Descrição de chapéu The New York Times

Site de genealogia permite a identificação de criminosos

Quinze suspeitos já foram identificados com base nos dados da plataforma GEDmatch

Heather Murphy
Lake Worth, Florida

Na noite de Halloween de 1996, um sujeito com uma máscara de caveira bateu à porta de uma casa em Martinez, Califórnia, algemou a mulher que o recebeu, e a estuprou.

Duas semanas depois, ele telefonou para o consultório odontológico em que ela trabalhava. Investigadores tentaram rastreá-lo usando registros telefônicos, sem sucesso. Obtiveram traços de seu sêmen, mas não havia registro de seu DNA em qualquer banco de dados sobre criminosos.

No mês passado —duas décadas depois do crime—  a procuradoria estadual da Califórnia, em Sacramento, tentou algo novo para enfim resolver o caso desse estuprador serial, que atacou pelo menos 10 mulheres em suas casas.

Investigadores converteram o DNA do atacante em um perfil do tipo utilizado por sites de história familiar como o 23andMe, e o subiram para o GEDmatch.com, um site gratuito e aberto a todos os usuários, e muito caro aos pesquisadores genealógicos que buscam encontrar pais biológicos ou criar árvores genealógicas elaboradas.

Cinco minutos depois de receber os resultados, os investigadores haviam identificado um parente próximo do suspeito do ataque, em meio ao milhão de perfis disponíveis no banco de dados. Em menos de duas horas, eles identificaram um suspeito, preso logo depois: Roy Charles Waller, especialista em segurança na Universidade da Califórnia em Berkeley.

A detenção foi a 15ª ocasião em que o GEDmatch ofereceu provas essenciais que conduziram a suspeitos em casos de homicídio ou agressão sexual, desde a prisão em abril do ex-policial Joseph James DeAngelo, por estupros e homicídios cometidos nas décadas de 1970 e 1980 na Califórnia, em uma série de casos que vieram a ser atribuídos ao notório "Golden State Killer".

E ninguém ficou mais surpreso que os dois criadores do GEDmatch —Curtis Rogers, 80, empresário aposentado que seria facilmente tomado por mais um discreto vovô da Flórida, com seus tênis brancos fechados por velcro, e John Olson, 67, engenheiro de transporte que vive no Texas.

A pequena empresa que eles criaram como um projeto paralelo terminou mudando, sem que eles tivessem intenção, a maneira pela qual os investigadores dos Estados Unidos tentam resolver crimes que há muito estão relegados aos arquivos.

Dentro de três anos, o DNA de praticamente todos os americanos cujos ancestrais provenham do norte da Europa - os usuários primários do site - poderá ser identificado por meio de dados sobre primos no banco de dados do GEDmatch, de acordo com um estudo publicado recentemente pela revista Science.

"Foi um choque para nós como essas coisas se desenvolveram", diz Rogers, que se interessou por pesquisas genealógicas ao realizar buscas pela história de sua família. "Toda essa notoriedade tão repentinamente".

Olson concorda: "Sinto estar em um veículo que está avançando em alta velocidade, e não há como controlá-lo".

Desde a prisão de DeAngelo, agências policiais de todo o país, do estado de Washington à Flórida, recorreram ao site para tentar deslindar casos acontecidos décadas atrás. E os recursos do GEDmatch também vêm sendo cada mais usados em casos recentes.

Inicialmente, Rogers ficou indignado ao descobrir de que maneira investigadores vinham usando seu site, mas agora se sente orgulhoso.

"Dentro de um ano creio que isso será aceito", ele disse. Alguns pesquisadores genealógicos consideram essa ideia altamente problemática, dadas as muitas questões éticas e de privacidade que emergiram desde que investigadores passaram a recorrer a um site privado de história familiar como método para resolver crimes.

Uma visita à sede

A sede da GEDmatch, em Lake Worth, Flórida, é uma casinha amarela com janelas pintadas de azul-turquesa, uma cerca de madeira branca e uma palmeira no quintal. A breve visita, a primeira que Rogers autorizou por um jornalista, começa por sua mesa de trabalho, a única da casa. Ele vaide carro ao trabalho todos os dias, de sua residência a meia hora de distância.

