O Mundo É uma Bola

O Mundo É uma Bola - Luís Curro
Luís Curro
Descrição de chapéu basquete

O trio de ouro da seleção brasileira (de basquete)

Abro uma exceção no blog de futebol para incensar Hortência, Paula e Janeth, as minhas soberanas da bola ao cesto

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Este é um blog de futebol, primordialmente de futebol internacional, então o leitor estranhará a minha decisão de abrir uma raríssima exceção e escrever sobre o esporte da bola (geralmente) laranja.

Nesta quarta-feira (12), completam-se 30 anos do maior feito que eu vi, em tempo real e na madrugada brasileira (pela TV), o Brasil alcançar no basquete: o título mundial.

Aconteceu em 1994, na Austrália, e aconteceu com a seleção feminina, conforme relembra a Folha em texto de Marcos Guedes.

Da esquerda para a direita, Janeth, Hortência e Paula, da seleção brasileira, com as medalhas de ouro do Mundial de 1994, em título conquistado na Austrália; as três estão felizes e usam boné
Da esquerda para a direita, Janeth, Hortência e Paula, da seleção brasileira, com as medalhas de ouro do Mundial de 1994, em título conquistado na Austrália - J. Tavares/Folhapress

A seleção masculina tinha sido bicampeã do mundo, em 1959 (no Chile) e em 1963 (no Brasil), bem antes de eu nascer, com craques do naipe de Amaury Pasos e Wlamir Marques.

Jogadores espetaculares dos quais, contudo, eu não guardo memória afetiva. Não fizeram parte da minha infância ou adolescência, a não ser no ginásio (atual ensino fundamental), quando Wlamir foi por poucos meses meu professor de educação física.

Passei a acompanhar basquete (gostava bem mais de futebol, mas também de outros esportes, entre os quais vôlei, natação e a bola ao cesto) no começo dos anos 1980. Torcia pelo Sírio (curtia o pivô Marquinhos Abdalla).

E na seleção brasileira os melhores eram o Oscar (depois apelidado Mão Santa) e o Marcel. Eles foram meus ídolos (do Marcel até peguei autógrafo uma vez; infelizmente, perdeu-se).

O ápice deles foi o título do Pan-Americano de Indianápolis (EUA), em 1987, derrotando os favoritaços anfitriões, do "Almirante" David Robinson e grande elenco.

Via também o feminino, cujas fases finais do Campeonato Paulista, o único de expressão no Brasil à época, eram transmitidas pela TV.

Eu adorava a Paula, e sempre torcia pela Unimep (Piracicaba) contra a Prudentina (Presidente Prudente) ou o Minercal (Sorocaba), que eram os times da Hortência.

Duas espetaculares jogadoras, e de personalidades fortíssimas. Líderes e determinadas.

A ala Hortência, 1,74 m, a precisão em pessoa. Recebia a bola, e a bola não voltava. A depois chamada Rainha do Basquete era fominha. E podia ser. Errava pouco. Driblava a marcadora e dava o jump (salto para o arremesso) mortal, fosse perto ou longe da cesta.

Uma máquina de fazer cestas. E, antes de cada lance livre, concentrava-se inspirando o ar de forma peculiar, com os olhos fechados. Marcante.

Hortência, da seleção brasileira, usando camisa amarela e calção verde, segura a bola laranja diante de marcação de jogadora canadense em partida de basquete nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996
Hortência em partida diante do Canadá nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, quando se despediu da seleção brasileira - Ormuzd Alves/Folhapress

A armadora Paula, também 1,74 m, também ótima arremessadora, fazia mágica com a bola –tanto que passou a ser Magic Paula, apelido inspirado em Earvin "Magic" Johnson, superastro do Los Angeles Lakers (NBA).

Uma mestra nas assistências e dona de uma habilidade descomunal –por exemplo, passava a bola ao redor do corpo com extrema facilidade antes de fazer a bandeja. Fascinante.

Só que as duas, por excelentes que fossem, não tinham companhia do mesmo nível na seleção, não para fazer frente a rivais europeias, especialmente a União Soviética (depois Rússia), aos EUA e à China. Mesmo Austrália, Canadá e Cuba eram superiores.

As pivôs Marta e Ruth eram OK. A ala Vânia Teixeira e a ala-pivô Vânia Hernandes, médias. Tinha também a armadora Suzete. Lembro-me dessas.

Só que era necessário, a nível internacional, algo mais para que Paula e Hortência pudessem chegar ao topo. E esse algo mais tinha nome e sobrenome: Janeth Arcain, que ganhou espaço definitivo na seleção no final dos anos 1980.

Usando camisa amarela e faixa vermelha na cabeça, Janeth ataca pela seleção brasileira, segurando a bola de basquete laranja, contra a Hungria no Mundial na Alemanha, em 1998
Janeth ataca pela seleção brasileira contra a Hungria no Mundial na Alemanha, em 1998 - Rogério Assis/Folhapress

A regularidade de Janeth, 1,82 m, impressionava. Parecia que ela jogava bem todos os jogos, sem exceção.

Não era tão forte no arremesso longo, como eram Paula e Hortência, não era "malabarista" como Paula nem "matadora" como Hortência, porém arremessava muito bem na média distância e infiltrava com grande desenvoltura e com alta taxa de sucesso.

