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'Não queremos uma relação séria com o Oriente Médio', disse Fisk

Leia entrevista do jornalista britânico, morto neste domingo (1º), à Folha em 2007

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Washington

Morto neste domingo (1°), o jornalista britânico Robert Fisk, celebrado correspondente de guerra, viveu por décadas no Líbano e se tornou um dos mais destacados correspondentes estrangeiros no mundo.

Nesta entrevista ao então correspondente da Folha em Washington, Sérgio Dávila, publicada em 25 de junho de 2007, Fisk fala sobre as relações do Oriente Médio com os Estados Unidos, o radicalismo islâmico e a visão crítica do Ocidente.

Naquele ano, o jornalista visitou o Brasil, pela segunda vez, e participou da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

*

O Oriente Médio quer liberdade, mas é a liberdade de se ver livre dos ocidentais, pois o povo começa a perceber que estes não querem ter uma relação séria com a região, só proteger seus interesses.

A opinião radical é de um ocidental, o correspondente de guerra britânico Robert Fisk, do diário The Independent, que vive ali há quatro décadas.

Fisk, 60, vem ao Brasil no mês que vem participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na qual lança os livros "Pobre Nação", sobre o Líbano, onde vive, e a biografia "A Grande Guerra pela Civilização". É a sua segunda vez no país —esteve em maio de 2006, em evento comemorativo dos 85 anos da Folha.

Aviso ao leitor: esse repórter conheceu Fisk durante a Guerra do Iraque, no Palestine Hotel, em Bagdá, em março de 2003. Desde então, já conversou algumas vezes com ele e é o autor do texto da orelha de suas memórias.

"Fico feliz por George W. Bush estar saindo logo mais. Tenho medo de que ele invada o Irã em 2008. Acordo todas as manhãs e penso: aonde esse homem nos levará hoje?", disse ele, por telefone, à Folha, na tarde de sexta-feira. Leia a entrevista a seguir.

*

A política oficial do governo Bush para o Oriente Médio é espalhar a democracia na região. Os palestinos escolheram democraticamente o Hamas, o que levou ao atual conflito. O sr. acredita que haja um modelo único de democracia?

[Irônico] Mas eles votaram nas pessoas erradas, esses palestinos! Veja, o Hamas não foi eleito porque eles queriam um grupo extremista no poder, mas porque queriam acabar com a corrupção do Fatah. Não é o modelo de democracia o problema, e sim o que há por trás dele. O mesmo ocorreu aqui no Líbano, que era considerado por Bush como o exemplo de que a democracia funciona na região.

O Hizbollah atravessou a fronteira de Israel e capturou soldados no ano passado. Em vez de tratarmos isso como um incidente, sério mas não no nível de uma nova Guerra Mundial, os israelenses começaram a bombardear pesadamente esse país, fazendo dos membros do Hizbollah heróis e permitindo que eles finalmente destruíssem um governo democraticamente eleito. E agora nós estamos vivendo as conseqüências de um país sem lei.

Robert Fisk, correspondente do jornal inglês The Independent, participa do Fórum Folha de Jornalismo, em 2006 - Ayrton Vignola/Folhapress

Ou seja, nós nos importamos tanto com a democracia do Líbano, até que o país começou a ser destruído por Israel, aí não ligamos mais. Agora, voltamos a nos importar. Uma libanesa xiita amiga minha me disse: "Eu nunca mais confiarei num estrangeiro". Eu respondi: "Se vocês, libaneses, confiassem em vocês mesmos, em seus vizinhos, o tanto que confiaram em Teerã, Washington, Damasco, Tel-Aviv, vocês estariam mais seguros".

O sr. vive aí há algumas décadas já. Qual o problema com o Oriente Médio? Há um problema só e um Oriente Médio só, como parece imaginar a maioria dos ocidentais?

As pessoas vão dizer que "é algo tão complicado que você não vai conseguir entender".

Não é verdade. O Oriente Médio é claro, a história é clara, eles estão tentando sair de 100 anos de colonialismo, imperialismo, seja lá como você quer chamar. Ao mesmo tempo, não é tão simples quanto os governos ocidentais tentam fazer parecer. É um caso de justiça básica. Nós queremos levar a democracia a eles, mas chegamos com nossos veículos blindados, nossos ataques aéreos, como sempre fizemos, desde 1917, quando primeiro tentamos "libertar" Bagdá.

As pessoas gostariam de viver em democracias, mas querem um tipo diferente de liberdade, ser livres de nós, e não temos a intenção de dar isso a eles. Não queremos ter uma relação séria com o Oriente Médio, não queremos dar o controle a eles. Colocamos nossos ditadores no poder, nós os pagamos, nós os armamos, mas nós os controlamos.

Mas o sr. exime o radicalismo islâmico?

O islamismo tem problemas, é uma religião literal ou de interpretação literal, se você preferir. Não se pode questionar o Alcorão, enquanto podemos debater o sentido da Bíblia quanto quisermos. Uma das razões para essa visão radical, creio, é que por centenas de anos o Oriente Médio esteve sob pressão do Ocidente. E você não debate Deus quando o inimigo está na porta. O Renascimento não aconteceu do mesmo jeito aqui. Mas, quando o mundo muçulmano tentou se modernizar, sob o Império Otomano, o que nós fizemos?