Olson, seu sócio, trabalha em casa, no Texas. Três cientistas da computação, também aposentados, trabalham remotamente, de vez em quando. A empresa não tem outros funcionários, mas um gato branco peludo vive na casa.

Na porta seguinte à do banheiro, o aposento está repleto de quadros pintados pela mulher de Rogers, e de caixas de papelão rotuladas, resquícios de seu segundo trabalho, como curador.

O banco de dados do GEDmatch agora pode ser usado para identificar pelo menos 60% dos americanos de ascendência europeia, com base em seus primos, de acordo com duas análises recentes de pesquisadores genéticos.

Mas ao contrário do 23andMe e de outros grandes sites de genealogia, o GEDmatch não tem laboratório. O site serve, em lugar disso, como recurso para pessoas que disponham de análises de DNA realizadas por terceiros e desejem buscar outros parentes e mergulhar mais a fundo em suas origens.

Alguns usuários do GEDmatch são pessoas que buscam todos os detalhes sobre suas árvores genealógicas da mesma maneira que alguém busca todas as figurinhas de uma coleção de beisebol.

Outros usuários são aposentados interessados em resolver velhos mistérios familiares. Muitos outros são filhos adotivos, e pesquisadores genealógicos que os ajudam a usar os recursos do site para localizar seus pais biológicos. Mais de 10 mil pessoas parecem ter usado o site para isso nos últimos oito anos, de acordo com dois pesquisadores genealógicos que ensinam pessoas a conduzir buscas desse tipo.

Em termos estéticos, o GEDmatch parece a página interna de rede de uma empresa, carente de renovação. Mas o que ele oferece aos pesquisadores e aos investigadores criminais é uma imensa flexibilidade. Hoje há mais de 17 milhões de perfis de DNA em bancos de dados genealógicos, mas a maioria dos sites de grande porte restringe o material que pode ser subido, proibindo não só provas obtidas em locais de crimes como qualquer coisa processada por um laboratório externo.

O GEDmatch aceita tudo, e gratuitamente  —sangue processado por um laboratório obscuro, saliva processada pela 23andMe—, desde que o material esteja no formato correto.

O site também é útil para pessoas que estejam construindo uma história familiar detalhada. Encontrar primos, em sites genealógicos existentes, não é uma tarefa difícil para um usuário médio. A chave, para um investigador genealógico, é descobrir de que maneira exatamente esses primos se relacionam à pessoa em questão, e uns aos outros.

Os instrumentos criados por Olson —primordialmente porque ele se encantou pela matemática envolvida no processo— permitem que os usuários vejam os segmentos genéticos exatos em que os perfis dos primos se sobrepõem. Em meio ao milhão de perfis que o site abriga, um investigador genético habilidoso pode muitas vezes decifrar a identidade de um indivíduo com base em compatibilidade com um único primo em terceiro grau.

"Não há outro recurso parecido", disse Barbara Rae-Venter, pesquisadora de genealogia genética que usou o site para ajudar a resolver o caso do Golden State Killer.

Usar o GEDmatch dessa maneira não é fácil. A maioria dos investigadores que sobem provas recolhidas em locais de crime para o site ainda requer ajuda de de um pesquisador de genealogia genética altamente capacitado, como Rae-Venter.

O DNA serve apenas como primeira pista; com base nele, a árvore genealógica precisa ser preenchida usando outras formas de dados, entre os quais perfis em mídia social e certidões de nascimento. Ainda assim, para pessoas que saibam o que estão fazendo às vezes é possível identificar um suspeito de crime ou encontrar os pais biológicos de um filho adotivo em menos de dois dias.

Tudo isso é difícil de compreender se você está vendo Rogers zapear emails em seu velho laptop Toshiba.

"Se eu passar um dia sem responder, não consigo recuperar o atraso", ele diz, encaixando os tênis na base de sua cadeira giratória de couro sintético.

Ele envia um guia de 15 etapas para um usuário que estava enfrentando problemas para subir um arquivo, uma das muitas questões básicas de assistência técnica que responde a cada dia. Outras questões comuns incluem: "Isso quer dizer que meu pai não é meu pai?"

