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Em testes, terapia brasileira elimina 95% dos tumores de pele não melanoma

Tecnologia inovadora criada por físicos brasileiros poderá ser adotada pelo SUS

Elton Alisson
São Carlos | Agência Fapesp

Os pacientes com câncer de pele não melanoma poderão contar, em breve, com uma nova tecnologia para o tratamento não invasivo desse tipo de tumor cutâneo, o mais frequente no Brasil e no mundo.

Um grupo de pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP) desenvolveu, nos últimos anos, um dispositivo para o diagnóstico e tratamento óptico do câncer de pele não melanoma com resultados promissores, principalmente na eliminação de tumores iniciais. 

Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica desenvolve dispositivo para tratamento não invasivo do câncer não melanoma, o mais frequente no Brasil e no mundo
Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica desenvolve dispositivo para tratamento não invasivo do câncer não melanoma, o mais frequente no Brasil e no mundo - Brás Muniz / IFSC-USP

O procedimento está em processo de avaliação para ser implementado no Sistema Único de Saúde (SUS).
A técnica, criada no Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica (Cepof) —um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão apoiados pela Fapesp—, foi apresentada durante a Escola São Paulo de Ciência Avançada em Tópicos Modernos em Biofotônica, que ocorreu entre os dias 20 e 29 de março no IFSC-USP. 

O encontro, apoiado pela Fapesp, discutiu tópicos avançados na área de biofotônica, que usa tecnologias baseadas na manipulação de fótons, ou seja, a luz, para aplicações biológicas.

"O dispositivo foi desenvolvido no Brasil, com tecnologia totalmente nacional", disse Cristina Kurachi, professora do IFSC-USP e uma das autoras da técnica, à Agência Fapesp.

O equipamento, fabricado pela empresa MM Optics, em São Carlos (SP), é composto por um dispositivo capaz de reconhecer e verificar a extensão de lesões tumorais por fluorescência óptica em minutos. 

Após a identificação da lesão, é aplicada no local uma pomada à base de metilaminolevulinato (MAL), desenvolvida pela empresa PDF-Pharma, em Cravinhos (SP). 

Duas horas de contato com a pele depois, o composto é absorvido e dá origem, no interior das mitocôndrias das células tumorais, à protoporfirina —pigmento fotossensibilizante "primo" da clorofila.

Depois de remover a pomada da lesão, a região é irradiada por 20 minutos com um dispositivo contendo uma fonte de luz LED vermelha a 630 nanômetros integrada ao equipamento.

A luz ativa a protoporfirina e desencadeia uma série de reações nas células tumorais, gerando espécies reativas de oxigênio capazes de eliminar as lesões. Já os tecidos sadios são preservados.

Depois do procedimento, são geradas imagens de fluorescência para assegurar a irradiação total das lesões.

O tratamento ocorre em duas sessões, com intervalo de uma semana entre elas. Após 30 dias, as lesões são reavaliadas e submetidas a uma biópsia para confirmar se os tumores foram eliminados.

Por meio de um projeto, apoiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pela Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep), foram feitos ensaios clínicos para a validação da técnica em 72 centros de saúde em todo o país. 

O estudo multicêntrico foi coordenado por Vanderlei Salvador Bagnato, professor do IFSC-USP e coordenador do Cepof.

No Hospital Amaral Carvalho de Jaú, interior de São Paulo, por exemplo, foram tratadas com o novo método mais de 2.000 lesões de pacientes atendidos pela instituição e treinados 40 grupos de médicos para usar a técnica. Além dos hospitais, ambulatórios e clínicas no Brasil, foram realizados estudos clínicos em outros nove países da América Latina.

Os resultados dos ensaios clínicos mostraram que o tratamento brasileiro foi capaz de eliminar 95% dos tumores, sem efeitos colaterais, causando apenas leve vermelhidão no local e sem a formação de cicatriz.

"A despeito de estarmos em um Instituto de Física, temos feito medicina translacional, ou seja, conseguido transferir os resultados de pesquisa básica para aplicações clínicas que beneficiam a população, especialmente a mais carente", avaliou Kurachi, um dos membros da coordenação da Escola São Paulo de Ciência Avançada em Biofotônica.

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