Cozinha Bruta

Comida de verdade, receitas e papo sobre gastronomia com humor (bom e mau)

Descrição de chapéu Argentina América Latina

Por que desisti de procurar comida boa em Buenos Aires

Viajando com o filho pré-adolescente e a reboque de suas vontades, não há desvios de rota para conhecer restaurantes

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Buenos Aires

Vim para a Argentina com um único propósito: pagar uma dívida de confiança com o Pedro, meu filho de 11 anos.

Nas férias escolares de julho passado, fomos os dois para Foz do Iguaçu. Escolhi o destino pelo preço da passagem, nunca havia viajado para Foz. Sem saber o que encontraríamos, embalei assim a venda das férias para o moleque:

– Vamos visitar três países num passeio só: Brasil, Argentina e Paraguai.

Ele ficou eufórico, eu não imaginava que fosse funcionar tão bem.

Pessoas almoçam no Caminito, em Buenos Aires, a área mais cheia de arapucas turísticas da cidade
Pessoas almoçam no Caminito, em Buenos Aires, a área mais cheia de arapucas turísticas da cidade - VICTOR MORIYAMA/NYT

Aí, quando embarcávamos, a moça da companhia aérea pediu cartão de embarque e documentos. Apresentei tudo, mas, ao guardar a papelada, deixei cair no chão o RG do Pedro.

Percebi a mancada assim que tomei o assento no avião. Já era tarde demais.

Tentamos entrar na Argentina com o RG digital do filhote, mas o hermano de la guardia de migración foi irredutível.

Pedro ficou inconsolável e furioso comigo, justificadamente. Passou um ano falando em vir para a Argentina.

Aqui estamos em Buenos Aires.

Já é a quinta ou sexta vez que visito este país. Sempre comi esplendidamente. Parrillas fenomenais. Vinhos fantásticos e ridiculamente baratos.

Mas nunca havia vindo com uma criança.

Pensei que daria para conciliar as expectativas. Apresentar ao pré-adolescente algo completamente novo e, ao mesmo tempo, atualizar meu currículo de glutão profissional.

Peguei recomendações de amigos residentes ou mais viajados do que eu.

Fiz listas de churrascarias, pizzarias e bodegones –algo entre o boteco e a cantina italiana–, enfim, lugares familiares e não muito caros, adequados ao apetite feroz de quem está no limiar da puberdade.

Aí deu que nenhum desses lugares estava na rota das atrações que o Pedro queria conhecer. Acabamos por nos comportar como turistas comuns.

Logo ao desembarcar, antes do nascer do Sol, dei-lhe um misto-quente da Havanna do aeroporto.

Depois, enquanto vagávamos pela cidade gelada, entramos num Starbucks para usar o banheiro. Ele quis um chocolate quente. Eu dei e também peguei um para mim. Doce demais, mas satisfatório naquele momento.

Ontem o moleque quis conhecer o Caminito, na Boca. Meu plano era vazar para comer fora das arapucas turísticas, mas ele estava a fim demais de comer nas casinhas coloridas.

Terminamos almoçando um choripán um pouco superfaturado, mas OK. Ele amou.

Vendo o brilho nos olhos do filho, entendi que nesta viagem devo abdicar das minhas idiossincrasias gastronômicas. Comeremos o que aparecer pelo caminho.

No dia seguinte, já tendo aceitado plenamente as regras do jogo, fomos para Tigre, uma cidadezinha no delta do rio Paraná, com canais repletos de casas adoráveis nas margens.

Enquanto esperávamos o passeio de barco, que saía bem na hora do almoço, mandei para dentro uma empanada aquém de sofrível e aquecida no micro-ondas de um estabelecimento pangaré do terminal fluvial.

Quer saber? Estou feliz.

Por muito tempo prezei demais comer bem em todas as ocasiões. Nesta viagem, o Pedro está me ensinado que há coisas muito mais importantes.

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