Textos inéditos de Einstein mostram discussões sobre ciência com toques pessoais

Universidade Hebraica de Jerusalém revelou 110 manuscritos do físico alemão, a maioria deles inéditos, incluindo cartas e artigos

Daniela Kresch
Tel Aviv

A Universidade Hebraica de Jerusalém (UHJ) revelou nesta quarta-feira (6) 110 manuscritos—a maioria inéditos— do cientista alemão Albert Einstein, um dos fundadores da instituição. Os documentos originais, escritos à mão e amarelados pelo tempo, ajudam a revelar um pouco mais do homem responsável pela Teoria da Relatividade e ganhador do Prêmio Nobel de Física em 1921.

O acervo contém documentos matemáticos e cartas pessoais. Uma delas, de 1935, foi enviada a seu filho, Hans Albert, que vivia na Suíça na época. Nela, Einstein expressa sua preocupação com a deterioração da situação na Europa e a ascensão do partido nazista na Alemanha —ele deixara o país natal naquele ano por causa da subida de Adolf Hitler ao poder, em 1933, mas ainda assim se mostra um tanto otimista:

"Li com certa apreensão que há um grande movimento na Suíça instigado pelos bandidos alemães. Mas eu acredito que, mesmo na Alemanha, as coisas estão lentamente mudando. Esperaremos apenas que não tenhamos uma guerra na Europa. (...) O armamento alemão deve ser extremamente perigoso, mas o resto da Europa está agora começando a levar a coisa a sério, especialmente os britânicos".

No início da carta, Einstein se desculpa por não ter respondido a uma mensagem anterior. Diz que estava "tanto nas garras do demônio matemático" que não conseguia escrever nada pessoal. "Estou perseguindo metas sem esperança e minha cabeça não está boa para nada de natureza contemplativa."

Também há quatro cartas ao amigo e colega cientista suíço-italiano Michele Besso. Três delas, de 1916, referem-se à ideia de Einstein sobre a absorção e emissão de luz pelos átomos. Mais tarde, essa ideia se tornaria a base da tecnologia do laser. Na quarta carta, Einstein confessa que, após 50 anos de reflexão, "ainda não chegou perto" de compreender plenamente a natureza das partículas de luz.

As cartas para Besso também contêm comentários espirituosos e pessoais sobre assuntos de família e sobre a identidade judaica. Besso era de família judaico-sefaradita e demonstrava interesse na língua hebraica, mas se converteu ao cristianismo.

"Você certamente não irá para o inferno, mesmo que tenha sido batizado", escreveu Einstein ao amigo em 1951. Como goy (não judeu), você não é obrigado a aprender a linguagem de nossos pais, enquanto eu, como um 'santo judeu', tenho que me sentir envergonhado com o fato de não saber quase nada. Mas prefiro me sentir envergonhado a aprender [hebraico]."

"Cada uma das quatro cartas pessoais de Einstein é uma joia", disse o professor Hanoch Gutfreund, diretor acadêmico dos Arquivos Einstein, à agência Reuters. "Em cada carta eles se referem a algo científico mas sempre compartilham algo pessoal sobre suas famílias e fazem muitas vezes comentários sobre sua identidade judaica."

A maioria dos documentos (84) contém estudos matemáticos de 1944 a 1948. Os Arquivos Albert Einstein trabalhou com a professora Diana Kormos-Buchwald, do Projeto Einstein Papers, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), para decifrar os contextos científicos e matemáticos dos textos.

Uma dessas joias é um apêndice manuscrito e inédito de um artigo científico sobre a Teoria Unificada que Einstein apresentou à Academia Prussiana de Ciências, em 1930. O artigo foi um dos muitos nas tentativas de Einstein de unificar as forças da natureza em uma única teoria, um esforço ao qual ele dedicou os últimos 30 anos de sua vida. Acreditava-se até há pouco que o apêndice estava perdido.

Einstein deixou seus escritos pessoais e científicos à Universidade Hebraica após sua morte, em 1955. Os Arquivos Albert Einstein contêm cerca de 82 mil itens, incluindo manuscritos, cartas, fotografias e diplomas.

Os novos documentos foram adquiridos pela UHJ graças a uma doação filantrópica da Crown-Goodman Family Foundation, em Chicago. Antes, eles pertenceram ao matemático Ernst Straus, que foi assistente de Einstein. Em 1983, a família de Straus vendeu o acervo, que chegou às mãos do colecionador Gary Berger, da Carolina do Norte.

Parente de Einstein, a americana Karen Cortell Reisman desembarcou em Israel do Texas para assistir à chegada dos novos manuscritos em Jerusalém. A avó de Cortell Reisman, Lina Kocherthaler, era prima de Einstein. Os dois costumavam viajar juntos e permaneceram em contato durante toda a vida, compartilhando décadas de correspondência.

"Sempre que alguém nos visita mostramos nossa parede de Einstein, cheia de fotos e cartas do primo famoso."

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