Bióloga cria instituto para combater pseudociência e influenciar debate

Primeiro alvo do Questão de Ciência será avaliar evidências científicas das práticas integrativas do SUS

Gabriel Alves
São Paulo

Natalia Pasternak, 42, primeiro tentou ser bailarina, mas, em suas palavras, não era boa o suficiente para se destacar. Na hora de fazer faculdade, escolheu direito, mas largou três anos depois. Só então escolheu a biologia. 

A bióloga Natalia Pasternak, fundadora do Questão de Ciência, que será inaugurado em novembro  
A bióloga Natalia Pasternak, fundadora do Questão de Ciência, que será inaugurado em novembro   - Karime Xavier/Folhapress

O longo caminho adiante envolveria bactérias, divulgação científica e uma boa dose de ativismo contra a pseudociência, que culmina agora na abertura do instituto Questão de Ciência, em São Paulo.

Quando sua filha nasceu, em 2009, a bióloga estava no final de seu estágio de pós-doutorado na USP, etapa em que pesquisadores se preparam para fazer concursos e brigar por posições dentro de universidades e institutos de pesquisa.

Estava feliz da vida com sua bebê, mas, justamente por causa dela, surgiram algumas pulgas para atrás da orelha. “A maternidade me tirou da bolha da academia, e tive que conviver com pessoas que tinham visões diferentes da minha sobre a ciência.”

Ela viu, por exemplo, que é grande o número de mães e pais de classe média e alta que questionam a eficácia das vacinas e até militam contra elas. O movimento, conhecido como antivax (ou antivacina), surgiu nos EUA e na Europa e também aparece no Brasil com alguma relevância.

A bióloga que, graças ao pai, Mauro, professor de matemática financeira da FGV, cresceu lendo Isaac Asimov (autor de “Eu, Robô”, entre outros) e do astrônomo Carl Sagan, sentiu-se incomodada. 

Após três anos de dedicação intensiva à maternidade, a pesquisadora voltou à bancada e às suas bactérias, mas as razões que lhe causavam indignação não cessaram. 

Em 2013, houve a invasão do Instituto Royal e o furto de animais por ativistas contrários ao uso dos bichos em experimentos científicos.

O tema foi seu primeiro post no blog Café na Bancada, que nasceu a partir da indignação de Pasternak e de dois colegas de laboratório com a baixa moral da ciência.

“A população não sabe como se usa animal em pesquisa, quais são as alternativas —cultura de células, pele artificial— e nem para quais pesquisas elas servem. E não faz a conexão de que, para cada medicamento que elas tomaram na vida, uma porção de animais foram sacrificados”, afirma a bióloga.

A especialista em genética de bactérias também começou a dar palestras sobre divulgação científica e abraçou a coordenação nacional do Pint of Science, evento que nasceu na Inglaterra e que visa levar cientistas e público para discutir ciência no bar. 

O ímpeto de divulgar a ciência e de combater a pseudociência tem o endosso de Beny Spira, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP que a orientou na pós-graduação.

Depois de se indignar ao ouvir estudiosos de micro-organismos falarem de assuntos esotéricos e sobrenaturais como se fossem reais, ele resolveu responder oferecendo, ao longo de dez anos, uma disciplina sobre ciência e pseudociência para pós-graduandos da USP. Pasternak estava na primeira turma do novo curso.

“O problema era que ali e em eventos como o Pint of Science a gente estava pregando para convertidos.

As mudanças no status da ciência na sociedade têm que acontecer de cima pra baixo, é preciso convencer políticos a alterar políticas públicas”, diz Spira.

A polêmica da fosfoetanolamina, substância que foi distribuída por vários anos em cápsulas por um professor da USP de São Carlos com a alegação não verificada de que a droga seria capaz de tratar diversos tipos de câncer, foi mais uma fonte de indignação para a cientista.

“É importante que as pessoas entendam os mecanismos da ciência para que elas não sejam tão facilmente manipuladas. Elas não tinham noção de que a ‘fosfo’ não era um medicamento, que não havia sido testada, que ninguém havia demonstrado eficácia —mas essa informação não chegava. Foi nessa época que percebi que comunicação científica mal feita pode virar problema de saúde pública.”

