Descrição de chapéu The New York Times

Supremacistas brancos bebem muito leite; por que isso preocupa cientistas?

Pesquisas genéticas vêm sendo usadas erroneamente para justificar discriminação

Amy Harmon
Nova York

A agenda da reunião anual da Sociedade Americana de Genética Humana, que acontece esta semana em San Diego, não inclui um tópico que vem incomodando muitos de seus integrantes: a apropriação recorrente das pesquisas de sua disciplina pelos defensores da supremacia branca.

"É complicado falar sobre questões políticas", diz Jennifer Wagner, especialista em bioética e presidente do comitê de questões sociais da sociedade de genética, que tentou organizar uma mesa redonda sobre o uso indevido da genética pelos racistas mas não atraiu muitas adesões.

Supremacistas brancos tomando leite
Imagem de vídeo de supremacistas brancos tomando leite - Reprodução/The New York Times

Mas o espectro do passado ignominioso da disciplina, que inclui apoio ao movimento de eugenia dos Estados Unidos, é um problema sério para muitos geneticistas, diante das questões políticas associadas ao movimento de identidade branca hoje.

Eles também se preocupam com a possibilidade de que novos recursos que lhes permitem estudar questões genéticas quentes, como a inteligência, sejam representados indevidamente de forma que os enquadre a ideologias racistas.

Nos últimos meses, alguns cientistas perceberam apresentações distorcidas de seus estudos acadêmicos em fóruns de extrema direita na internet. Outros tiveram de responder a perguntas confusas sobre afirmações de superioridade branca expressas com o jargão da genética humana.

Concepções equivocadas sobre como os genes influenciam as graves disparidades raciais nos Estados Unidos vêm surgindo nas muitas discussões, cada vez mais acaloradas, sobre disparidades em resultados escolares, questões de imigração, e questões de policiamento.

Em lugar de marcadores há muito descartados, como a circunferência craniana e o pedigree familiar, os proponentes atuais da hierarquia racial tentam, de acordo com especialistas que rastreiam os argumentos da extrema direita, defender suas posições distorcendo pesquisas sobre o genoma humano. E em debates que no passado em geral costumavam ficar restritos a fóruns bastante especializados, os cientistas cujo trabalho é estudar as variações genéticas humanas em prol do bem comum agora enfrentam dificuldade para responder.

"Estudar a diversidade genética humana é mais fácil em uma sociedade na qual a diversidade é claramente valorizada e celebrada —no momento, esse é um assunto que tenho muito em mente", diz John Novembre, biólogo evolutivo da Universidade de Chicago que vem concluindo suas apresentações nos seminários a que é convidado falando sobre a maneira pela qual exemplos de seleção natural usados nos manuais da disciplina foram adotados para ilustrar argumentos antiliberais.

Um slide que Novembre incluiu em suas recentes palestras retrata um grupo de nacionalistas brancos bebendo leite em uma reunião de 2017, para atrair atenção a um traço genético que é considerado mais comum nas pessoas brancas do que em outras —a capacidade de digerir lactose na vida adulta. O slide também mostra um post de mídia social de uma conta chamada "Enter the Milk Zone" [entre na zona do leite], com um mapa tirado de um artigo científico sobre a história desse traço evolutivo.

Na maior parte do mundo, o artigo explica, o gene que permite a digestão de lactose deixa de funcionar quando a pessoa chega à idade adulta. Mas com a chegada dos primeiros pecuaristas nômades à Europa, cerca de cinco mil anos atrás, uma mutação acidental que mantinha o gene ativo ofereceu uma vantagem nutritiva suficiente para que todos os sobreviventes do grupo terminassem por ser portadores do gene.

No post direitista, o link para o artigo é acompanhado pelo uso de retórica do ódio, com um convite para que as pessoas com ascendentes africanos saiam dos Estados Unidos. "Se você não pode beber leite", diz o texto, "precisa ir embora".

Infelizmente para os argumentos dos defensores da supremacia branca, um processo evolutivo semelhante parece ter ocorrido entre pecuaristas nômades do leste da África. Os cientistas precisam estar mais cientes das lentes raciais pelas quais algumas de suas constatações básicas estão sendo filtradas, disse Novembre, e fazer um trabalho melhor ao destacar de que maneira elas são distorcidas.