Nós os destruímos. Várias vezes nós jogamos esses jogos conosco mesmo e com o povo do Oriente Médio. Eu sei que liberdade de imprensa, educação do povo não estão nos padrões que deveriam estar nessa parte do mundo —talvez você possa dizer isso de alguns lugares da América Latina, também. Mas o fato é que as pessoas querem construir suas próprias sociedades. Mas nós queremos estar juntos, guiá-los, ensinar o que fazer, garantir que nosso petróleo esteja protegido. Nós não nos importamos com eles e eu acho que as pessoas aqui percebem isso.

É a "Guerra pela Civilização", da qual trata seu livro?

Tirei o título de uma medalha que ganhei do meu pai, que lutou na Primeira Guerra Mundial, cujo lema era esse. É uma linguagem de estúdios de TV. "Terror", "civilização", "eles", "nós", "bem", "mal". Não sei de que maneira somos afetados pela linguagem quando lidamos com as complexidades de um mundo extremamente perigoso e violento, mas somos.

Durante a Segunda Guerra, [o premiê britânico Winston] Churchill e [o presidente americano Franklin Delano] Roosevelt falaram muito mais eloqüentemente do que os Bushes e os Blairs. E era uma guerra de verdade, 60 milhões de pessoas mortas entre 1939 e 1945. Sessenta milhões! Então acho que eles tinham um senso de realidade mais aguçado do que o que temos hoje.

Churchill disse uma vez que a verdade é tão preciosa que deve ser protegida por uma armadura de mentiras. Mas acho que havia então uma integridade na política, mesmo na guerra, que não existe agora, e que o uso de palavras como "civilização" e "terror islâmico" são moedas questionáveis. Assim como as palavras dos ditadores árabes, "mãe de todas as batalhas" e outras. O que eu posso dizer?

Nós gostamos dessa linguagem, nós lutamos por essa linguagem.

O sr. afirma que se recusa a seguir a narrativa da história. Por que essa rebeldia?

Foi a maneira que escolhi para ser jornalista. Nós muitas vezes nos tornamos meros repetidores, como em "O primeiro-ministro disse...", "O Departamento de Estado acredita que...". Basta assistir a uma coletiva em Washington com o presidente. "Sr. presidente! Sr. presidente!" "Sim, John". "Sim, Bob". Uma relação amigável, quase narcisística, entre jornalistas e o poder. Não deveríamos deixar nossos jornalistas ou nossos presidentes ou nossos primeiros-ministros nos dizerem o que é história e o que não é.

Veja o que estamos aceitando agora, que o Irã é perigoso porque tem armas nucleares. O verdadeiro perigo está no Paquistão, que já tem armas nucleares de verdade. Mas está "do nosso lado", certo? E essas pessoas nos alimentam com as reportagens. Hoje, "Crise no Golfo". Amanhã, "Guerra ao Terror". Veja quão rapidamente adotamos as palavras, recolhemos essas palavras-lixo, repetimos e as tornamos verdadeiras. Fazemos o mesmo com todos esses líderes, pessoas que em muitos casos não têm nenhum conhecimento sobre o que falam.

Uma das críticas mais frequentes e bem fundamentadas feitas ao sr. é a de que seu trabalho é muito pró-Oriente em geral e que o sr. é muito rápido em culpar o Ocidente por todos os males. Como responde a isso?

Veja o que escrevi sobre os Saddams e Arafats da vida. Sou bastante crítico a eles. Assim como à maioria dos regimes árabes. Como jornalista, você tem de estar do lado da justiça, do equilíbrio, da decência, tem de se posicionar. O Oriente Médio não é um jogo, onde você dá tempo equivalente para cada time. Não é um julgamento público, é uma imensa tragédia humana. Se estivéssemos cobrindo o tráfico de escravos no Brasil no século 17, nós daríamos o mesmo espaço ao escravo e ao traficante?

Em agosto de 2001, quando um jovem palestino se explodiu matando crianças israelenses, eu dei o mesmo espaço para os jihadistas islâmicos? Claro que não. A ideia de que nós temos de conduzir a cobertura de política estrangeira como se fosse um jogo matemático é absurda.

Temos de ter uma identidade moral como jornalistas. Quando vejo pessoas inocentes sendo bombardeadas, escrevo com simpatia pelos primeiros. Como deveria, por ser um ser humano. Tenho de ter o direito. Isso não quer dizer que você seja pró-arabe, ou pró-Israel ou pró-qualquer outra coisa.

Um dos casos citados como argumento para as críticas é aquela situação durante a Guerra do Afeganistão, em 2001, quando o sr. quase foi linchado por um grupo de afegãos e escreveu que entendia o que tinham feito e, no lugar deles, teria feito o mesmo. Ainda pensa assim?

A situação é simples: meu carro quebrou no meio de um grupo de refugiados cujas famílias acabavam de ter sido massacradas por um ataque de bombas de B-52s norte-americanos. E eu escrevi, de maneira franca, que se estivesse lá também daria uma surra no Robert Fisk. Isso tem sido repetido sem a referência ao bombardeio dos B-52s, como faz o Wall Street Journal. Em outras palavras, eu passo a querer que os muçulmanos linchem os ocidentais...

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