Em novo livro, Jared Diamond compara crises de indivíduos com as das nações

Professor americano e autor best-seller usa a prática terapêutica como guia

Reinaldo José Lopes
São Carlos (SP)

Ninguém pode acusar o biogeógrafo americano Jared Diamond de falta de ambição em suas tentativas de aplicar métodos das ciências naturais ao estudo da história humana. Em seu mais recente livro, Diamond busca comparar as crises que afetam indivíduos (a morte de um ente querido, o fracasso profissional etc.) com as que colocam países inteiros na berlinda, em busca dos pontos que explicam o sucesso ou o fracasso das nações. Seria ideia de jerico ou uma grande sacada?

Bem, há elementos de ambas as opções em “Upheaval: Turning Points for Nations in Crisis” (“Reviravolta: Momentos Cruciais de Nações em Crise”), obra publicada em maio de 2019 pelo professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles e ainda sem tradução no Brasil. Autor best-seller e ganhador de diversos prêmios por sua obra de não ficção, o pesquisador de 81 anos traz insights valiosos no volume, embora cometa o pecado de tentar encaixá-los num esquema mental rígido a todo custo.

O professor americano e autor best-seller Jared Diamond
O professor americano e autor best-seller Jared Diamond - leemage

O tal esquema é, com efeito, derivado da prática terapêutica, voltada para o tratamento de crises pessoais. Quando alguém passa por problemas sérios no casamento ou no trabalho, por exemplo, convém reconhecer com clareza que o dilema existe, em vez de negá-lo. Também é importante saber o que é preciso mudar e o que pode continuar inalterado na vida da pessoa, bem como saber para quem pedir ajuda ou em quem se espelhar para vencer a crise.

Ora, argumenta Diamond, algo parecido também vale para países que se encontram em situação delicada. Ficar negando que a crise existe é sempre uma má ideia. Por outro lado, vale a pena procurar modelos de políticas públicas bem-sucedidas em outros países, ou fortalecer a cooperação internacional para enfrentar problemas (os análogos que o escritor sugere para os pedidos de ajuda a familiares e amigos em meio a uma crise pessoal). E por aí vai – veja abaixo.

Os doze passos para vencer uma crise nacional

Lições históricas mostram como países podem vencer desafios

  1. Chegar a um consenso nacional de que a crise existe

  2. Aceitar a responsabilidade de enfrentar o problema

  3. Delinear claramente os problemas que têm de ser resolvidos

  4. Obter ajuda financeira e material de outros países

  5. Usar outras nações como modelos de como resolver os problemas

  6. Fortalecer a identidade nacional

  7. Autoavaliar honestamente a situação do país

  8. Contar com experiências históricas de enfrentar crises anteriores

  9. Saber lidar com o fracasso

  10. Ser flexível com mudanças significativas

  11. Adotar valores centrais para a nação

  12. Ter liberdade em relação a restrições geopolíticas

OK, talvez a analogia seja iluminadora, com um pouco de boa vontade e dependendo do contexto. É o que Diamond tenta demonstrar com seus estudos de caso históricos, que são a parte mais interessante e fundamentada (apesar de alguns cochilos) do livro.

As nações analisadas pelo autor são a Finlândia, invadida pela União Soviética em 1939 e em relação tensa com o gigante comunista até o fim da Guerra Fria; o Japão, forçado a se abrir para o Ocidente de 1853 em diante; o Chile, com as origens e os resultados do golpe militar de 1973; as origens da Indonésia independente nos anos 1940-1960; a reconstrução da Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial; e a transformação da identidade nacional australiana dos anos 1970 em diante. 

É curioso que Diamond tenha montado essa lista, em parte, por causa de seu contato pessoal com cada país ao longo dos anos e, de preferência, por sua familiaridade com a língua local. De fato, ele costuma citar com frequência o que dizem seus amigos finlandeses, japoneses, australianos etc., o que acaba dando ao texto certo sabor de anedota – interessante, mas talvez não muito confiável do ponto de vista estatístico.

Esse último ponto, porém, está mais para artifício narrativo do que qualquer outra coisa, já que o pesquisador parece ter feito a lição de casa ao estudar a historiografia de cada país. E aí é que ao menos alguns elementos do diagnóstico das crises pessoais começam a fazer sentido. 

No caso do Japão, por exemplo, o escritor está obviamente correto ao afirmar que o êxito econômico do país se deveu à capacidade de adotar de forma seletiva a tecnologia e a organização do capitalismo europeu sem jogar fora, ao mesmo tempo, aspectos tradicionais da cultura japonesa. No caso da Alemanha do pós-guerra, o reconhecimento da responsabilidade pelos horrores do nazismo permitiu que o país deixasse de ser um pária internacional e se tornasse, em poucas décadas, o líder da Europa democrática. 

Várias das análises sobre os riscos que espreitam países como os EUA e o mundo como um todo também são valiosas – é difícil ler sobre a perda da capacidade de alcançar o meio-termo político ou os perigos da desigualdade econômica e social entre os americanos e não pensar nos fenômenos paralelos no Brasil. 

Mas a atitude quase compulsiva de retomar os “12 pontos para vencer uma crise” em todo santo capítulo por vezes cansa, além de simplificar em excesso a discussão de fatores complicados e imprevisíveis. 
Além disso, Diamond tem dificuldade em analisar as causas profundas de alguns pontos cruciais de seu arcabouço teórico. OK, uma identidade nacional forte é importante para vencer uma crise, assim como a capacidade de avaliar honestamente as fraquezas e vantagens de um país. Como essas capacidades surgem, afinal de contas? Sem elas, um país está “fadado ao fracasso”? O que acontece quando elas estão em conflito – digamos, se a identidade nacional impede que um país enxergue seus verdadeiros problemas?

Esses pontos cegos impedem que “Upheaval” se torne uma leitura tão compensadora quanto livros de Diamond que se tornaram clássicos, como “Armas, Germes e Aço”. 

Upheaval: Turning Points for Nations in Crisis
Autor Jared Diamond
Editora Little, Brown and Company
Quanto R$ 44,94 (ebook), 512 págs. 
 

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