As histórias do Instituto Royal, da fosfoetanolamina e dos movimentos antivacina serviram de substrato para que ela percebesse que as ações de indivíduos isolados não surtiam efeito na sociedade.  Ganhava corpo a ideia de que era necessário transpor esse tipo de briga para um nível institucional.

Por isso, no próximo dia 22 de novembro será lançado em São Paulo o Instituto Questão de Ciência, entidade privada que, explica Pasternak, visa ajudar e influenciar o governo na formação e adoção de políticas públicas baseadas em ciência.

Foram recrutados para a empreitada o jornalista Carlos Orsi, o físico e professor da Unesp Marcelo Yamashita e o psicólogo e advogado Paulo Almeida, que formarão a primeira diretoria do instituto. 

Outros nomes de peso da ciência nacional já apoiam publicamente a iniciativa, como Marcelo Knobel, reitor da Unicamp, Paulo Saldiva, diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP, Rogério Rosenfeld, do Instituto de Física Teórica da Unesp e  Walter Colli, do Instituto de Química da USP, entre outros. 

A meta é funcionar como um think tank independente que vai gerar estudos e pareceres sobre temas relevantes, entrar com ações judiciai e fazer checagem de discursos e documentos oficiais para ver se os argumentos científicos procedem.

Haverá ainda uma revista eletrônica, comandada por Orsi, na qual serão divulgadas reportagens sobre temas relevantes para o instituto, ou seja, que tenham impacto em políticas públicas, como a regulação de produtos transgênicos e a rotulagem de alimentos industrializados.

Até o momento, somente Pasternak colocou dinheiro na iniciativa. “O suficiente para sair do papel”, diz.

Ela não revela o valor, mas, considerando os custos fixos, o montante pode chegar a algumas centenas de milhares de reais nos primeiros anos. 

O plano é que o IQC se sustente com base em assinaturas/mensalidades e com doações de pessoas físicas —se houvesse dinheiro de empresas, a isenção da entidade poderia ser comprometida, diz a bióloga, que também aceitou o apoio das universidades estaduais paulistas, mas não quis vincular formalmente o IQC a nenhuma delas.

A inspiração do Questão de Ciência são duas entidades estrangeiras: a americana Center for Inquiry e a britânica Sense About Science. 

O Center for Inquiry tem um histórico importante na abordagem cética de questões socialmente relevantes e no esclarecimento de supostos fenômenos paranormais. O Sense About Science já atuou para mostrar a falta de evidências científicas nas alegações de itens vendidos com supostas propriedades “detox” e também da homeopatia.

O primeiro alvo do IQC serão as práticas integrativas e complementares, que passaram a ser aceitas e oficialmente oferecidas no SUS, como dança circular, reiki, ozonioterapia e aromaterapia.

“Vamos montar um manual explicando as 29 práticas, e o que há de evidência sobre cada uma, se funcionam ou não. O documento tem que ter uma forma didática, porque o primeiro passo é sempre esclarecer a população.”

Por mais que as tais práticas possam gerar bem-estar para os indivíduos, Pasternak é intransigente ao dizer que, se o dinheiro é público, tem de haver embasamento científico para o que é oferecido. 

“Tem um monte de coisas que fazem bem, como ouvir música, acariciar um gato ou tomar vinho. Mas não é porque uma coisa faz bem que você vai colocá-la no sistema público de saúde, com dinheiro do povo. É uma questão de uso de recursos. Um bom médico de família pode indicar que a pessoa pratique esportes, tenha uma alimentação saudável e realize coisas que a faça se sentir bem, mas isso não quer dizer que recursos públicos tenham que ser direcionados para que haja aulas de danças no SUS.”

Pasternak pede que os próximos governantes e congressistas não se deixem levar por apelos meramente ideológicos na adoção de políticas públicas. “Em uma real democracia deve-se garantir o acesso à informação de qualidade, baseada em evidências, para que o cidadão e o poder público possam tomar decisões conscientes.’

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.