Estudantes brasileiros concluem missão espacial em parceria com a Nasa

Experimento testou viabilidade de construção de estruturas sólidas em outros planetas do Sistema Solar

Marina Dias
Chantilly (EUA)

A premissa era poderosa. Cinco estudantes brasileiros entre 14 e 15 anos apresentaram nesta segunda-feira (1º) nos Estados Unidos os resultados de uma missão espacial que mirava a possível ocupação de outros planetas do Sistema Solar.

Quando foram chamados ao palco montado no Museu Nacional do Ar e do Espaço, na cidade de Chantilly, em Virgínia, Laura, Guilherme, Otto, Natan e Sofia estavam prontos para mostrar em pouco menos de dez minutos o que tinham descoberto após quase dois anos de pesquisa.

Em inglês, explicaram a uma plateia de professores, especialistas e outros alunos a reação de um composto de cimento com pó de plástico verde exposto à microgravidade.

Caso reagisse bem, segundo a hipótese dos estudantes, a mistura poderia ser uma alternativa para a construção de colônias humanas fora da Terra.

O experimento foi enviado em julho do ano passado à Estação Espacial Internacional (ISS) e, após um mês no espaço, retornou para a análise dos primeiros brasileiros a concluírem uma missão desse tipo.

A cristalização da mistura entre água, cimento e pó de plástico verde—que protege a substância da radiação— foi menor no espaço, e ainda não há consenso na comunidade científica sobre as consequências do processo.

Mas nada pode ser descartado, explicam os estudantes em um jogral já não mais tão ensaiado após a apresentação oficial.

Otto Gerbaka, Guilherme Funck e Laura D'Amaro afirmam que serão necessárias novas pesquisas para garantir se será possível ou não usar o composto para a construção de estruturas e peças que ajudem, por exemplo, na logística de missões espaciais.

"Os pesquisadores se dividem. Tem uns que acham que é bom [cristalizar menos no espaço], porque a substância ficaria mais flexível, mas têm outros que acham ruim, porque ficaria mais dura", explica Otto. "Precisa fazer mais testes, já que é um tema muito complexo e a área é nova", completa Laura.

As conclusões imediatas, porém, são bem mais fáceis de serem aplicadas na vida dos alunos, que mudaram após participarem do Programa de Experimentos Espaciais para Estudantes.

O projeto, que acontece uma vez por ano em parceria entre o governo dos EUA e a Nasa (agência espacial americana), está em sua 13ª edição.

Alunos da rede pública no início do projeto, Natan Cardoso e Sofia Palma ganharam bolsa de estudo em escolas particulares.

Os outros três estudantes dizem que amadureceram e melhoraram a fluência em inglês e no trabalho em grupo.

"A gente ganhou oportunidade de ir para escolas melhores", diz Sofia, que era aluna do Projeto Âncora e agora estuda no Dante Alighieri, um dos mais tradicionais colégios de São Paulo.

Morador de Paraisópolis, Natan, por sua vez, migrou da Escola Municipal Perimetral para a unidade do bairro do Morumbi do colégio Anglo.

Em 2017, o engenheiro espacial Lucas Fonseca desenvolveu o projeto com o Dante e as outras duas escolas públicas, selecionando os melhores entre 320 estudantes brasileiros para apresentar o experimento à Nasa.

Antes deles, nenhum país fora da América do Norte havia participado programa.

No ano passado, Fonseca conseguiu 4.140 inscritos —outros cinco escolhidos— e, este ano, até 25 de julho ainda seleciona candidatos para viajarem aos EUA em 2020.

"Um dos motes do projeto é dar continuidade a uma geração interessada por ciência. A partir do momento em que os coloco para fazer uma atividade prática, que é mandar um experimento para o espaço, gero uma sensação de que é possível, de que eles podem ser cientistas", afirma Fonseca.

Laura e Otto querem começar outro projeto e seguir trabalhando com ideias na área espacial.

Os cinco alunos selecionados neste ano pelo projeto nunca tinham viajado de avião até desembarcar nesta semana nos EUA.

Do Instituto Federal de Santa Catarina, no campus da cidade de Xanxerê, de 50 mil habitantes, Isabela Battistella, Ricardo Cenci, Roberta Debortoli e Renata Muller vão testar a filtração da água sem a presença de gravidade. 

Eles dizem que o carvão ativado presente na vela dos filtros de barro —tão tradicionais no Brasil— deve provocar o fenômeno conhecido como capilaridade e ajudar no percurso da água.

Em 21 de julho, o experimento será enviado ao espaço e executado por astronautas da Nasa. Daqui a um ano, será possível saber se a hipótese deles estava correta.

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