'Equiparar ciência a opinião atende a interesses e destrói conhecimento'

Stuart Vyse diz que superstições são maneiras de indivíduos acharem que têm maior controle sobre a vida

São Paulo

Quando era adolescente, Stuart Vyse colou na parede de seu quarto a imagem do satélite soviético Sputnik 1, o primeiro a orbitar a Terra. A corrida espacial assanhava o público, e a ciência estava em alta com os governantes.

Hoje, aos 68 anos, o pesquisador da origem das superstições vê a ciência ser atacada por presidentes como Jair Bolsonaro e Donald Trump, que rebaixam dados a opinião, aceitos ou não segundo crenças pessoais. No Brasil a convite do Instituto Questão de Ciência, que defende políticas públicas baseadas em evidências, ele falou do fenômeno.​

Stuart Vyse, colunista da revista Skeptical Inquirer e escritor
Stuart Vyse, 68, Doutor em psicologia (1987, Universidade de Rhode Island, EUA) e membro da Associação de Ciência Psicológica dos EUA, esteve vinculado entre 1987 e 2015 ao Connecticut College, instituição na qual foi professor e chefe do departamento de psicologia. Escreveu três livros, dois ligados à psicologia da superstição e um sobre educação financeira. É autor de dezenas de artigos científicos e para o público em geral sobre temas como astrologia, pseudociência e educação. - Zanone Fraissat/Folhapress

O Brasil, assim como os EUA, passa por um momento em que informações científicas estão sob ataque. Questões ligadas à ecologia, agricultura, ambiente e saúde têm ligação com interesses políticos e econômicos. Como resultado, essas forças passaram a descreditar os cientistas, que são idealmente apolíticos.

Fatos são fatos. Eles podem ter implicações boas e ruins, mas ainda são fatos. Infelizmente estamos numa situação em que, quando os fatos não são benéficos para um determinado grupo, uma das suas táticas passa a ser atacar a pessoa que fornece os dados, minando sua reputação.

De repente as ideias científicas se tornaram crenças. A juízo de que itens factuais podem ser reduzidos a meras opiniões pessoais sobre aquecimento global e outros assuntos mostra que a coisa caminhou mal.

O que explicaria essa desvalorização da ciência? A razão pela qual um cientista reporta um resultado é diferente da razão que alguém diz crer em alguma coisa. A base de conhecimento é diferente e está sendo perdida. As pessoas não reconhecem o que a ciência diz, não é o que elas têm vontade de ouvir. Às vezes é algo que elas torciam para não acontecer. Os resultados podem surpreender e apontar para outra direção. E é assim que a ciência funciona.

Qual é a relação deste cenário de descrédito da ciência com as fake news? Eu hesito em definir a expressão “fake news”, mas eu as classifico como um tipo de superstição. 

Historicamente, uma pessoa rotula algo como superstição quando não condiz com a religião dela.

Fake news são algo similar. Não significa nada a não ser “eu rejeito o que você diz”. É um ataque ad hominem, à fonte. Há notícias de má qualidade, se você que chamá-las de falsas, você pode. Mas isso acaba se expandindo para qualquer coisa na qual você não acredita, seja de uma fonte respeitável ou não. É uma maneira de dizer: “é superstição, eu não acredito nisso”.

Hoje, um dos grupos que mais espalha fake news são os idosos. Qual seria uma maneira de lidar com esse tipo de fenômeno, acelerado pelas redes sociais? Idosos têm certos medos e menos controle sobre a vida. Medo é uma grande motor para essas notícias não verificadas. Tudo que cria preocupação e deixa as pessoas nervosas acaba sendo compartilhado.

O ser humano é programado para ser supersticioso? Eu não diria programado, mas que evoluímos com uma tremenda habilidade para aprender ao longo de nossas vidas. A razão de sermos tão bem-sucedidos como espécie é porque temos esse poder intelectual. Isso significa que quase sempre vemos conexões que não são reais. São apenas coincidências. É provável que isso gere superstições. 

Outra explicação para a existência de superstições é a falta de controle. Nós temos esperanças que uma criança se cure de uma doença ou de conseguir um trabalho, que nossos casamentos deem certo. Nós queremos muito, mas não dá para ter certeza de que vai acontecer. 

Nós vamos tentar preencher essa lacuna, e aí entra a superstição. Ela faz você achar que está ajudando, mesmo que isso seja uma ilusão.

Nesse sentido, religião, crença e superstição são equivalentes? A palavra religião cobre muita coisa, assim como a palavras superstição. Há práticas religiosas que se baseiam em superstições, mas isso não significa que uma pessoa com a mente científica não possa crer em Deus.

Religiões podem ser supersticiosas ao fazerem alegações que são inconsistentes com o mundo natural. Se um religioso diz que ao tocar uma pessoa as doenças simplesmente desaparecem, eu gostaria de ver a prova, a evidência. Se não houver, é superstição. 

Num artigo, o sr. conta que orientou uma aluna num trabalho que testou e mostrou que a astrologia não faz boas previsões. Era uma ótima aluna e fez bem o trabalho. Ela aceitou os resultados, sabia que eles eram reais e mesmo assim publicou um livro sobre astrologia. Talvez seja difícil convencer as pessoas.

Nos EUA, há indício de que os jovens estão menos religiosas, num sentido tradicional, mas caminham para áreas como astrologia e afins para preencher esse vácuo. A astrologia cria um senso de ordem, de que as coisas acontecem por uma razão, o que é atraente para algumas pessoas, que preferem esse tipo de explicação a aceitar a aleatoriedade.

A astrologia é vasta e vaga o suficiente para que a pessoa encontre o que quiser nos resultados. É provavelmente menos danosa do que outras de superstições, mas é desinformação, pseudociência.

O fato de uma pessoa ser supersticiosa, ligada à astrologia, poderia fazê-la correr mais riscos? Eu me preocupo com crenças que são perigosas para a saúde, como as de medicina alternativa. Outro problema é acreditar em sorte, o que pode fazer a pessoa apostar em jogos de azar.  Há ainda quem gaste dinheiro com indivíduos que alegam ter poderes extrassensoriais.

Psicanálise também é anticientífica? Eu fui um professor universitário de psicologia e nós ensinamos Freud —por uns cinco minutos, como uma nota histórica.

Ele foi o primeiro a lidar com alguns transtornos, e, por isso, é lembrado. Mas a teoria que ele desenvolveu era praticamente uma religião, impossível de testar cientificamente. Ninguém consegue medir um id, um ego, ou um superego. São como se fossem deuses, que não podem ser tocados. 

Há pessoas que se sentem beneficiadas pela psicanálise, mas ela não tem espaço na ciência psicológica. 
Há ideias como repressão, para as quais há representações empíricas, mas que não justificam todo o sistema freudiano.

Um tempo atrás [2007] houve uma manchete do jornal The New York Times: “Freud é amplamente ensinado em universidades, mas não no departamento de psicologia”. Freud é amado nos departamentos de línguas e literatura.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.