Sete anos após incêndio, base do Brasil na Antártida ficará pronta em março

Cientistas ainda levarão um ano para ocupar a estação e temem falta de verba para pesquisas

Ana Estela de Sousa Pinto
São Paulo

Sete anos depois de ter sido destruída por um incêndio, a base para pesquisas científicas na Antártida deve ter a reconstrução concluída no final deste mês, mas ainda levará um ano para ser 
ocupada por pesquisadores.

Com 4.500 metros quadrados construídos por cerca de R$ 100 milhões, a Estação Antártica Comandante Ferraz ainda precisará testar os sistemas no limite das condições de uso e segurança. 

Cada disjuntor dos 200 quadros de luz precisará ser verificado, por exemplo, e os quatro geradores serão exigidos ao máximo, em diversas manobras, para garantir que a estação não fique sem 
energia nem por um dia.

 

Só depois seus 17 laboratórios começarão a ser ocupados. A inauguração oficial está marcada para o começo de 2020, um atraso de dois anos em relação à data prevista, mas cientistas acreditam que só em 2021 a estação esteja em condições adequadas de uso.

A demora, porém, não é o que mais afeta a pesquisa brasileira no continente, na avaliação do principal glaciologista (especialista em geleiras) do país, o professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Jefferson Cardia Simões.

“A estação é a casa do Brasil na Antártida, a manifestação de interesse político. Mas, cada vez mais, a ciência não é feita na estação, e, sim, em acampamentos temporários, nos navios ou com robótica.”

Segundo Simões, não mais que 30% das pesquisas usavam a estação antes do incêndio em 2012, e mesmo essas não pararam. O pesquisador da UFRGS lidera um dos 17 projetos aprovados no final de 2018 em chamada pública do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) 
—veja abaixo.

Mais do que a ausência de base física, o problema é a instabilidade de financiamento, na opinião não só dos próprios cientistas mas de membros da Marinha (que administra a logística e a estrutura física) e de pesquisadores que estudam o Programa Antártico Brasileiro (Proantar, principal instrumento de execução da política antártica nacional), como o pesquisador do Ipea Israel de Oliveira Andrade.

Estudo coordenado por ele mostra que a fatia destinada à ciência oscilou bastante nos últimos anos (veja quadro). 

O professor da UnB Paulo Câmara, por exemplo, passou os últimos cinco anos na Antártida identificando os caminhos e meios pelos quais musgos e líquens do polo Norte chegam ao polo Sul, entre outros aspectos.

A pesquisa foi realizada em estações da Espanha, da Coreia e do Chile e em acampamentos. Mas o financiamento, que deveria ter sido pago em três anos, atrasou, e a última parcela foi paga só 
no fim do quarto ano.

“Precisei dispensar dois pesquisadores com pós-doutorado, que já trabalharam na Antártida, conhecem a logística e a ciência, publicam trabalhos, porque a bolsa acabou. O que eles farão agora? Vão vender pipoca? Mate gelado na praia?”, diz Câmara. “Já que é a ciência que mantém o Brasil com poder de decisão na Antártida, é preciso assegurar investimentos”, diz.

Esse poder de decisão vem do fato de que só países com atividade científica podem ter voz e voto no Tratado da Antártica, que regula as atividades no continente.

“São apenas 29 os países que decidem os destinos da Antártida, que é 10% do território do planeta, com 70% da água doce do mundo e imensas reservas intocadas de gás, minérios, petróleo”, diz Câmara.

“Mais do que voto, a palavra-chave talvez seja veto”, diz o contra-almirante Sergio Guida, responsável pela etapa final da reconstrução. Segundo ele, é de interesse nacional manter as normas atuais, que impedem a exploração comercial do continente.

Visão estratégica é a principal mudança na ciência brasileira na Antártida desde o incêndio da base, diz Simões.

“O país tem um planejamento de longo prazo, com dois focos: investigar questões pertinentes ao ambiente e à sociedade brasileira, com a melhor qualidade possível para reforçar o protagonismo brasileiro nos fóruns internacionais.”

Mas a questão do financiamento não está resolvida, mesmo que o edital do ano passado tenha garantido R$ 18 milhões pelos próximos três anos. “A verba foi a tábua de salvação da ciência antártica brasileira, mas daqui a quatro anos ninguém sabe o que vai acontecer”, diz ele. 

O investimento foi liberado ainda durante o governo de Michel Temer, mas não há mudanças de diretrizes na gestão Bolsonaro, segundo a responsável pela área no Ministério da Ciência e Tecnologia, Andréa da Cruz-Kaled. 

“A prioridade agora é equipar os laboratórios em conjunto com a comunidade científica, atendendo suas demandas e propostas”, afirma a coordenadora de Mar e Antártica.

Vários dos projetos aprovados nesse novo ciclo estudam o impacto da Antártida no clima brasileiro: correntes e fluxos meteorológicos do continente afetam o regime de chuvas e a temperatura do Brasil.

“Já ouvi de um deputado da bancada ruralista que não se interessava pela pesquisa antártica, apenas pelo seu próprio setor. Mas só chove na terra dele por causa da Antártida”, afirma Guida.

Outro campo com potencial tecnológico e comercial é o de substâncias como anticongelantes e protetores solares produzidos por organismos que vivem nas condições extremas do continente.

