Descrição de chapéu jornalismo

Amigos de Audálio Dantas lembram histórias do jornalista em seu velório

Repórter que morreu aos 88 anos lutou contra ditadura e revelou Carolina Maria de Jesus

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Joelmir Tavares
São Paulo

Para alguém que passou a vida contando e construindo histórias, um velório cheio delas. Morto nesta quarta-feira (30) aos 88 anos, o jornalista Audálio Dantas recebeu homenagens de amigos, parentes e admiradores na tarde desta quinta no auditório do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

Presidente da entidade nos anos 1970, o alagoano terá o corpo cremado nesta sexta (1º) no Cemitério da Vila Alpina (zona leste). A cerimônia no sindicato, na região central da cidade, começou na hora do almoço e seguirá até as 19h30, quando um coral vai se apresentar.

Velório do jornalista Audálio Dantas, no auditório do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo - Adriano Vizoni/Folhapress

Num canto do salão, o vereador Eduardo Suplicy (PT-SP) dizia se lembrar com nitidez do discurso de Audálio na Catedral da Sé após o assassinato de Vladimir Herzog (1937-1975) pelo regime militar. O então dirigente do sindicato contestou a versão oficial do governo, de que o jornalista cometera suicídio, e denunciou que Vlado havia sido torturado e morto no DOI-Codi.

"Eu tenho o Audálio como um exemplo, um irmão de jornadas pela democracia e por justiça", afirmou Suplicy à Folha, emocionado. 

Ao lado do caixão, pendurada numa parede do auditório, uma grande foto de Herzog que ali faz parte da decoração reforçava o tempo todo um dos fatos mais mencionados da trajetória de Audálio. A viúva Clarice Herzog esteve no velório.

Amigos falavam com orgulho do papel que o jornalista e líder sindical teve na luta pelo fim do regime militar.

Ao lado da porta (e de um cartaz pedindo "Ditadura nunca mais"), o jornalista Fernando Morais contava que foi graças a um alerta de Audálio que ele escapou de ser preso no DOI-Codi. "Ele avisou minha família e eu fugi para Guaranésia, no sul de Minas. No dia seguinte, mataram o Vlado."

Morais disse que o colega de profissão tinha a capacidade de ser doce e corajoso ao mesmo tempo. "E morreu me devendo um prato de sururu, que ele fazia e era de comer chorando."

Coragem, palavra muito repetida no auditório em meio às lembranças, também foi uma característica apontada no funeral pelo jornalista Caco Barcellos.

"Ele foi muito solidário comigo quando fui perseguido e ameaçado depois do lançamento do 'Rota'. Acionou entidades internacionais, fez de tudo para me proteger", afirmou o autor de "Rota 66", livro de 1991 que revelou assassinatos cometidos por policiais.

O cartunista Mauricio de Sousa e a direção da TV Cultura mandaram algumas das coroas de flores. Perto delas, o ex-deputado petista Adriano Diogo recordava sua convivência com Audálio na Comissão da Verdade da Prefeitura de São Paulo, entre 2014 e 2016.

"Ele tinha uma grande contribuição a dar porque era a memória viva da cidade", disse Adriano. "Embora já estivesse doente, levou o trabalho até o fim. Foi uma honra conviver com um personagem da humanidade."

Fernando Haddad (PT-SP), prefeito que criou a comissão, afirmou que Audálio engrandeceu o grupo que investigou violações de direitos humanos na capital durante o regime militar e que ele ficará marcado como uma pessoa ética e agregadora. "Fora que era jornalista de uma escola que não existe mais."

Os deputados federais Paulo Teixeira (PT-SP) e Luiza Erundina (PSOL-SP) e o vereador Gilberto Natalini (PV-SP) foram outros políticos que passaram pelo velório. Os padres Júlio Lancellotti e Tarcísio Marques Mesquita, em diferentes momentos, fizeram orações. Os dois relacionaram o jornalista à busca da verdade e à defesa da democracia.

"Eu é que agradeço a oportunidade de tê-lo conhecido", disse o ator e apresentador Rolando Boldrin ao filho mais velho de Audálio, José Dantas, diante do agradecimento por ter ido ao local.

"Além do jornalista importante que ele era, ele demonstrou uma enorme preocupação com a cultura brasileira", afirmou o artista, lembrando outro episódio conhecido na trajetória do repórter: a descoberta da escritora Carolina Maria de Jesus.

Audálio a encontrou quando fazia uma apuração na favela do Canindé, em São Paulo. Depois de ver que a moradora tinha um diário sobre seu cotidiano de fome e violência, ele a ajudou a editar os escritos e a lançá-los na forma de livro, com "Quarto de Despejo", de 1960.

Com tantas memórias, causos e histórias, a tarde no velório transcorreu sem muito silêncio. Havia palavras demais soltas pelo ar.

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