Tinto ou Branco

Tudo que você sempre quis saber sobre vinho, mas tinha medo de perguntar

Tinto ou Branco - Tânia Nogueira
Tânia Nogueira
Descrição de chapéu Todas

Cinco vinícolas de sonho que você precisa visitar na Toscana

Com cenário de filme, região italiana tem paisagens lindas e vinhos deliciosos

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No cinema, a Toscana é sempre retratada como uma terra mágica onde basta pisar para acabar com todos os seus problemas. Na vida real, essa província italiana que produz alguns dos melhores vinhos do mundo me parece exatamente como nos filmes. Estive lá três vezes em minha vida. A primeira, no milênio passado, muito rapidamente, por apenas um dia em Firenze. Na época, eu não entendia nada de vinhos e ainda chamava a cidade de Florença. Depois, não sei bem por que, adotei o nome em italiano. Foi um dia muito agradável, num hotel quatro estrelas de frente para a Ponte Vecchio. Só não fiquei mais porque não tinha dinheiro para isso e os hotéis baratos estavam lotados.

Saí jurando que voltaria logo, mas demorei uma eternidade. Na primavera de 2019, já como especialista em vinhos, consegui tirar dois dias para visitar vinícolas, entre um compromisso e outro. A passagem rápida só fez instigar minha vontade de ficar mais dias por ali. Finalmente, no verão de 2023, consegui tirar uma semana inteira para passear sob o sol da Toscana.

taça de vinho branco com vinhedos ao fundo
Vinho e paisagem harmonizam perfeitamente na Toscana. Vista a partir do restaurante da vinícola Casanova di Neri - Tânia Nogueira/arquivo pessoal/@tinto_ou_branco

Sempre evitei ir à Europa no verão porque todos me diziam que era um inferno: muito quente e lotada de turistas mal-educados. Nenhuma das duas coisas é mentira, mas nessa viagem senti uma energia, uma vida, na Europa que nunca tinha sentido antes, nem nos meus 20 anos. Uma alegria contagiante que, por sinal, me fez esquecer quase o tempo todo do fato de esses 20 anos já terem passado há tempos. Foi uma viagem restauradora da alegria de viver, e os dias que passei na Toscana tiveram um papel bem especial nisso.

Antes de chegar à Toscana, havia passado dias muito divertidos, em Paris e na Emilia-Romagna, região do vinho lambrusco. A entrada na Toscana, no entanto, extrapolou. Cheguei direto para a festa mais animada de Montalcino. Uma pool party com alguns dos produtores de vinho mais bacanas da Itália. Nada a ver com trabalho: era aniversário de um amigo. Em Paris, estive com Gabrielle Gorelli, o primeiro (e, até então, único) master of wine da Itália, a quem eu conhecia da Wine South America de 2022, e fui convidada para seu aniversário de 39 anos. Cada um levaria um vinho e teria um bufê de frutos do mar. Os celulares tinham de ficar na entrada. Ou seja, a gente bebeu muito vinho bom e todo mundo interagiu. Acabei até nadando, o que de início eu jurava que não iria fazer. Foi sensacional!

Essa noite, dormi num quarto simples, mas muito bonitinho do Albergo Il Giglio e, no dia seguinte, a simpática proprietária fez seu marido me levar até a vinícola onde eu dormiria na noite seguinte, a 5 km dali, porque ela achou que o preço do táxi era exorbitante. Comecei aí, então, um tour por vinícolas da Toscana e meu nível de felicidade só foi subindo. Abaixo cinco dessas que você não pode deixar de conhecer.

obra de arte no jardim da vinícola reflete paisagem
A obra Sulle vigne: punti di vista do artista Daniel Buren vista da janela de um dos quartos com vinhedos ao fundo - Tânia Nogueira/arquivo pessoal/@tinto_ou_branco

Castello di Ama
Chamada pelos brasileiros de mini Inhotim, esta vinícola na região de Chianti Clássico tem uma valiosa coleção de arte contemporânea espalhada pela propriedade. Peças de artistas tão importantes quanto Anish Kapoor, Daniel Buren e Cristina Iglesias estão nos vinhedos, nas pequenas edificações medievais, na sala de barricas. Todas foram produzidas para o local e revelam a interpretação do artista daquele terroir, depois de passar alguns dias por lá. Tudo é pensado para que se possa sentir o ambiente sem importunações. As experiências, que incluem tour pela vinícola e pelas obras de arte e degustação, são para grupos de, no máximo, sete pessoas. A ideia é que você caminhe tranquilo sem ver ninguém. Custam de 90 euros a 270 euros (com menu harmonizado), dependendo dos vinhos e outros detalhes. Você pode também ir só ao restaurante, que é fantástico, uma comida de mãe italiana, muito bem feita por um chef, com uma bela vista para os vinhedos.