A própria reconstrução da estação gerou conhecimento científico, diz Guida. “Erguer um edifício sobre solo congelado, com rochas a 70 metros de profundidade, exigiu soluções inovadoras, como placas de metal e de concreto formando uma estrutura que praticamente flutua sobre o solo”, diz ele.

No processo, o Brasil fez parceria com universidades chinesas para desenvolver tecnologias de construção nesse tipo de solo. Um dos laboratórios será patrocinado pela China, e haverá intercâmbio 
com técnicos da Marinha.

O projeto também superou desafios como o de prever uma estrutura aerodinâmica capaz de suportar ventos que chegam a 200 km/h, diz o arquiteto Emerson Vidigal, do escritório Estúdio 41, vencedor do concurso para conceber a nova estação.

Por causa do incêndio que deixou dois mortos em 2012, segurança foi uma das principais preocupações.

Foram dobradas as recomendações técnicas que se referem a evacuação e combate a incêndios. 

Projetos de pesquisa na Antártida

Universidade Federal de Viçosa: Garantir a formação continuada de pesquisadores e consolidar o patamar de estudo de ecossistemas terrestres em transição, mudanças climáticas, ecologia de comunidades, dinâmica de carbono e biogeoquímica terrestre

Universidade Federal do Pará: Investigar o contínuo rebaixamento da superfície da geleira Pine e sua contribuição negativa à estabilidade do balanço de massa na região

Universidade Federal do Rio Grande: Identificar e estudar alterações ambientais, variabilidade e vulnerabilidade de ecossistemas marinhos; entender os processos reguladores dos fluxos líquidos de CO2 na interface ar-mar e o armazenamento de carbono nos oceanos

Universidade Federal do Rio Grande: Avaliar a capacidade de resiliência de ecossistemas antárticos a alterações climáticas. Compreender o impacto de condições físico-químicas nos padrões de diversidade biológica e na saúde geral do ambiente marinho

Universidade do Vale do Rio dos Sinos: Compreender as mudanças climáticas ocorridas durante o paleoceno-mioceno  e suas conexões com mudanças climáticas registradas em arquivos sedimentares marinhos profundos

Universidade Federal de Pernambuco: Elucidar as razões pelas quais a região da Confluência Brasil-Malvinas é considerada um hotspot de diversidade fitoplantônica. Testar a existência de maior diversidade em regiões de encontro de correntes de contorno

Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais: Medir o comportamento das ondas oceânicas, da interação delas com o gelo marinho e dos fluxos pelos quais as ondas, o oceano e a atmosfera trocam propriedades dinâmicas e termodinâmicas; aprofundar o conhecimento sobre as relações com o clima da América do Sul, com ênfase no Brasil

Universidade Federal do Rio de Janeiro: Usar esponjas como biosensores de mudanças globais no continente Antártico e no extremo sul do continente sul americano; estudar esponjas como fonte de novas biomoléculas para produção de lipídios de armazenamento, antimicrobianos, heparinas e enzimas adaptadas ao frio

Universidade Federal de Minas Gerais: Coletar solos, gelo e neve milenares, sedimentos marinhos e de lagos, água marinha e de lagos, rochas, ar, invertebrados, plantas,  macroalgas e artefatos arqueológicos na península antártica e no continente. Isolar e identificar substâncias bioativas produzidas pelos fungos antárticos

Universidade Federal do Paraná: Determinar níveis e distribuição espaço-temporal de contaminantes orgânicos, poluentes orgânicos persistentes e emergentes, indicadores geoquímicos, marcadores moleculares da origem da matéria orgânica, indicadores químicos do aporte de esgotos e elementos metálicos

Universidade Federal do Rio de Janeiro: Coletar e analisar macrofósseis, microfósseis e rochas para compreender a diversificação da biota e dos ecossistemas durante a evolução do Gondwana Sul e as inter-relações com a América do Sul

Universidade Federal do Rio de Janeiro: Compreender os momentos de rompimento das massas continentais (e atividade tectônica relacionada) e sua invasão por águas marinhas; avaliar a coerência da informação paleogeográfica e paleoclimática proveniente dos depósitos e fósseis marinhos e continentais

Universidade Federal Fluminense: Compreender os processos psíquicos de seres humanos sob isolamento e confinamento, analisando particularidades  como a missão, o ambiente, as atividades desempenhadas e as ferramentas utilizadas; testar modelo de supervisão remota em saúde mental antártica

Universidade Federal de Minas Gerais: Avaliar respostas neurobiológicas e comportamentais ao confinamento e à aclimatização ao frio. Investigar aspectos oftalmológicos, hormonais, psicológicos e médicos e observar questões de gênero, poder, hábitos comportamentais (assédio sexual, feminismo, masculinidade, uso de drogas prescritas ou não, álcool, e cigarro)

Universidade Federal do Pampa: Testar quatro espécies de musgos mais frequentes na Antártica para produção de biomassa suficiente em laboratório para sua aplicação em biofábricas de medicamentos para pacientes com leucemia linfoblástica aguda (substância L-Asparaginase)

Fundação Oswaldo Cruz: Levantar a presença de patógenos na Antártida; pesquisar a biodiversidade da região e como ela é influcenciada pelo  aquecimento global e outros movimentos do clima; identificar extratos e moléculas promissoras para o tratamento do câncer

Erramos: o texto foi alterado

 Andréa da Cruz-Kaled é coordenadora de Mar e Antártica, que faz parte da Coordenação-Geral de Oceanos, Antártica e Geociências

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