Cidades mudam cardápio, aparência e até aspectos genéticos de bichos, diz livro

Peixes comendo pombos, aves da Índia vivendo em Paris e dificuldade de achar parceiros são resultado de caldeirão urbano

Reinaldo José Lopes
São Carlos

Cenas absolutamente aterrorizantes acontecem com frequência no centro da pacata cidade de Albi, no sul da França. Debaixo da ponte sobre o rio Tarn que une dois distritos de Albi, as pombas da região costumam se reunir para bebericar água e molhar as penas, aparentemente alheias ao horror submerso que as espreita. As que se arriscam perto demais da água muitas vezes são atacadas por grandes peixes-gatos (Silurus glanis), que jogam o corpo inteiro para fora do rio, abocanham as aves e mergulham de novo para saborear seu almoço penoso no fundo do Tarn.

Se a ideia de um peixe que corre o risco de ficar encalhado só para comer coxa de pombo parece maluquice, é porque o cenário acima é, de fato, absolutamente esquisito e “artificial”.

De um lado, as pombas que povoam cidades do mundo todo hoje em dia são uma espécie doméstica que, muitas vezes, acaba se adaptando à vida urbana independente, comendo os restos da mesa dos humanos. De outro, os peixes-gatos do rio Tarn só foram parar ali nos anos 1980: a espécie é nativa da Europa Oriental e foi introduzida na área por entusiastas da pesca esportiva. Quem “apresentou” pombas e peixes-gatos, portanto, foi o Homo sapiens.

Coisas do tipo (ainda que, claro, nem sempre tão sanguinolentas assim) estão acontecendo em todos os cantos deste planeta superpovoado por seres humanos, conta Menno Schilthuizen, pesquisador do Centro de Biodiversidade Naturalis e da Universidade de Leiden, na Holanda. No livro “Darwin Comes To Town” (algo como “Darwin Vem À Cidade”), ainda sem tradução brasileira, Schilthuizen argumenta, de forma muito persuasiva, que os ambientes urbanos estão entre os grandes caldeirões da evolução dos seres vivos nos últimos séculos (e provavelmente continuarão a sê-lo ao longo dos séculos vindouros).

As modificações evolutivas sofridas por bichos e plantas urbanoides podem envolver comportamento (peixes incluindo pombos no cardápio, por exemplo), aparência, dieta e até aspectos bioquímicos e genéticos. Em geral, são alterações modestas, mas suficientes para demonstrar o poderio da seleção natural na hora de moldar os seres vivos, e que podem muito bem levar à origem de espécies totalmente novas com o passar do tempo.

Conversa de doido? Na verdade, uma análise mais detida revela que as selvas de pedra mundo afora possuem muitos dos ingredientes necessários para que se deflagre uma vertiginosa corrida evolutiva, em especial no caso de seres vivos de tamanho mais modesto.

O primeiro é a heterogeneidade de ambientes: cada parque arborizado, cada terreno baldio, nesga de terra na calçada ou mesmo cada linha do metrô é um “pacote” ambiental único e muitas vezes fechado, com características capazes de favorecer certas adaptações, em detrimento de outras.

(Não, não estou exagerando quando digo “cada linha do metrô”. O mosquito do metrô de Londres, Culex molestus, mudou boa parte de seus hábitos — deixou de chupar sangue de aves e de hibernar, passando a se alimentar de sangue humano e ficar ativo o ano todo, graças ao habitat especial subterrâneo que colonizou. E, como mosquitos não sabem fazer baldeação, cada linha londrina tem sua subpopulação do inseto, com características genéticas próprias.)

Em segundo lugar vem a riqueza de recursos, em especial os alimentares, como bem sabem as pombas. O sucesso dos seres humanos em produzir quantidades megalomaníacas de açúcar, proteína e gordura (e a capacidade quase sobrenatural que temos de jogar boa parte disso fora) cria oportunidades alimentares para muitos tipos de criatura, em especial insetos, mas também vertebrados.

Por fim, o terceiro grande motor evolutivo nas cidades é sua natureza cosmopolita. O comércio e o turismo, turbinados pela presença de rodovias, estradas de ferro e aeroportos, trazem espécies do mundo todo para as grandes cidades, e às vezes elas conseguem se fixar nos lugares mais improváveis.

Já existem, por exemplo, várias populações parisienses do periquito-de-colar (Psittacula krameri), um bicho originário do sul da Índia cuja presença nos arredores da Torre Eiffel faz tanto sentido quanto a de uma manada de girafas na Praça da Sé. Ambientes novos e cosmopolitas significam tanto pressão para se adaptar a condições diferentes quanto a presença de outras espécies inusitadas ao redor, que representam tanto desafios quanto oportunidades.

Em geral, os ambientes urbanos são poderosas “peneiras”, filtrando a diversidade genética já existente nas populações selvagens de cada espécie de acordo com os desafios especificamente citadinos à sobrevivência. Previsivelmente, já sabemos que bichos de ambientes urbanos são capazes de aguentar níveis de metais pesados que acabariam com seus primos do campo em dois tempos.

Mas há também os desafios que envolvem a busca de um namorado(a) na metrópole. As fêmeas de certas espécies de pássaros, por exemplo, normalmente preferem o canto de machos de voz relativamente mais grave, mas esse canto tradicional não se propaga tão bem nas condições acústicas da cidade.

Assim, os cientistas têm percebido que certos pássaros desenvolvem cantos mais agudos em ambientes urbanos — sai Renato Russo, entra Freddie Mercury, por assim dizer.

O livro do pesquisador holandês é um convite a abrir os olhos para a resiliência e a riqueza da biodiversidade que está bem do lado de quem vive em cidades. Cada vez mais, argumenta ele, essa será a única “natureza” disponível para visitação para bilhões de seres humanos. Vale a pena tentar entendê-la, sem descuidar das áreas verdadeiramente selvagens que ainda existem na Terra.  

 

Darwin Comes To Town
Autor: Menno Schilthuizen. Editora: Quercus. Quanto: R$ 16,35 (livro eletrônico); 352 págs.

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