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No 2º ano sob Bolsonaro, influenciadores se deslocam da direita para o centro em rede social

Rompimento de Bolsonaro com Lava Jato é uma das explicações para movimento no Twitter, dizem pesquisadores

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São Paulo

Grande parte dos influenciadores políticos no Twitter em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, está com um público mais à esquerda agora, aponta levantamento inédito feito pela Folha.

A reportagem comparou a posição de mil influenciadores na rede social de maio de 2019 a agosto de 2020.

Para isso, foi considerada a posição desses perfis no GPS Ideológico, ferramenta da Folha que posiciona as contas numa reta, do ponto mais à direita ao mais à esquerda, segundo quem os segue (veja aqui a reta de 2019).

Das mil contas avaliadas no ano passado, 947 estavam ativas agora. Delas, 66% se deslocaram em direção à esquerda na análise deste ano (pode ser porque ganharam mais seguidores mais à esquerda, perderam mais à direita ou ambos movimentos combinados).

Entre os que tiveram as maiores variações no período, estão as contas que possuíam perfil de seguidores posicionados nos pontos mais extremos da direita em 2019. E, após passarem a criticar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), ganharam seguidores mais ao centro.

A deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) exemplifica o movimento. No ano passado, a média dos seus seguidores na escala ideológica era de 84 pontos, o que a colocava em posição semelhante a de Olavo de Carvalho, um dos ideólogos do governo Bolsonaro. A escala vai de 0 (ponto mais à esquerda) a 100 (mais à direita).

Após romper com Bolsonaro (foi retirada do posto de líder do governo no Congresso) e passar a atacá-lo publicamente, Joice foi para a posição 66 (próxima ao centro).

Os novos seguidores da deputada estão, em média, entre os 40% mais à direita (posição próxima ao centro); os que a deixaram estão no grupo de radicais de direita (os 8% mais à direita).

Joice saiu então de um ponto semelhante ao de Olavo de Carvalho para ficar próximo ao do senador Alvaro Dias (Podemos-PR).

O governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), que se elegeu colando sua imagem à de Bolsonaro e agora se declara inimigo do presidente, teve movimento no Twitter semelhante ao de Joice —ganhando apoiadores de centro e perdendo radicais de direita.

“Houve claro movimento de reposicionamento de Bolsonaro”, disse o professor de ciência política da UFMG (federal de Minas Gerais) Felipe Nunes, diretor da Quaest (consultoria que analisa popularidade de figuras públicas em redes sociais). “Ele se distanciou de gente que o apoiava, tornando sua base mais coesa e homogênea.”

Lucas Calil, coordenador de linguística da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da FGV, afirma que perfis como de Joice, que romperam com o governo, conseguem ampliar a capilaridade de seu discurso, que antes era restrito aos mais radicais de direita.

No caso de Joice, essa maior amplitude pode ajudá-la nas eleições municipais deste ano, em que ela deve concorrer à Prefeitura de São Paulo.

Calil ressalta, porém, que esse aumento do raio de discurso é limitado, pois ocorre em torno de um assunto determinado, a rejeição ao governo federal. “Esse ponto comum não extrapola o tema em específico. O perfil da deputada e de atores mais à esquerda seguem com interesses bem diferentes.”

O presidente Jair Bolsonaro, ao lado da então líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP), em cerimônia de lançamento do Programa Médicos pelo Brasil, no Palácio do Planalto, em agosto de 2019 - Pedro Ladeira/Folhapress

No modelo estatístico utilizado pela Folha, uma conta que segue o-ex presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o perfil do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), por exemplo, estará à esquerda de outro que segue Olavo de Carvalho e o Escola Sem Partido.

Se considerados os perfis que andaram ao menos cinco pontos nessa escala entre 2019 e 2020, aparecem 113 contas. Desse montante, 70% receberam seguidores mais à esquerda do que possuíam ano passado.

Pesquisadores apontam que o rompimento do bolsonarismo com o lavajatismo é um fato importante para explicar esse movimento à esquerda de influenciadores, saindo de uma base muito à direita para ficar próxima ao centro.

O próprio Sergio Moro, que era o ministro da Justiça em 2019, contava com seguidores no ano passado que se concentravam entre os 18% mais radicais à direita. Os novos seguidores estão num espectro mais diverso (que engloba os 34% mais à direita).

Moro saiu do governo em abril, dizendo que o presidente tentava interferir politicamente na Polícia Federal.

Também andou para a esquerda, em direção ao centro, o perfil do MBL, movimento que apoia a Lava Jato e passou a atacar o presidente.

Professor do curso de gestão de políticas públicas da USP e colunista da Folha, Pablo Ortellado disse que a tendência de migração dos influenciadores de direita para o centro é condizente com uma pesquisa que ele fez, considerando dados de julho do Twitter.

O resultado do trabalho de Ortellado também apontou que os antigos apoiadores da Lava Jato se deslocaram para o centro. “A ruptura na direita entre bolsonaristas de um lado, lavajatistas e liberais anti-autoritários de outro, não foi apenas movimento das elites, mas também do público, que se segregou”, disse Ortellado.

“Houve grande mudança de roupagem do governo nos últimos 12 meses”, afirmou Pedro Bruzzi, sócio da consultoria Arquimedes, que analisa a discussão política nas redes sociais.

Bruzzi cita como exemplo de mudança na posição de Bolsonaro, além da Lava Jato, o recente alinhamento com o centrão, grupo que o presidente vinha atacando. “Moro não ficou mais esquerdista, continua extremamente conservador, por exemplo. O governo é que radicalizou suas posições. Quem não concorda é expelido para longe.”

A maior variação entre o perfil dos seguidores de 2019 com os novos de 2020 foi da conta do senador Fabiano Contarato (Rede-ES). Ex-delegado, ele foi duro com Moro, ainda ministro, em comissão no Congresso, no ano passado. Também denunciou Bolsonaro na ONU.

Seus seguidores em 2019 estavam entre os 25% mais à direita. Já seus novos seguidores estão na outra ponta, entre os 40% mais à esquerda.

O levantamento mostra também que há perfis que ganharam seguidores mais à direita do que possuíam em 2019, ainda que em menor volume que o movimento contrário.

O atual ministro das Comunicações, Fábio Faria, que assumiu o posto em junho, é um exemplo. Eleito deputado pelo PSD do Rio Grande do Norte, ele tem sido citado como figura importante do governo, que apaziguou os ânimos dos outros Poderes com o Executivo.

A média da posição dos seguidores do ministro em 2019 colocava sua base na metade da esquerda da reta. Com mais seguidores de direita, seu perfil passou a ter uma média de seguidores entre os 25% mais à direita.

Autor do algoritmo que foi adaptado para o GPS Ideológico, o cientista político Pablo Barberá (London School of Economics) afirma que, ao seguir uma pessoa, via de regra o usuário tem afinidade com esse perfil.

Isso porque a pessoa passará a visualizar mais tuítes desse usuário. E receber conteúdo de alguém sem afinidade é algo custoso, em termos de tempo e de atenção –por isso, tende a ser exceção.

A categorização desses influenciadores permite comparar, por exemplo, para qual público os políticos mais falam.

Dos mil influenciadores considerados ano passado, 47 não estavam mais ativos em agosto passado; 23 deles foram suspensos pelo Twitter. Destes, 22 estavam entre os 22% mais à direita. Outros 6 restringiriam o acesso de suas contas, o que impossibilita obter a lista de novos seguidores. A predominância de contas suspensas na direita foi verificada também entre os usuários.

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