Descrição de chapéu Homem na Lua, 50

No retorno da Apollo 11, risco biológico era o maior temor

Há 50 anos, missão que levou ser humano à Lua pela primeira vez retornava para casa

O então presidente americano Richard Nixon se encontra com Neil Armstrong, Michael Collins e Buzz Aldrin em unidade de quarentena

O então presidente americano Richard Nixon se encontra com Neil Armstrong, Michael Collins e Buzz Aldrin em unidade de quarentena Nasa

São Paulo

Nos quase três dias que se passaram entre a partida da Apollo 11 da Lua e sua chegada à Terra, que completa exatos 50 anos nesta quarta (24), a maior preocupação dos astronautas era com a poeira. Sim, a poeira lunar.

Ninguém jamais havia trazido nada da Lua antes, e o conhecimento que os cientistas tinham dela era bastante limitado. Dava toda pinta de ser um astro árido, sem atmosfera, sem água e sem vida. Mas se até hoje pesquisadores debatem se pode existir vida com padrões diferentes dos encontrados na Terra, imagine-se em 1969, com todas as limitações de então.

As missões Apollo obrigaram a Nasa a criar planos detalhados para lidar com amostras extraterrestres —e todos os riscos de contaminação biológica acidental.

Um laboratório de segurança máxima foi construído em Houston para a manipulação das rochas lunares a ser trazidas pelos astronautas.

Além de um controle estrito de pressão interna e externa, para impedir que patógenos aéreos saíssem das áreas de contenção, havia uma câmera para manter e manipular as rochas em ambiente de vácuo, de forma a preservá-las em seu estado original.

A situação no módulo de comando Columbia, contudo, era mais complicada. Uma vez que os trajes espaciais fossem retirados, seria impossível impedir o contato dos astronautas com a poeira lunar. Se houvesse ali micróbios causadores de doença, Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins inevitavelmente teriam contato com eles.

O módulo lunar Eagle, obviamente, era o que mais ficou impregnado com a poeira lunar. Para evitar que o Columbia fosse muito contaminado, era preciso regular a pressão dos dois de forma que uma corrente de ar se formasse do Columbia para o Eagle, impedindo o fluxo de partículas na direção contrária.

Uma vez descartado o Eagle, ainda em órbita da Lua, o Columbia faria sozinho a injeção transterrestre, colocando os três astronautas a caminho da Terra. Na viagem de volta, a eles cabia apenas aguardar, manter contato regular com o centro de controle e fazer pequenos ajustes de curso no caminho para se certificarem de que reentrariam na atmosfera no lugar correto, para um pouso aquático nas ondas do Pacífico.

A reentrada se deu às 13h35 (de Brasília) do dia 24, e o escudo térmico do módulo de comando do Columbia teve de enfrentar temperaturas de 2.500° C, enquanto a atmosfera dissipava a maior parte da energia de movimento da nave. A reentrada se deu a cerca de 39.600 km/h.

Veja demais infográficos da série: 16 de julho e 20 de julho.

Do início da reentrada ao “splashdown”, o pouso nas águas do Pacífico, passaram-se 15 minutos e 20 segundos. De início, por conta das ondas, a cápsula tombou, ficando de cabeça para baixo. Não deve ter sido a parte mais divertida da missão. Os airbags localizados no topo do módulo inflaram para colocar a cápsula na posição correta.

O porta-aviões USS Hornet era o responsável pelo resgate, e estava a 20 km do local de pouso no momento da chegada. A escotilha do Columbia foi aberta às 14h01, e os astronautas começaram a saída —mas apenas 25 minutos depois. De novo, por medo de contaminação, o processo era delicado. Homens-rãs jogariam para o interior da nave trajes plásticos de isolamento, que cada um teria de vestir antes de desembarcar.

Individualmente, Armstrong, Aldrin e Collins foram içados por um helicóptero e levados ao Hornet, onde embarcariam uma instalação móvel de quarentena —em essência, um módulo isolado, de onde só podiam acenar por uma pequena janela.

O módulo de comando Columbia seria recuperado uma vez que a tripulação já estivesse segura, e então levado também à instalação de quarentena, onde seria reaberto e haveria o desembarque dos contêineres de amostra. As ricas amostras chegariam ao laboratório em Houston, no dia seguinte.

A cápsula então seria cuidadosamente esterilizada e só no dia 26 deixaria a quarentena. Armstrong, Aldrin e Collins não teriam a mesma sorte; o protocolo de segurança biológica previa uma quarentena de 21 dias para os astronautas. A bordo da instalação móvel de quarentena, os astronautas seriam transportados para o laboratório de Houston, onde passariam os dias seguintes em isolamento, acompanhados apenas por um técnico que teve contato direto com eles durante o resgate e um médico. Isso, além de alguns camundongos que seriam expostos ao mesmo ar que eles respiravam.

No isolamento, havia uma sala de ginástica e uma mesa de pingue-pongue, mas os astronautas logo se sentiram oprimidos pelo espaço apertado e pela falta de contato pessoal com suas famílias, após a maior jornada já empreendida por seres humanos. Eles recebiam visitas do outro lado do vidro e podiam falar ao telefone, mas não era muito.

No dia 10 de agosto, como camundongos e astronautas pareciam plenamente saudáveis, a Nasa decidiu liberá-los. Muito diplomático, Armstrong não escondeu a frustração ao deixar a quarentena.

“Queria aproveitar essa oportunidade particularmente para agradecer todos que eu vi lá trás, que foram meus graciosos anfitriões no Laboratório de Recepção Lunar. E não posso dizer que eu escolheria passar umas duas semanas assim, mas estou muito feliz que tivemos a oportunidade de concluir a missão”, disse.

A Nasa ainda manteria os protocolos de quarentena, relaxando um pouquinho a cada nova missão, até a Apollo 14, depois da qual até mesmo o menos ortodoxo dos cientistas foi obrigado a concluir que a Lua era completamente desprovida de vida.

A conclusão da Apollo 11 iniciou uma nova etapa na exploração lunar. Suas sucessoras, Apollo 12, 13, 14, 15, 16 e 17, seguiram em seus passos, realizando outras cinco alunissagens (salvo pela 13, vitimada por uma séria falha a caminho da Lua) e concluindo a primeira era de exploração tripulada da Lua em dezembro de 1972. Desde então, ninguém mais voltou a caminhar pelo empoeirado solo lunar.

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