Descrição de chapéu Agência Fapesp

Bactérias podem ajudar os anfíbios a ficar mais cheirosos para os parceiros

Estudo pode alterar a maneira de estudar a comunicação entre sapos, rãs e pererecas, conhecidos pela vocalização feita por machos

Peter Moon
São Paulo | Agência Fapesp

Cientistas brasileiros descobriram que o forte odor exalado por algumas espécies de anfíbios é produzido por bactérias e seria uma forma de atrair parceiros. Exemplo notável de simbiose, tais bactérias ajudam na hora do acasalamento. A descoberta desse papel dos microrganismos, isolados da pele de pererecas, foi publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

“Às vezes, dá até para reconhecer uma espécie a partir do seu cheiro, mas ainda não se conhecia a função de tal odor. Uma hipótese era que se tratasse de um cheiro aposemático, ou seja, um sinal químico de advertência que serviria para afastar predadores, como fazem os cangambás Mephitis mephitis entre os mamíferos”, disse Célio Haddad, da Unesp, um dos autores do artigo.

De acordo com Haddad, tal hipótese era considerada pelo fato de muitas espécies de anfíbios, especialmente as venenosas, exibirem coloração chamativa, que funciona como um alerta visual para afugentar predadores. “Pensávamos que entre os anuros (sapos, rãs e pererecas) o odor pudesse desempenhar função semelhante.”

O artigo é resultado do trabalho de pós-doutorado do biólogo argentino Andrés Brunetti, com supervisão de Norberto Lopes. Realizado na USP de Ribeirão Preto, com o apoio da Fapesp. A pesquisa também contou com apoio do programa Biota-Fapesp, da USP, do CNPq e da Capes. 

“Nos anuros é comum haver diversas espécies diferentes dividindo um mesmo lago ou brejo. Nesses locais existem em média 30 pererecas macho para cada fêmea de uma mesma espécie. A dúvida é como as fêmeas fazem para reconhecer os machos da sua espécie em na multidão, todos vocalizando ao mesmo tempo”, disse Brunetti.

“Sabia-se que, nos anuros, a vocalização dos machos tem a função de atrair fêmeas, e que cada espécie tem um canto característico. Verificamos que o odor desempenharia função semelhante, servindo de sinal olfativo que permitiria às fêmeas reconhecerem os machos da espécie”, disse.

Os biólogos desconheciam também que havia diferença no odor de pererecas machos e fêmeas. Brunetti fez tal constatação ao longo de sua pesquisa, cujo objetivo primário era entender a composição química dos componentes voláteis exalados da pele de diversas espécies de pererecas.

Sua hipótese de trabalho sugeria que o cheiro fosse um sinal químico de advertência que serviria para afastar predadores. Para verificar a hipótese, Brunetti foi a campo em várias localidades do Estado de São Paulo e Rio para coletar espécimes da perereca cará-cará (Boana prasina).

“É muito difícil coletar fêmeas no campo. No primeiro momento, só conseguimos coletar machos. Quando observamos indicação de haver diferença sexual no odor dos bichos, fui a campo novamente com o objetivo de capturar fêmeas para comparação.”

Os cientistas descobriram que a secreção volátil da pele dos bichos é uma mistura de 60 a 80 compostos, incluindo álcoois, aldeídos, alcenos, éteres, cetonas, metoxipirazinas,  entre outros. Algumas quantidades dessas substâncias variam consideravelmente entre machos e fêmeas. E alguns deles são produzidos por micro-organismos.

Para investigar se esse era o caso da Boana prasina, os pesquisadores isolaram bactérias associadas à pele das pererecas e analisaram os componentes voláteis —128 ao todo.

Foram encontrados quatro metoxipirazinas em machos e fêmeas, produzidas por uma bactéria do gênero Pseudomonas.

Na Boana prasina, as metoxipirazinas são muito mais abundantes nas fêmeas do que nos machos. Até o momento, só é conhecido outro anuro de Madagascar que se comunica por meio do cheiro. Entre os anfíbios, isso ocorre entre as salamandras, parentes distantes dos anuros.

“Se as pererecas Boana prasina se valem do cheiro como forma de comunicação olfativa, quem sabe outras espécies não estejam fazendo o mesmo, dado que cada espécie tem o seu odor característico. A descoberta de Brunetti, se confirmada, abre um novo campo de investigação na herpetologia, que agora passará a estudar a comunicação entre anuros não apenas pelas vias visual e acústica, mas também pela via olfativa”, disse Haddad.

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