Em sua mesa, há uma pequena pilha de cheques de US$ 10 —quantia que Rogers cobra ao mês por acesso de "primeira linha" ao site, que tecnicamente é gratuito. Até agora, o GEDmatch tem cerca de 6,5 mil usuários pagantes, o que basta para cobrir as despesas e propiciar algum lucro aos fundadores.

Rogers dedicou sua carreira inteira aos negócios, desenvolvendo clientelas internacionais para marcas como a maionese Hellmann's e a aveia Quaker. Ele sabe que poderia cobrar mais caro. Mas isso não pareceria certo, e diz, porque o objetivo da pesquisa de histórias familiares é ajudar as pessoas, um sentimento comum entre os pesquisadores genealógicos dedicados.

Desde a época dos peregrinos

Rogers na infância costumava ouvir de seus parentes que era descendente de Thomas Rogers, que chegou à América no Mayflower, o primeiro navio de colonos ingleses, em 1620. Seu mergulho na genealogia começou quando decidiu investigar se a afirmação procedia.

Na verdade, o parentesco não existe. Mas Rogers se deixou fascinar pelas pesquisas de história familiar. Não demorou para que ele colocasse em operação um projeto de genealogia online, para pessoas que tinham o mesmo sobrenome que o seu. Ele começou a procurar um desenvolvedor de software para facilitar o mapeamento de parentescos distantes.

Outro dos Rogers que participavam do projeto de árvore genealógica o apresentou a Olson, que se dispôs a ajudar o entusiástico Rogers. E as solicitações dele em termos de software eram simples, para um engenheiro acostumado a resolver complexos enigmas relacionados a sinais de trânsito.

A dupla descobriu que trabalhava bem em parceria, e em 2010 decidiram ir além do sobrenome Rogers. Criaram o GEDmatch.com, em referência ao GEDcom, um tipo de arquivo de árvore genealógica usado por pesquisadores, e uma abreviação usada para a comunicação de dados genealógicos.

Àquela altura, algumas empresas de genealogia começaram a oferecer testes de DNA autossomal, uma forma de análise genética útil para a identificação de parentes.

Rogers perguntou a Olson se ele seria capaz de fazer alguma coisa com todos aqueles dados.
"Creio que foi um desafio para ele, e que ele meio que foi fisgado", disse Rogers.

Não demorou para que seu banco de dados começasse a dobrar de tamanho a cada ano, e sem publicidade, disseram os dois.

O que convenceu Rogers a continuar investindo no site foram as "cartas de amor ao GEDmatch", muito diferentes de quaisquer mensagens para um serviço de atendimento ao consumidor que ele já tivesse visto, "e olha que as pessoas realmente adoram a maionese Hellmann's".

O dilema ético de Rogers

Em 25 de abril, a procuradoria pública do condado de Sacramento, na Califórnia, anunciou que havia conseguido um avanço no caso do Golden State Killer.

Rogers viu a notícia na cama, assistindo ao telejornal.

"Eu nunca tinha ouvido falar do Golden State Killer antes que eles capturassem aquele cara", disse.
Mas quando um dos apresentadores mencionou "uma nova forma de tecnologia de DNA", ele se virou para a mulher e perguntou: "Você acha que estive envolvido?"

Parecia possível; cerca de seis meses antes, duas companhias envolvidas em investigações criminais haviam pedido sua autorização para usar o site.

As agências policiais dos Estados Unidos contam com um banco de dados específicos para investigações criminais, o Codis, que contém mais de 16 milhões de perfis de DNA.

Mas os perfis forenses contêm apenas uma fração ínfima das centenas de milhares de marcadores genéticos de que os sites genealógicos dependem. Se investigadores não forem capazes de encontrar um resultado exato por lá, um site como o GEDmatch é melhor para rastrear um suspeito com base em seus parentes.

As normas de privacidade do site sempre foram vagas, dispondo essencialmente que os proprietários do GEDmatch não têm controle sobre como os dados genéticos individuais ou referentes a árvores genealógicas seriam usados. Mas autorizar explicitamente uma presença policial parecia diferente.

"Provavelmente não haveria maneira de eu impedi-los de fazer o que quiserem", Rogers disse ter informado à consultoria forense Parabon e ao DNA Doe Project, uma organização cujo foco é descobrir identidades de restos mortais não identificados. "Mas não podemos lhes conceder permissão. Tenho de proteger o site".
 

