, coronavírus seguiu rotas aéreas para virar pandemia e matar 1 milhão

Pesquisas mostram que Covid-19 se espalhou para países mais conectados por avião antes que voos fossem suspensos

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Bruxelas

Quando os aviões foram recolhidos para os hangares e os aeroportos fecharam, já era tarde para interromper a trajetória que levou a 1 milhão de mortos por Covid-19 no mundo todo.

Nas três semanas que separam 31 de dezembro de 2019, quando o governo chinês comunicou ao mundo a descoberta de uma nova doença, e 23 de janeiro, quando o tráfego aéreo entre Hubei, epicentro da pandemia à época, e o resto da China foi bloqueado, 7 milhões de pessoas —o equivalente à população de toda a cidade do Rio— haviam deixado a capital da região, Wuhan, para o feriado de Ano Novo, segundo dados de celulares.

Nesse período, Pequim, Xangai e outras grandes cidades chinesas registraram surtos de algo que ainda nem tinha nome —falava-se em pneumonia de causa desconhecida.

Membro da equipe de segurança do aeroporto de Xangai, com roupas de proteção, acompanha passageiro - Hector Retamal - 26.mar.20/AFP

Os 104 casos notificados até o começo do ano já haviam se multiplicado por seis, se considerados apenas os números oficiais. Para além deles, uma rede invisível de contágio atingira ao menos 1.000 pessoas, nos cálculos de universidades americanas como a Johns Hopkins e a de Washington.

Quase 20 mortes tinham sido atribuídas ao novo coronavírus, a esta altura já mapeado geneticamente, mas ainda não batizado. Para os cientistas, ele era o nCoV. Em mais dez dias, 7.700 haviam sido infectados, e 170, morrido na China. Só então se anunciou que a doença se transmitia de um ser humano para o outro —pior que isso: cada infectado contagiava de duas a três outras pessoas.

Durante todo esse tempo, até 200 mil aviões cruzavam os céus do mundo todos os dias, numa complexa rede de 3.880 aeroportos ligados por 18.810 rotas. Em média, levavam diariamente 6 milhões de pessoas de lá para cá e de cá para lá.

“Lá” é com maior frequência justamente a China, onde o coronavírus foi registrado pela primeira vez, em dezembro de 2019 (estudos posteriores indicam que pode ter havido casos em novembro).

É chinês 1 a cada 6 passageiros aéreos no mundo, ou seja, quase 700 milhões dos cerca de 4 bilhões anuais, segundo dados da Iata, associação internacional do setor aéreo.

A China tem também o mais movimentado tráfego doméstico de aviões do mundo. Pelo aeroporto de Pequim, o segundo do ranking global, passam 10 milhões de pessoas por ano. O de Wuhan, capital da província de Hubei, é só o 14º do país, segundo a autoridade aérea chinesa.

Mas isso é o suficiente para receber mais de 55 mil pessoas por dia, levadas por 50 companhias aéreas para centenas de destinos na China e fora dela —Tóquio, Bancoc e Singapura são alguns deles.

Quando o mês de janeiro terminou, a Organização Mundial da Saúde (OMS) foi a público falar em estado de emergência. Só então voos internacionais partindo da China começaram a ser suspensos, mas o patógeno já havia sido importado por 21 países, segundo pesquisadores, entre eles Japão, Coreia do Sul, Austrália, Canadá, Estados Unidos, França e Itália.

Não por acaso, viajara pelas linhas mais movimentadas do mundo. A Tailândia, destino mais popular entre os chineses, com 15 mil viajantes mensais, foi a primeira a detectar o contágio depois da China, em 20 de janeiro, logo seguida por Japão e Coreia do Sul.

Nos EUA, o primeiro diagnóstico foi feito no dia seguinte em Seattle, cidade da Costa Oeste na rota entre os dois países. Em 24 de janeiro, os dois primeiros casos foram confirmados na França.

Àquela altura, ninguém havia recebido o diagnóstico na América do Sul e na África, regiões menos interconectadas, mas provavelmente o patógeno já andava por ali. Segundo pesquisadores americanos, cerca de 85% dos viajantes infectados não foram detectados em janeiro. Em seus destinos, começaram a espalhar a doença em eventos esportivos, cultos religiosos, vagões lotados e outros pontos de contato.

Em fevereiro, oito nações europeias já tinham confirmado a presença do Sars-CoV-2, recém-batizado pelo Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus. A doença ganhou o nome de Covid-19, e cientistas já enxergavam uma pandemia no horizonte.

“Profundamente preocupada com os níveis alarmantes de contágio e severidade da Covid-19 e pelos níveis alarmantes de inação”, a OMS usou a palavra em 11 de março. A Itália havia acabado de decretar "lockdown", e o vírus já se espalhara por 24 países europeus.

Estudos mostram que a malha aérea determina o padrão global de doenças emergentes, mas isso não quer dizer que a culpa da pandemia seja dos aviões. Foi o acúmulo de uma doença completamente nova —e portanto não detectável—, cujo causador se espalha facilmente mesmo quando não provoca sintomas, em um mundo em que as pessoas se deslocam muito e têm pressa.

O ritmo do coronavírus é outro. Ao entrar no corpo humano, ele passa por um período de incubação, em que se multiplica até o nível capaz de causar sintomas. Os cientistas ainda não sabem tudo sobre o Sars-Cov-2, mas a estimativa é que isso leve de 1 a 14 dias, sendo mais comum o intervalo de 5.

Eles também estimaram que o chamado “intervalo serial”, em que ocorre o contágio, é de 4 dias. Um período serial mais curto que o de incubação indica que a transmissão ocorre mesmo sem sintomas.

O infectado se transforma numa bomba ambulante de vírus, capaz de transmitir a doença sem se dar conta a qualquer um que ficar ao alcance de suas gotículas de saliva —até 2 metros, em geral.

Se um executivo contaminado em Xangai decidisse voltar a sua casa em Roterdã, na Holanda, de navio, os 40 dias de viagem seriam mais que suficientes para que a doença se manifestasse, ele fosse isolado e tratado e todos a bordo entrassem em quarentena antes de atracar.

De avião, ele faz o mesmo percurso em, no máximo, 18 horas, a tempo de circular bastante antes de apresentar febre ou tosse. O que faz diferença, portanto, não é o meio de transporte, mas a duração da viagem. O mesmo executivo pode levar o coronavírus a Londres igualmente de carro, barco, trem ou avião, sem que a doença se manifeste no caminho.

Dez meses e 1 milhão de mortes depois, o quadro mudou. Fazer um voo usando máscara e mantendo as regras básicas de higiene pode ser menos arriscado do que ir a uma festa no bar da esquina.

Pesquisadores e entidades de saúde pública já têm clareza sobre como controlar a pandemia: testar, isolar e tratar os infectados, rastrear os contatos e colocá-los em quarentena, evitar “eventos amplificadores” (muita gente muito perto uma da outra por muito tempo em locais fechados) e proteger os mais vulneráveis (idosos e doentes crônicos).

A principal pergunta agora é outra, disse na sexta (25) o diretor-executivo da OMS, Michael Ryan: “Estamos preparados para evitar mais 1 mihão de mortes?”.

Caso a resposta seja negativa, afirmou o diretor, “não é inimaginável que cheguemos aos 2 milhões de mortos, talvez ainda mais”. Mais que imaginável, segundo ele, “sem a cooperação de todos, é provável”.

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