Mas o apego dos nacionalistas brancos aos laticínios também agravou as preocupações de Novembre sobre como lidar com novos estudos evolutivos, que lidam com traços comportamentais como a duração dos estudos de uma pessoa.

Antecipando interpretações indevidas de um estudo recentes sobre a associação entre os genes e as realizações escolares avançadas, com base em dados genéticos europeus, e sua variação entre diferentes populações em todo o mundo, o diretor do estudo, Fernando Racimo, criou um documento respondendo as perguntas mais frequentes apresentadas por não cientistas, e postou o texto no Twitter.

E em um comentário que acompanhava um estudo publicado pela revista acadêmica Genetics, Novembre alertou que pesquisas como essa "vêm com numerosas ressalvas", e que isso pode ser perdido na tradução para uma linguagem mais leiga.

Ele encerra seu comentário afirmando que "muito cuidado deve ser dedicado à comunicação dos resultados desses estudos a audiências não científicas".

Algumas dessas audiências já alardeiam testes de DNA que apontam para origens exclusivamente europeias, como se isso fosse uma carteira de identidade racial. Há quem celebre a presença de traços de DNA neanderthal, que não existem em pessoas com origem exclusivamente africana. E muita gente troca mensagens usando o código "realismo racial", que se alimenta da afirmação de que a elite científica progressista obscureceu a verdade sobre as diferenças biológicas entre as raças.

Alguns cientistas sugerem que dialogar com racistas simplesmente conferiria credibilidade às suas afirmações, claramente distorcidas. Muitos dizem que não estudam raças, de qualquer forma. As categoriais raciais usadas no recenseamento dos Estados Unidos se relacionam de maneira bastante imperfeita com os antecedentes geográficos que interessam aos geneticistas evolutivos. "Negro", por exemplo, é um termo definido socialmente, e que inclui diversos americanos cujos ascendentes são majoritariamente europeus.

Mas com a aceleração no ritmo da pesquisa genética humana, os resultados obtidos parecem, aos olhos de muitos não cientistas, contrariar a ideia de raça como uma construção totalmente social.

Os testes genéticos de ascendência alardeiam "estimativas de etnia". (A senadora Elizabeth Warren apelou à suposta autoridade do DNA, esta semana, ao demonstrar que tinha antepassados indígenas, em resposta a zombarias do presidente Donald Trump), e alguns genes associados a riscos de doenças provaram ter associações mais fortes com determinados grupos genéticos de ancestrais.

Os médicos usam as declarações dos pacientes quanto a origens raciais como substituto para indicadores geográficos de ascendência, porque leituras individuais de DNA são dispendiosas e as declarações de origem racial oferecem algumas correlações, ainda que imperfeitas.

Os bancos de dados de DNA ligados a registros médicos e questionários respondidos por grande número de pessoas atingiram massa crítica para as pessoas de ascendência europeia, além disso, e os chamados "placares poligênicos" que sintetizam as centenas ou milhares de genes que contribuem para muitos traços humanos em forma de um número único estão sendo desenvolvidos para prever riscos de saúde e, em certos casos, tendências de comportamento.

No ano passado, pesquisadores desenvolveram um indicador capaz de prever de modo bruto, por meio de um estudo de seu DNA, o nível de educação formal que um americano branco conseguirá. E embora esses indicadores ainda não possam ser comparados em escala racial ou de grupos populacionais, as novas técnicas levaram alguns cientistas a acreditar que é papel de sua disciplina negar as representações errôneas previsíveis que esses estudos podem gerar.

"Você precisa tomar uma decisão bem julgada, quando conta com informações poderosas que podem ser usadas indevidamente", diz David Reich, geneticista da Universidade Harvard que apelou aos seus colegas publicamente, em um livro e em um artigo de opinião para o The New York Times, para que tratem mais diretamente da perspectiva de encontrar diferenças genéticas entre populações quanto a traços socialmente sensíveis.

Não existem provas, enfatizam os cientistas, de que diferenças ambientais e cultuais não venham a ser os principais propulsores de diferenças comportamentais entre grupos de populações.

Ao mesmo tempo, os avanços na tecnologia genética parecem ter colocado os ativistas da supremacia branca em estado de antecipação frenética.