Usava muito bem o corpo a corpo diante das adversárias e ganhava faltas nesse contato. Ia constantemente para a linha de lance livre, e seu aproveitamento era altíssimo. Componentes que a transformavam invariavelmente na maior pontuadora (cestinha) da partida.

Trio formado e entrosado, tornou-se um trio de ouro (duas vezes, com um Mundial) e de prata (olímpica, de valor dourado).

Auxiliado por algumas coadjuvantes talentosas e/ou esforçadas (a pivô Alessandra, a ala-pivô Leila, irmã de Marta, a armadora Helen Luz, as alas Adriana e Roseli, as alas-armadoras Silvinha Luz e Claudinha, a pivô Cíntia Tuiú), vieram as glórias.

O presidente Fidel Castro cumprimenta com um beijo Hortência depois da vitória da seleção brasileira sobre Cuba na final do basquete dos Jogos Pan-Americanos de Havana, em 1991
O presidente Fidel Castro cumprimenta Hortência depois da vitória da seleção brasileira sobre Cuba na final dos Jogos Pan-Americanos de Havana, em 1991 - Arquivo CBB

Ouro no Pan em Havana-1991, surpreendendo Cuba sob os olhares impressionados de Fidel Castro.

No pódio, ao dar as medalhas às campeãs, o ditador identificou Paula e Hortência e, em tom de brincadeira, fez sinal de que não lhes entregaria a láurea.

Ouro no Mundial da Austrália, derrotando na semifinal as poderosas norte-americanas (Teresa Edwards, Dawl Staley, Sheryl Swoopes, Lisa Lesley), em partida na qual o trio Hortência-Paula-Janeth marcou 83 dos 110 pontos brasileiros (75%). Os EUA fizeram 107.

Na final, diante da China da pivô Zheng Haixia, de 2,03 m (ela dava medo), 64 dos 96 pontos (67%) do Brasil saíram das mãos da trinca de ouro (Hortência 27, Janeth 20, Paula 17). As chinesas totalizaram 87 pontos.

Da esquerda para a direita, Paula, Hortência e Janeth, medalha de prata no peito obtida nas Olimpíadas de Atlanta-1996, confraternizam-se com torcedores
Da esquerda para a direita, Paula, Hortência e Janeth, medalha de prata no peito obtida nas Olimpíadas de Atlanta-1996, confraternizam-se com torcedores - Fernando Cavalcanti/Folhapress

Prata nos Jogos Olímpicos de Atlanta-1996.

Hortência estivera grávida meses antes, e Paula esteve irreconhecível na final (um acerto em oito tentativas nos tiros de quadra). A cestinha do Brasil no jogo em que as americanas tiveram sua revanche (111 a 87) de dois anos antes foi Janeth, com 24 pontos.

Enfim, as três eram fora de série, tanto que só com elas no auge a seleção feminina ganhou um Mundial.

Não jogaram mais juntas depois de 1996, pois Hortência se aposentou, virou empresária, inclusive com negócios no basquete. Entrevistei-a, quando era dirigente, algumas vezes.

Tive o privilégio, como jovem repórter ao cobrir esportes olímpicos pela Folha, de ver em ação tanto Paula, já em fim de carreira, como Janeth, que ainda brilharia na WNBA (liga norte-americana de basquete), com quatro títulos pelo Houston Comets.

Com uniforme vermelho e o número 9 nele, Janeth arremessa a bola pelo Houston Comets, da WNBA, a versão feminina da NBA
Janeth em ação pelo Houston Comets, da WNBA, a versão feminina da NBA - Greg Shamus - 1ºmai.1997/WNBA Enterprises

Presenciei treinamentos na Grande São Paulo, fui a jogos, conversei com as duas, escrevi sobre elas.

Vi vitórias e derrotas de Paula, nas equipes de Campinas e Osasco, e de Janeth, por Santo André. Estive presencialmente nos ginásios, fosse no Tênis Clube, no José Liberatti ou no Pedro Dell'Antonia.

Vi, também a poucos metros de distância, da tribuna de imprensa, ambas com o uniforme da seleção brasileira, Paula a camisa 8 às costas, Janeth com a 9, as duas com as habituais faixas na cabeça, em Copa América (1997, em São Paulo) e/ou em Mundial (1998, na Alemanha).

Hortência, a quem só vi em um ginásio, o do Ibirapuera, em 1993, como espectador, quando ela e Paula jogaram juntas pela "imbatível" Ponte Preta, usava costumeiramente a camisa 4 (e, no visual, rabo de cavalo).

Paula, usando uniforme amarelo e com faixa branca na cabeça, avança para arremessar em Brasil versus Hungria, no Mundial de basquete de 1998, na Alemanha
Paula avança para arremessar em Brasil x Hungria, no Mundial de 1998, na Alemanha - Rogério Assis/Folhapress

Acompanhei, em 2000, a entrevista a jornalistas em que uma chorosa Paula anunciou a aposentadoria e na qual, ao comentar sobre seu maior rival no basquete, sentenciou: "Foram todos os times em que a Hortência jogou".

São lembranças e detalhes que ficam guardados, que para sempre ficarão, junto com a certeza de que elas (Hortência, Paula e Janeth) foram, com todo respeito à geração bicampeã pan-americana (em 1967, no Canadá, e 1971, na Colômbia) e bronze no Mundial de 1971 (no Brasil), as mais admiráveis basquetebolistas que o Brasil já teve.

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