Descrição de chapéu The New York Times

Pesquisadora é criticada por ter virado a 'cara' do buraco negro

A própria Katie Bouman se apressou em dizer que receber todo o crédito pelo trabalho em equipe não ajuda ninguém

Sarah Mervosh
Nova York | The New York Times

Quando a primeira foto de um buraco negro foi divulgada, esta semana, uma segunda imagem começou a circular pela internet em sua companhia: um retrato de uma jovem cientista levando as mãos ao rosto e reagindo com alegria à imagem de um anel luminoso alaranjado em torno de um abismo profundo e escuro.

A foto era boa demais para não ser compartilhada. A cientista Katie Bouman, que está pesquisando para o seu pós-doutorado e é colaboradora do projeto, se tornou uma heroína instantânea para as meninas e mulheres no campo de Stem (ciência, tecnologia, engenharia e matemática, na sigla em inglês), um símbolo muito bem-vindo em um mundo faminto por representação.

Pesquisadora é criticada por ter virado a 'cara' do buraco negro, olha para o computador em êxtase
Katie Bouman, uma das cientistas responsáveis pelo algoritmo que levou à imagem do buraco negro - Reprodução/Instagram

Figuras públicas, de Hollywood a Washington, descobriram o nome da pesquisadora. E defensores da causa da mulher na ciência, sabedores de que a história muitas vezes desconsidera as contribuições femininas, se apressaram a garantir que Bouman recebesse o reconhecimento merecido.

Em sua avidez por celebrá-la, no entanto, muitos não cientistas exageraram, na mídia social, o papel que ela desempenhou em um esforço coletivo envolvendo centenas de pessoas, o que causou uma impressão distorcida à medida que a foto era compartilhada.

A própria Bouman se apressou a apontar que ela, de maneira alguma, é a única responsável pela descoberta, que resultou de uma colaboração mundial entre cientistas que trabalharam juntos para criar a imagem, a partir de dados obtidos por uma rede de antenas de rádio.

O projeto, liderado por Shep Dooleman, astrônomo no Centro Smithsonian de Astrofísica, na Universidade Harvard, envolveu mais de 200 pesquisadores, dos quais 40 são mulheres, de acordo com a Black Hole Initiative de Harvard.

"Mulheres participaram de cada passo desse maravilhoso projeto", disse Sara Issaoun, aluna de pós-graduação na Universidade Radboud, na Holanda, e participante na pesquisa. "Como uma mulher no campo de Stem, é bom que possamos contar com mulheres que possam servir de exemplos para as meninas e meninos".

Mas Issaoun acautelou contra uma narrativa lobo solitário. "A diversidade, o esforço coletivo e a amplitude de nossa colaboração, creio, são a verdadeira causa de celebração", ela disse.

Para capturar a imagem do buraco negro —um fenômeno misterioso que por muito tempo era considerado impossível de observar—, os cientistas usaram oito radiotelescópios em todo o mundo para observar a galáxia intermitentemente, por 10 dias, em abril de 2017. Em seguida, deram início a um meticuloso processo de processamento do enorme volume de dados obtidos, de forma a mapeá-los como imagem.

Bouman, que em breve se tornará professora assistente no Instituto de Tecnologia da Califórnia, de fato desempenhou papel significativo no processo de desenvolvimento da imagem, que envolveu dividir os pesquisadores em equipes que mapeavam os dados e comparavam e testavam as imagens criadas.

Embora ela tenha liderado o desenvolvimento de um algoritmo para tirar uma foto do buraco negro, um esforço que foi tema de uma palestra TED que ela fez em 2016, os colegas de Bouman dizem que a técnica terminou por não ser usada parar criar a imagem em questão.

Depois que a onda de publicidade espalhou seu rosto sorridente pelo Twitter, Facebook, Reddit e sites de notícias de todo o planeta, Bouman inicialmente não atendeu aos pedidos de comentários encaminhados a ela na quinta-feira (11). Em um post no Facebook, ela escreveu que "não há um algoritmo ou pessoa que tenha feito essa imagem. Ela requereu o maravilhoso talento de uma equipe de cientistas de todo o planeta".

"Foi uma verdadeira honra", ela acrescentou, "e tive muita sorte por poder trabalhar com todos vocês".

Em uma mensagem de texto enviada na noite da quinta-feira, Bouman disse que teve de desligar seu celular porque estava recebendo mensagens demais. "Fico tão feliz por todo mundo estar tão empolgado quanto nós, e por as pessoas verem nossa história como inspiração", ela escreveu. "No entanto, o destaque deveria caber à equipe e não a um indivíduo. Concentrar as atenções em uma pessoa só, como aconteceu, não ajuda a ninguém, e não me ajuda".

Outras mulheres que trabalham no projeto também comemoraram, esta semana, por seus anos de trabalho árduo terem conquistado destaque público.

"Honestamente, foi um sonho realizado", disse Sandra Bustamante, instrumentadora de telescopia que trabalhou no projeto, em entrevista.

Feryal Ozel, professora de astronomia e astrofísica que faz parte do conselho científico do projeto, publicou seu primeiro estudo sobre como obter imagens de um buraco negro em 2000. Ela diz que a obtenção da imagem "foi um momento doce que demorou muito tempo para chegar".

Em entrevista na quinta-feira, Ozel disse que é empolgante ver as pessoas interessadas no papel das mulheres na ciência, mas destacou as contribuições de outras mulheres e homens. Entre esses colaboradores estava um de seus alunos de pós-graduação, um homem que fez múltiplas viagens ao Polo Sul, onde um dos radiotelescópios envolvidos está localizado.

"Creio que dar crédito a uma só pessoa —quer seja uma mulher ou um homem, um velho ou um jovem— prejudica a colaboração", ela disse.

Alguns ataques sexistas também surgiram, segundo Andrew Chael, um colega de equipe de Bouman. Em uma postagem, o pesquisador comentou sobre o papel de cientistas que escreveram códigos e os testaram. "Ao mesmo tempo em que eu aprecio os parabéns pelo resultado no qual trabalhei duro por anos, se você está me parabenizando por uma vendeta sexista contra Katie, por favor, vá embora e reconsidere suas prioridades na vida", disse Chael no Twitter.

Penn Sheppard, que trabalha na Girls Inc., uma organização que promove o empoderamento das mulheres jovens e oferece programas pós-escolares para ajudar as meninas a aprender ciência, tecnologia, engenharia e matemática, disse que a história de Bouman havia ecoado fortemente em um setor no qual as mulheres estão sub-representadas —e em um mundo no qual as contribuições delas para a ciência passaram sem reconhecimento, em termos históricos.

"Foi uma oportunidade de ver uma mulher vencedora em sua profissão desempenhando um papel significativo, e sendo reconhecida por esse papel", ela disse. "Isso é significativo porque as meninas e meninos mais novos começam a ver que mulheres são cientistas —não só que podem sê-lo, mas que já o são".

Issaoun também disse que desejava celebrar o sucesso de uma colaboração entre cientistas muito diversos, mas afirmou entender por que a foto de Bouman ganhou sucesso viral.

"Nós todos amamos a foto, porque ela parece tão feliz", disse Issaoun, que disse ter ficado arrepiada ao ver a imagem do buraco negro. "Creio que a expressão dela realmente captura como nos sentimos ao vermos a imagem pela primeira vez".

Tradução de Paulo Migliacci

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