"A ciência está do nosso lado", alardeou Jared Taylor, fundador do American Renaissance, um grupo nacionalista branco, em vídeo recente que cita o livro de Reich.

Reich foi um dos cientistas que recusaram convites para presidir a uma discussão sobre o assunto na reunião de San Diego. "Eu queria voltar à pesquisa, na verdade", ele disse.

A incerteza cada vez maior entre os americanos quanto ao que os cientistas sabem sobre as diferenças genéticas entre os grupos raciais, dizem especialistas, deixou muita gente perplexa diante das afirmações supostamente baseadas em genética que os nacionalistas brancos vêm fazendo.

"Eu estava surfando em meu site favorito de imagens idiotas e encontrei um post que tentava usar ciência para provar que o racismo está certo", escreveu o aluno de uma faculdade na Flórida em mensagem a Jun Li, um geneticista da Universidade de Michigan cujo trabalho foi invocado para embasar afirmações racistas de superioridade intelectual branca. "Li o estudo por minha conta mas não tenho educação ou experiência para entender e garantir que eu disponha de contra-argumentos coerentes".

Para os americanos brancos meio convencidos de que os imigrantes não brancos ou os negros são responsáveis pelo que percebem como problemas sociais, o verniz de um arrazoado científico para a superioridade branca pode bastar para incliná-los ao ressentimento racial, dizem pesquisadores. Isso pode ser mais efetivo que apelos mais toscos a lealdades tribais, especialmente para o segmento de escolaridade mais elevada que a extrema direita vem buscando atingir com sua mensagem.

Supremacistas brancos tomando leite
Imagem de vídeo de supremacistas brancos tomando leite - Reprodução

E embora boa parte da retórica atual do nacionalismo branco se refira a preservar a herança cultural branca, especialistas dizem que ela se baseia em uma narrativa conhecida sobre diferenças biológicas imutáveis. Gavin McInnes, fundador da organização racista Proud Boys, cuja aparição causou briga diante de um clube republicano em Manhattan na semana passada, ecoou a teoria mais querida dos proponentes da supremacia racial branca, a de que os desafios ambientais dos invernos frios explicam a inteligência supostamente mais alta dos europeus setentrionais.

Alguns geneticistas criaram blogs para explicar por que as novas ferramentas genéticas não sustentarão a afirmação nacionalista branca de que as diferenças comportamentais médias entre os grupos são imutáveis. Outros —como Li— responderam diretamente a questões encaminhadas.

E quando um blogueiro do site de extrema direita Unz Review apontou que as variações de DNA associadas a QI elevado, em um estudo sobre europeus conduzido em 2017, estavam presentes com frequência mais baixa em africanos, a diretora do estudo respondeu publicamente que comparações entre diferentes populações eram espúrias.

Ela escreveu que "isso é uma interpretação completamente incorreta do resultado".

Muitos geneticistas respeitados em seu campo de trabalho dizem não ter a capacidade de se comunicar com a audiência geral quanto a um tópico tão complicado e tão repleto de riscos. Alguns sugeriram que jornalistas se encarregassem da tarefa. Diversos se recusaram a responder a perguntas para este artigo.

E porque tanta coisa continua desconhecida, alguns cientistas se preocupam que refutar esses erros básicos de compreensão sem a capacidade de oferecer respostas definitivas pode causar mais mal do que bem.

"É comum que haja muitas camadas de incerteza, em nossas constatações", diz Anna di Rienzo, professora de genética humana na Universidade de Chicago. "Comunicar esse nível de incerteza a um público que muitas vezes vê as coisas em preto e branco é muito, muito difícil."

Como um passo para tentar mudar esse fato, Rienzo ajudou a organizar uma reunião de cientistas sociais, geneticistas e jornalistas em Harvard, na semana que vem, para discutir as implicações sociais dos novos recursos de pesquisa do setor.

Os organizadores prometeram aos convidados que a reunião estaria limitada a cerca de três dúzias de participantes, e que tudo que for dito nela será confidencial.

E David Nelson, geneticista do Baylor College of Medicine que é presidente da Sociedade Americana de Genética Humana, diz que a organização não manterá completo silêncio sobre o assunto, e prometeu um comunicado para esta semana. "Não existem bases genéticas para sustentar qualquer ideologia racista", ele diz.

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

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