Estive lá pela primeira vez em 2019 para fazer uma matéria para o Turismo da Folha de S.Paulo. Leiam vale a pena. Fiquei só uma noite e sonhava em voltar. Desta vez, quando soube que conseguiria ir à Toscana, escrevi para a proprietária, Lorenza Sebastini, para marcarmos um almoço por lá para ela me contar as novidades. Lorenza respondeu que, infelizmente, estaria viajando, mas seu filho, Arturo Palanti, me receberia e me convidou para novamente ficar hospedada na Vila Ricucci.

Não há castelo. A vinícola ocupa um borgo medieval. A Vila Ricucci é um casarão do século 18, dentro desse borgo, com cinco suítes ultra bem decoradas. É um misto de clássico com contemporâneo muito bacana. Na sala de jantar, por exemplo, tem luminárias dos irmãos Campana. Eles recebem convidados e também alugam as suítes (a partir de 490 euros). Porém, só durante a semana. De sábado para domingo, a vinícola fecha. "Não somos um hotel", diz Arturo. "A ideia é que as pessoas se hospedem aqui por uma ou duas noites para experienciar o terroir, a vinícola, as obras de arte. Não tem muitas atrações em volta." Modéstia dele. A região é linda, cheia de pequenas vilas, vinhedos. Eu passaria um mês lá, bebendo os maravilhosos vinhos da casa, lógico.

Vale provar: Castello di Ama Chianti Classico 2020, 96% sangiovese e 4% merlot, 10 meses em barricas de carvalho usado. Custa R$ 552,18, na Mistral.

escada em espiral
A escada da vinícola Antinori nel Chianti Classico. Arquitetura é um dos grandes atrativos para o turista - Tânia Nogueira/arquivo pessoal/@tinto_ou_branco

Antinori nel Chianti Classico
Quando se fala em turismo por vinícolas na Toscana, as pessoas logo pensam em uma das duas imagens a seguir: uma estradinha com curvas suaves, cercada de ciprestes italianos, passando entre vinhedos de uma colina que tem um castelo medieval no alto, ou na imponente escada em espiral que é a marca da linda sede da vinícola Antinori na região de Chianti Classico. A arquitetura contemporânea e brutalista de Marco Casamonti impressiona. O prédio, inaugurado em 2012, contrasta com a suavidade das colinas cobertas de vinhedos e com a fine art de seu interior. Em 2022, foi eleita a melhor vinícola para enoturismo do mundo pela Best Vineyards. Fica a uma hora de Firenze.

Um dos pontos altos dos tours mais completos é a degustação numa sala de vidro suspensa sobre a enorme cave de barricas. Os vinhos, claro, são uma atração em si. Muito bons. São oferecidas diferentes experiências. Na mais simples, que custa 45 euros, você prova três vinhos do grupo. Na mais completa, que custa 180 euros, além de degustar quatro dos mais significativos vinhos do grupo, incluindo o Pian del Vigne Brunello di Montalcino e o supertoscano Tignanello, você tem direito a uma refeição de três tempos.

Uma das coisas que chama a atenção logo no salão de entrada da vinícola é a árvore genealógica da família Antinori. Como muitos produtores de vinho da Toscana, os Antinori são de família nobre. Piero Antinori, atual presidente honorário (a empresa tem também um CEO profissional), é também o atual Marquês de Antinori. A família produz vinhos há séculos. Seu neto Vittorio Antinori, a 27 geração envolvida com a produção de vinhos, foi quem me recebeu para um almoço muito gostoso no restaurante na cobertura do prédio, onde há também um vinhedo. Vittorio me falou também do Haras del Pirque, projeto do grupo no Chile pelo qual ele é responsável.

Vale provar: Pèppoli Chianti Clássico, 90% sangiovese, 10% merlot e syrah. Custa R$ 299,90, na Berkmann.

cozinheiro quebrando ovos
Aulas de culinária são um forte do turismo na Toscana. A da Badia a Coltibuono é uma das mais bem consideradas - reprodução

Badia a Coltibuono
Uma antiga abadia de mais de mil anos, com adendos de vários períodos, está vinícola transporta os visitantes para a Toscana não das comédias românticas, mas, sim, dos filmes de época. Tudo ali cheira a história, inclusive os vinhos, no bom sentido, é claro. Os métodos de produção são tradicionais e, além da sangiovese, eles usam outros uvas autóctones. São deliciosos. Tomaria todos os dias da minha vida.

Estive lá em 2019. Fiz uma aula de culinária deliciosa. O grupo tinha gente de várias partes do mundo. Passamos a manhã cozinhando e aí almoçamos juntos, numa mesa grande, e comemos o que preparamos. Essa parte, sim, parece um filme mais moderno, daqueles que têm a gastronomia como pano de fundo. Recomendo muito. Custa 155 euros.

