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1969: Silêncio desceu sobre Cacilda, que foi comparada a Chaplin e desafiou ditadura

Cacilda Becker em 'Floradas na Serra'"‚1954/Folhapress
Cacilda Becker em 'Floradas na Serra'"‚1954/Folhapress - Folhapress
São Paulo

Cacilda Becker, 48, morreu neste sábado (14), às 10h, no hospital São Luís, em São Paulo. Ela estava internada havia 38 dias, desde quando sofreu derrame cerebral, em 6 de maio, entre um ato e outro da peça “Esperando Godot”.

A morte da atriz causou comoção na classe artística e manifestações de pesar do governador de SP, Roberto Costa de Abreu Sodré, e do prefeito Paulo Maluf. O corpo será enterrado no cemitério do Araçá.
Dona da frase “Todos os teatros são o meu teatro”, Cacilda Becker Yáconis atuou em 68 peças, em filmes (“Luz dos Meus Olhos” e “Floradas na Serra”) e até telenovela (“Ciúmes”). 

Sua estreia nos palcos se deu em 12 de abril de 1941, no Teatro do Estudante do Brasil, no Rio. Até chegar lá, a menina que nasceu em 6 de abril de 1921, em Pirassununga (SP), lutava contra a pobreza, vivida ao lado da mãe e das duas irmãs, Cleyde e Dirce. Tanto que, para ajudar em casa, já tinha estudado balé, obtido diploma de professora e atuado como escriturária.

Desde o primeiro contato em 1941, Cacilda só cresceu dentro e fora dos palcos. No teatro, trabalhou com nomes de peso, como Décio de Almeida Prado, Bibi Ferreira e Zbigniew Ziembinski, e eternizou personagens, entre eles Poil de Carotte, em “Pega Fogo”, e Marta, em “Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?”.

Artistas, amigos e parentes durante o enterro de Cacilda Becker em São Paulo"‚Acervo UH - 16.mai.1969/Folhapress
Artistas, amigos e parentes durante o enterro de Cacilda Becker em São Paulo"‚Acervo UH - 16.mai.1969/Folhapress - Acervo UH - 16.mai.1969/Folhapress


“Ela não comia, tinha a fragilidade de uma flor de estufa. Alimentava-se com um ovo cru e um pedaço de carne. Chegou a pesar 42 kg. Mas ela tinha a dedicação mais absoluta ao teatro, ao fenômeno de teatro, ao amor do teatro”, disse Ziembinski, que conheceu a atriz em 1943.

Em 1948, em São Paulo, Cacilda expandiu sua atuação. Primeiro, ao virar professora na recém-criada Escola de Arte Dramática. Depois, quando a atriz Nydia Lícia se recusou a atuar —para não beijar em cena— na abertura do Teatro Brasileiro de Comédia, ao assumir o papel em “Mulher do Próximo”. Mas Cacilda exigiu ser contratada e, assim, tornou-se a primeira atriz a ter contrato profissional no TBC. 

Até 1955, ela participou de quase tudo no TBC e ainda introduziu a irmã Cleyde Yáconis no teatro. Depois, fundou sua companhia, com Walmor Chagas, a irmã e Ziembinski, e seguiu dominando os palcos.

Em 1960, ao encenar “Pega Fogo” em Paris, foi comparada a Chaplin pelo crítico francês Michel Simon: “Cacilda Becker é um monstro do teatro, como De Max, Gaby Morlay, Charles Chaplin, Jean Louis Barrault ou Charles Laughton. Ela é medium, mãe dos Santos, do orixá do teatro. Basta ela aparecer que a magia se opera.”

E não faltaram choques com a ditadura. Em especial, em 1968, ao assumir a Comissão Estadual de Teatro de São Paulo, se afastar das cenas e passar a defender artistas e produções. Além de abrigar colegas sob perseguição em sua casa, coube a ela, por exemplo, após a censura vetar trechos da Primeira Feira de Opinião, ir ao palco apresentar o texto na íntegra, diante dos censores, em ato de resistência.

Voltou a atuar também em 1968, na pele do vagabundo Estragon, em “Esperando Godot”, de Samuel Beckett, ao lado do marido (Walmor) e do filho (Luís Carlos Martins), que estreava no teatro —além deles, ela deixa a filha adotiva, Maria Clara Becker Chagas. E, do palco do teatro que levava seu nome, Cacilda saiu após a última fala do primeiro ato e não voltou, já que, do camarim, com a roupa de cena, foi levada para o hospital.

Primeira página da Folha de S.Paulo de 15 de junho de 1969
Primeira página da Folha de S.Paulo de 15 de junho de 1969 - Folhapress

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