Cientista quer recontar história de Jerusalém 

Para isso, pesquisadora usará modernas de datação com carbono-14

Reinaldo José Lopes
São Carlos

Coube à física e arqueóloga Elisabetta Boaretto uma missão que provavelmente é o sonho (e o pesadelo) de todo estudioso da Antiguidade: datar cerca de 5.000 anos de história de Jerusalém, do começo da Idade do Bronze à época das Cruzadas.

Visitantes observam o sítio arqueológico conhecido como a cidade de David, em Jerusalém
Visitantes no sítio arqueológico conhecido como a cidade de David, em Jerusalém - Ammar Awad/Reuters

A ideia pode parecer estranha para quem conhece bem a história do Oriente Médio —afinal, todo mundo sabe que Jerusalém foi destruída pelos babilônios em 586 a.C. e, mais uma vez, pelos romanos em 70 d.C., digamos.

Mas o problema é que, em meio a essas datas famosas, a cronologia da cidade considerada santa por judeus, cristãos e muçulmanos ainda depende quase sempre de datações ditas relativas, feitas com base na mudança de estilos de cerâmica e outros artefatos arqueológicos ao longo do tempo.

Boaretto e seus colegas do Instituto Weizmann de Ciência (um dos principais centros de pesquisa de Israel) estão mudando isso com a aplicação das técnicas mais modernas de datação por radiocarbono ou carbono-14.

Se aplicada com precisão, a abordagem produz datas chamadas absolutas, que podem ser comparadas com outros lugares em Israel e no Oriente Médio.

“Quando começamos, havia apenas dez datações de radiocarbono publicadas para Jerusalém. Agora, já chegamos a cem”, contou Boaretto à Folha durante sua recente visita a São Paulo, no clube Hebraica. “O importante é que estamos datando materiais obtidos em escavações atuais, cujo contexto arqueológico está bem claro, e não artefatos de escavações mais antigas, menos controladas, que já passaram de mão em mão.”

Quando o trabalho de quatro anos estiver concluído, espera-se que os pesquisadores tenham em mãos ao menos um esqueleto claro da cronologia da capital de Israel, sem as incertezas ligadas às datações relativas baseadas em cacos de cerâmica.

“Isso é importante porque os sítios arqueológicos de Jerusalém são muito complexos. Só datações de alta precisão vão ser capazes de nos dizer, no caso de construções individuais, por exemplo, qual era o cenário que uma pessoa via ao seu redor em determinada época”, explica a pesquisadora.

A TORRE E A FONTE

No ano passado, por exemplo, as técnicas aplicadas por Boaretto e seus colaboradores do IAA (sigla inglesa para Autoridade Israelense de Antiguidades) revelaram que uma torre supostamente construída no século 17 a.C. na verdade teve suas fundações lançadas quase um milênio mais tarde, entre 900 a.C. e 800 a.C.

Ou seja, em vez de ter sido erigida antes da origem do povo israelita, a construção viria da época em que descendentes do célebre rei David governavam Jerusalém. A torre parece ter protegido a fonte de Gion, essencial para o suprimento de água da cidade.

Mais achados como esses podem contribuir para resolver algumas das polêmicas arqueológicas mais azedas das últimas décadas, como as origens da importância política de Jerusalém.

Pesquisadores como Israel Finkelstein, da Universidade de Tel-Aviv, defendem que, na época de David, por volta de 1000 a.C., a cidade ainda não passava de um vilarejo sem grande importância. Os primeiros grandes centros urbanos israelitas teriam surgido na região norte do território, dominada pela cidade de Samaria, e Jerusalém só teria ganhado importância quando o Império Assírio conquistou essas terras no século 8º a.C.

Boaretto diz que prefere não entrar nessa briga. “Deixe-me montar uma boa cronologia primeiro, correlacionar bem os dados de Jerusalém com os de outras cidades antigas que já têm boas datas, como Meguido e Hazor, e aí voltamos a conversar”, brinca ela.

PERUAÇU

Enquanto o grande mapa temporal de Jerusalém não fica pronto, Boaretto e seus colegas do Instituto Weizmann estão começando a planejar uma parceria com pesquisadores do Brasil para tentar datar as belas pinturas rupestres da região do Peruaçu (norte de Minas Gerais).

Um dos responsáveis pela articulação é o geólogo André Zular, que fez um pós-doutorado no Weizmann e levou a pesquisadora para conhecer os sítios arqueológicos mineiros. Acompanhada do arqueólogo André Strauss, da USP, ela também visitou a Lapa do Santo, perto de Belo Horizonte, onde foram encontradas dezenas de sepultamentos com cerca de 10 mil anos de idade.

“São lugares muito bonitos. Também temos a intenção de estudar algumas questões sobre o antigo clima da região, mas ainda precisamos formular melhor nossa estratégia”, diz ela.  

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