Revelação de imagem ilumina a subcultura dos buracos negros

Semelhança da foto com a concepção do objeto do filme "Interestelar" impressiona

Igor Gielow
São Paulo

A espetacular divulgação da primeira imagem de um buraco negro pela equipe que opera o Telescópio Horizonte de Eventos nesta quarta (10) lança luz, com o perdão da contradição em termos, sobre um subgênero muito atrativo da ficção científica.

Imagem divulgada nesta quarta (10) mostra buraco negro ao centro da galáxia M87
Imagem divulgada nesta quarta (10) mostra buraco negro ao centro da galáxia M87 - AFP/European Southern Observatory
O buraco negro Gargântua, do filme "Interestelar"
O buraco negro Gargântua, do filme "Interestelar", lançando em 2014 por Christopher Nolan - Divulgação

Desde que a Teoria Geral da Relatividade de Einstein ganhou popularidade fora das intrincadas mesas de cálculo nas quais cientistas se digladiavam com suas proposições, a cultura popular tratou de absorver os conceitos mais facilmente compreensíveis.

A ficção científica, gênero que na sua forma atual nasceu há pouco mais de 200 anos com o "Frankenstein" de Mary Shelley (1818) e abriga na sua pior forma a adoção incorreta das possibilidades do engenho humano até verdadeiros tratados filosóficos sobre a nossa condição —o livro sobre o monstro do doutor Viktor à frente.

Com a aceitação da existência de buracos negros em 1964, tão polêmica que para alguns talvez apenas a imagem relevada pelos astrônomos nesta quarta no centro da galáxia M87 coloque um ponto final na questão, abriu-se uma avenida de possibilidades narrativas sobre o tema.

Lá estão questionamentos sobre tempo, espaço e a própria natureza das coisas: como lidar com tal inexorabilidade como a apresentada pelo aprisionamento da luz?

Alguns livros tratavam hipoteticamente do assunto antes, mas é possível estabelecer os anos 1960 como o berço de uma subcultura do buraco negro. A maioria das duas ou três dúzias de livros de ficção produzidos acabava emprestando terminologias e conceitos incorretos, como a ideia de usar o evento como ponte para outro local no tempo-espaço.

O conceito da distorção temporal causada pela gravidade é fascinante em si, e direciona mesmo sem ser citado nominalmente clássicos que nada têm a ver com buracos negros, como "O Planeta dos Macacos" (Pierre Boulle, 1963)

No campo em questão, gerou livros populares, como "Gateway" (1977), de Frederik Pohl, que empolgavam leitores com as possibilidades de entrar e e sair da armadilha gravitacional teoricamente invencível das estrelas colapsadas.

Na TV, incontáveis séries trabalharam o tema, notadamente em episódios das versões derivadas de "Jornada nas Estrelas".

Até a música viu o tema ser abordado, primeiramente pelo "power trio" canadense Rush na faixa "Cygnus X-1", de 1977. Com o nome do primeiro buraco negro reconhecido, a música trata da hipótese de redenção ou destruição ao encarar essa metáfora do inevitável. Outra banda associada à cultura nerd, a britânica Muse, tem um álbum nomeado pelo fenômeno ("Black Holes and Revelations", 2006), com uma canção chamada "Supermassive Black Hole" (o tipo de buraco negro revelado em M87) e um refrão falando em "buracos negros e expectativas" em sua melhor música, "Starlight".

Mas foi o cinema, casa por excelência da ficção científica, em que finalmente os abstratos conceitos foram formatados para o público mais amplo. O primeiro filme sobre o tema é de 1979 (no Brasil, estreou em 1980, as coisas eram bem diferentes naquela época), uma produção da Disney chamada sem muita originalidade de "O Buraco Negro".

O filme lidava com um tema caro a várias obras: a descoberta de um pioneiro por seus sucessores nas viagens espaciais, com um grande segredo a ser descoberto. Tudo isso à beira de um buraco negro que, quando enfim visitado, providencia uma visão delirante, quase religiosa —e totalmente implausível do ponto de vista científico.

O tema voltaria algumas vezes às telas, notadamente num desastre chamado "Horizonte de Eventos" (Paul W. Anderson, 1997) e numa furada científica, ainda que boa diversão, como no "reboot" de  "Jornada das Estrelas" (J.J. Abrams, 2009) —aqui, é trazido superficialmente o conceito de Stephen Hawking de buracros negros diminutos.

Tudo viria a mudar de patamar com "Interestelar", dirigido em 2014 pelo badalado Christopher Nolan (da trilogia "Cavaleiro das Trevas"). O filme empregou um dos grandes teóricos do campo, Kip Thorne, para criar uma história o mais plausível possível do ponto de vista científico sobre uma viagem no tempo-espaço para salvar a humanidade de uma praga agrícola auto-infligida.

Ainda que haja claras liberdades artísticas na obra, ela é geralmente aceita como uma das mais fiéis aos preceitos da relatividade. E o buraco negro Gargântua, em torno do qual o roteiro literalmente orbita, é exibido de uma forma impressionantemente semelhante à imagem divulgada nesta quarta.

Em "Interestelar", os viajantes mergulham no horizonte de eventos para achar a chave de uma equação que permitirá a humanidade a fugir da Terra moribunda. A partir do momento em que chegam lá, obviamente o que se tem é um delírio, mas pelo menos o "buraco de minhoca" utilizado para migrar de volta ao Sistema Solar não está "dentro" do inescapável Gargântua.

É confuso, claro, e não ganhou muitos aplausos do público ou da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas nos EUA. Mas traz, como toda grande obra de ficção científica, inquietudes sobre a razão da existência e uma tentativa de refletir qual o peso daquilo que é intrinsecamente humano sobre ela —no caso, o amor.

Agora resta saber se o monstrengo cósmico que habita o coração M87 vai inspirar uma nova rodada de obras sobre buracos negros e as expectativas que eles criam.

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