À tarde, fiz o tour pela vinícola e, depois, fiquei no jardim. Passei a noite na propriedade. Eles mantêm um hotel onde antes estavam os alojamentos dos padres. Lindo. Jantei no restaurante da vinícola, uma construção moderna, a uns 50 metros da abadia, que tem vista para a planície que leva a Firenze. No dia seguinte, antes de sair, passei na loja da vinícola e comprei uma garrafa para tomar no trem que me levaria ao Piemonte. Mais tarde, no frio da estação de trem de Turim, fiquei muito feliz por ter feito isso, rs, mas essa é uma outra história, que conto outra hora. O importante é que o vinho era ótimo.

Vale provar: Cultusboni RS Chianti Classico 2018, 100% sangiovese, custa R$ 275,81 na Mistral

A piscina do hotel com vista para os vinhedos
A piscina do hotel da vinícola Casanova di Neri tem vista para os vinhedos - Tânia Nogueira/arquivo pessoal/@tinto_ou_branco

Casanova di Neri
Brunello di Montalcino é uma das denominações de origem de maior prestígio do mundo. Feito com 100% da uva sangiovese grosso, com um mínimo de dois anos de passagem por carvalho e mais três de garrafa antes de chegar ao mercado, é um vinho estruturado, complexo e caro. Sua história, no entanto, é razoavelmente recente. Foi criado em meados do século 19. Já a vila de Montalcino tem mais de mil anos. É pequenininha e linda. Hoje todo o turismo por lá gira em torno do vinho.

A vila é cercada de vinícolas e vinhedos. Fiquei hospedada em uma delas, a Casanova di Neri, que produz alguns dos brunellos mais bem pontuados do mundo. A cinco quilômetros da vila, ela oferece o melhor de dois mundos, todo o sossego do campo e bares, lojas e restaurantes a uma distância muito pequena. Numa antiga casa de fazenda reformada, funciona um restaurante bastante refinado e uma pequena pousada de charme com dez suítes espaçosa, todas dando para um jardim. Na pousada há também uma bela piscina dando para os vinhedos. Os preços começam em 259 euros.

Tudo isso a uma curta caminhada de onde está a vinícola, propriamente dita. Lá fui recebida por Gianlorenzo Neri, terceira geração da família, e degustei uma série de vinhos e safras. Um melhor do que o outro. Quem não está hospedado também pode participar de uma experiência de degustação com visita à vinícola. É importante reservar (visit@casanovadineri.com).

Vale provar: Casanova di Neri Brunello di Montalcino, 100% sangiovese grosso, custa R$ 599,90 na Clarets.

casa de pedra no campo
A Fattoria Lavacchio, na região de Chianti Rùfina, tem clima de fazenda - Tânia Nogueira/arquivo pessoal/@tinto_ou_branco

Fattoria Lavacchio
Lugar delicioso para ir em família, casal ou mesmo sozinho, é como um hotel fazenda. Com vários tipos diferentes de acomodação, incluindo duas casas. Os preços são ótimos, começam em 113 euros fora da alta temporada. Praticantes de agricultura orgânica e biodinâmica, quase tudo o que se consome ali é produzido na própria fazenda. Há um restaurante com gastronomia mais sofisticada e um empório com sanduíches, saladas e pratos rápidos, onde se pode também comprar os deliciosos vinhos e azeites da propriedade.

"Oferecemos alojamento de agroturismo", diz Faye Lottero, sócia, administradora, responsável pela agricultura e idealizadora do projeto. "Isto significa que apenas servimos e utilizamos produtos que nós próprios produzimos ou que são produzidos por produtores locais. Este selo é uma garantia de que, ao ficar conosco, você experimentará a autêntica vida toscana."

Uma simpatia, Faye me recebeu de braços abertos e acabamos nos tornando amigas. Recentemente a encontrei no exclusivíssimo hotel Ponta dos Ganchos, em Santa Catarina, para o qual ela fez um super toscano e onde ela e outros produtores de vinhos importados pela Mondoroso fizeram uma degustação para os hóspedes. Quando estive na Toscana, juntas visitamos boa parte de Chianti Rùfina, sub-denominação de Chianti à qual a fattoria pertence. Filha de um italiano e uma inglesa, criada na França, Faye fala várias línguas e tem contato direto com os hóspedes. Pessoas de vários lugares do mundo organizam casamentos ali e Faye cuida de cada detalhe pessoalmente.

Vale provar: Fattoria Lavacchio Puro Chianti Organic, 100% sangiovese, fermentação espontânea, custa R$ 229,00 na Bocatti.

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