Tinto ou Branco

Tudo que você sempre quis saber sobre vinho, mas tinha medo de perguntar

Tinto ou Branco - Tânia Nogueira
Tânia Nogueira
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Os melhores vinhos de todos os tempos

Mudança climática favorece a viticultura. Lendários da Miolo são exemplo disso

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São Paulo

A qualidade de um vinho depende principalmente de uma maturação perfeita da uva. Para produzir um grande vinho, é preciso que ela seja colhida com o nível de açúcar ideal, com os precursores aromáticos já formados e os taninos e outros polifenois maduros, tudo isso sem ter perdido a acidez. Não é fácil. Não costuma acontecer em qualquer lugar, nem muito menos em qualquer safra. Tem de ter um bom terroir e o ano ser bom, ter um clima ideal. As mudanças climáticas, por enquanto, têm ajudado nesse sentido. Boa parte do mundo está fazendo vinhos melhores, com mais facilidade. O aquecimento tem ajudado a amadurecer as uvas.

Nesta segunda-feira (8), o grupo Miolo lança em São Paulo a coleção Lendários 2022, uma série limitada, com os sete maiores vinhos das diferentes vinícolas do grupo, que só é lançada quando é possível produzir todos eles. São eles Merlot Terroir (Vinícola Miolo, R$ 224,90), do Vale dos Vinhedos, Rio Grande do Sul; Testardi Syrah (Vinícola Terranova, R$ 215,90), do Vale do São Francisco, Bahia; Quinta do Seival Castas Portuguesas (Vinícola Seival, R$ 148,90), da Campanha Meridional, Rio Grande do Sul; Vinhas Velhas Tannat (Vinícola Almadén, R$ 224,90), da Campanha Central, Rio Grande do Sul; Sesmarias (Vinícola Seival, R$ 1.173,90); Sebrumo Cabernet Sauvignon (Vinícola Seival, R$ 176,90) e Lote 43 (Vinícola Miolo, R$ 259,90). A coleção vem numa caixa de madeira e custa R$2.459,90.

vinhedo plano e céu azul com núvens
Vinhedo da vinícola Terranova, no Vale do São Francisco, Bahia: aí as condições climáticas variam menos - reprodução

Esse é um bom exemplo de como as mudanças climáticas estão favorecendo a viticultura. Esses vinhos só podem ser produzidos em safras fantásticas nos diferentes terroirs, quando coincidem uma série de fatores favoráveis, mas principalmente quando é seco na época da colheita. "O clima não é igual nos quatro terroirs onde nascem esses vinhos", diz o enólogo Adriano Miolo, superintendente do grupo. "No Vale do São Francisco, a variação do clima é bem menor do que na Serra Gaúcha, por exemplo. O primeiro parâmetro é a pluviometria". Não pode chover demais e nem de menos e tem hora certa para chover, mas, no geral, seca é melhor do que chuva. Na colheita, que naturalmente acontece no verão, a chuva pode ser muito ruim. Anos de La Niña são mais secos, portanto, melhores do que anos de El Niño.

"Outro fator importante é a temperatura no período de maturação, principalmente a variação de temperatura entre o dia e a noite", diz. Quando a uva está amadurecendo, é importante fazer calor de dia, para desenvolver o açúcar e amansar os taninos, e frio à noite, para manter a acidez e os aromas frescos. "É importante também ter invernos rigorosos para retardar a brotação". O período 2021/2022 teve tudo certo.

Não chover na época da colheita não é, ou não era, tão comum na maior parte do Brasil, tanto que a coleção, lançada com a safra 2018, se chama Lendários. Só que já está na terceira edição: 2018, 2020 e, agora, 2022. Segundo Adriano Miolo, superintendente do grupo, a safra 2023 também entrará para a coleção.

caixa de vinhos
A coleção Lendários Miolo 2022 vem numa caixa de madeira - reprodução

Isso não seria possível nos dez anos anteriores. O Sesmarias, da vinícola Seival, em Candiota, na Campanha Meridional, no Rio Grande do Sul, por exemplo, antes de 2018, só foi produzido em 2008 e em 2011. O Lote 43, da Vinícola Miolo, no Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves, ficou cinco safras (de 2013 a 2017) sem ser produzido. Atualmente, no entanto, a empresa está tão segura de que haverá boas safras com uma certa regularidade que só vai produzir cada um dos sete lendários quando todos puderem ser produzidos. Ou seja, ano em que chover na Serra Gaúcha na época da colheita (como costumava ser regra), não tem Lote 43 e, portanto, não tem nenhum dos outros. Eles sabem que isso não acontecerá com frequência.

"A gente vê uma mudança bem perceptível", diz Adriano. "Na década de 1990, teve só dois anos bem secos na Serra Gaúcha, 1991 e 1999. Nos anos 2000, foram quatro safras: 2002, 2004, 2005 e 2008. Nos anos 2010, quatro também: 2011, 2012, 2015 e 2018. Agora, de cinco safras, três já foram bem secas: 2020, 2022 e 2023." Antes dos anos 1990, Adriano era muito novo, não trabalhava regularmente na vinícola, então, não sabe dizer com precisão como foi. Porém, como todos que cresceram por ali, tem a lembrança de verões mais úmidos.

vinhedos com vinícola no fundo
Sede do grupo Miolo na Serra Gaúcha, região é a que oferece maiores desafios para a maturação das uvas - Reprodução

Adriano reconhece que as boas safras e as tragédias que assolaram o Rio Grande do Sul podem ser dois lados de uma mesma moeda. "Acredito na influência humana no clima", diz. "Tem questões já bem claras e sabemos de ações que podem reduzir esse efeito. Acho importante uma agricultura sustentável. Mas é difícil atribuir exatamente que ação causou as inundações ou a seca. Tem muito a ver também com questões macro de aquecimento e resfriamento dos oceanos."

A engenheira agrícola Maria Emília Borges, pesquisadora da Embrapa na área de agrometeorologia, tampouco acredita em coincidência. "As boas safras de vinhos são decorrentes, principalmente, dos eventos de seca que vem ocorrendo de forma mais severa e frequente nos anos recentes", diz. "Da mesma forma, os eventos de chuva extrema, duramente vivenciados, também estão se tornando mais frequentes. Ambos são agravados pelas mudanças climáticas globais."

Segundo ela, a ação humana tem um peso importante no agravamento dessas mudanças. "A exploração ilimitada dos recursos naturais, a urbanização irregular, a predominância do uso de combustíveis fósseis em detrimento das fontes de energia limpas, entre tantas outras ações, são fatores que aceleram as mudanças climáticas", diz. "As consequências disso estão muito claras, como vimos nas enchentes do Rio Grande do Sul. Há perdas humanas e perdas materiais, mas há ainda perdas do próprio recurso natural. O deslocamento de solo, bem como seu encharcamento, geram condições muitas vezes irrecuperáveis, ou de recuperação a longo prazo. Isso é um dos pontos que trazem a necessidade de adequação dos sistemas de plantio e até de avaliação da viabilidade de plantio em determinadas regiões". Ou seja, ao mesmo tempo em que comemoram as boas safras, as regiões produtoras de vinho precisam pensar em fazer ainda mais (já fazem mais do que outras culturas) para conter essas mudanças.

Desculpem minha ecochatice. Tomem seus vinhos (com consciência, mas) em paz. Eles estão, de fato, deliciosos.

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