Por que Rogers mudou de ideia

Ele ficou furioso ao confirmar que um terceiro conjunto de investigadores, inicialmente sem lhe pedir autorização, havia envolvido o GEDmatch no caso do Golden State Killer. Parecia inevitável que a notícia levasse milhares de usuários a abandonar o site.

Ao me mostrar a casa, Rogers exibiu uma pilha de emails recebidos naquela primeira semana. No topo, um bilhete repleto de palavrões o acusava de violar a privacidade dos usuários do site.

Mas logo abaixo, numerosas mensagens o congratulavam, entre as quais a de uma mulher que pedia que seu perfil fosse facilmente encontrável por investigadores criminais. Ela suspeitava que seu pai, que sofreu diversas internações em instituições psiquiátricas depois de matar seu avô, era responsável por outros homicídios.

Rogers e Olson não esperavam receber tanto apoio. Nenhum deles imaginava que seu site receberia mais cinco mil uploads de material logo depois da prisão de DeAngelo - um recorde diário, disse Olson.

Duas semanas mais tarde, a Parabon anunciou que estava unindo forças com CeCe Moore, pesquisadora de genealogia genética, a fim de usar o GEDmatch para resolver crimes.

"Isso simplesmente não seria possível sem a coragem de John e Curtis de permitir que investigadores usem seu banco de dados", disse Moore, que ajudou a identificar mais de uma dúzia de suspeitos em casos de homicídio e agressão sexual, usando o site, nos últimos cinco meses.

Os elogios continuaram chegando, e os dois sócios começaram a relaxar. Em maio, eles alteraram suas normas de privacidade de forma a mencionar explicitamente que os perfis de usuários poderiam ser usados em investigações de homicídio ou agressão sexual. Em setembro, quaisquer dúvidas que eles ainda tivessem se dissiparam.

"Não tenho absolutamente qualquer preocupação quanto a violações de privacidade pessoal, porque há muita gente cujo DNA ajudou em capturas", disse Rogers.

Mas muitos observadores discordam. Quando o DNA de uma única pessoa pode conduzir investigadores a centenas de parentes de um suspeito, o modelo padrão de consentimento individual não se sustenta, disse Rori Rohlfs, professora da Universidade Estadual de San Francisco que estudou a questão de buscas familiares.

Ela considera irônico que a polícia da Califórnia precise da autorização de um juiz para realizar buscas em bancos de dados criminais pelo irmão de um suspeito de homicídio, mas possa subir DNA para o GEDmatch a fim de identificar primos sem quaisquer restrições.

A empolgação em torno dos casos, que ainda não foram a julgamento, também acarreta o risco de reforçar a ideia de que identificação de DNA equivale a prova de culpa, advertem alguns pesquisadores.
Recentes desdobramentos levaram diversos usuários negros a deixar o site, por medo de que investigadores criminais abusem de seus dados, disseram alguns pesquisadores de genealogia.

"Porque tantos negros americanos sofreram falsas acusações criminais, e porque os testes genéticos não são uma ciência perfeita, a polícia não deveria ter autorização para usar o GEDmatch", disse Tony Burroughs, ex-presidente da Afro-American Genealogical and Historical Society of Chicago, uma organização genealógica negra.

A saída desse grupo de usuários é especialmente trágica, disse Teresa Vega, historiadora familiar, porque o site era um dos melhores recursos para promover a reunião de famílias separadas pela escravatura.
Mais agências policiais começaram a experimentar com a genealogia genética, e o banco de dados do GEDmatch está crescendo em cerca de 1,8 mil perfis ao dia, disse Olson.

"Não gosto disso, não gosto nem um pouco", disse a artista Janet Siegel, mulher de Rogers. O happy hour tinha chegado, e estávamos em seu estúdio.

"De que você não gosta?", perguntou Rogers.

Ela na verdade não gostava dos hábitos de email do marido.

"Ele responde emails todo dia, o dia inteiro", lastimou.

Enquanto Siegel falava, Rogers saboreava um vinho.

Com o traço de saliva que ele deixou na taça, um pesquisador genealógico poderia usar o site que ele criou para revelar seu nome, e identificar uma dúzia de seus parentes. Também seria possível determinar que ele não descende dos peregrinos, mas na verdade de vikings.

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

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