Organismo unicelular com memória e 720 sexos é atração em zoológico de Paris

Conhecido como "blob", trata-se de ser primitivo, que apareceu há 500 milhões de anos, antes do reino animal

Juliette Collen
Paris | AFP

Ele não tem boca, estômago ou cérebro, mas se alimenta, se locomove e tem capacidade mnemônica (de memorizar). Trata-se do "blob", um curioso organismo unicelular que pela primeira vez será apresentado ao público no zoológico de Paris.

Os novos astros do zoológico localizado no Bosque de Vincennes, que fascinam por terem 720 aparelhos sexuais e serem quase imortais, foram instalados no "vivarium", onde o público poderá vê-los a partir de sábado (19).

"Nossa missão também é mostrar os mistérios da natureza", disse Bruno David, presidente do Museu Nacional de História Natural de Paris e do Parque Zoológico.

Instalado ao abrigo da luz, o Physarum polycephalum é uma massa esponjosa, amarela e viscosa, também conhecida como "blob", em alusão ao filme de 1958 com Steve McQueen, sobre uma criatura pegajosa extraterrestre que devora tudo em seu caminho.

The "blob", slime mould (Physarum polycephalum), a single-celled organism forming over a piece of tree chunk, is pictured at the Paris Zoological Park during a press preview in Paris, France, October 16, 2019. REUTERS/Benoit Tessier ORG XMIT: GGG-BTE03 - REUTERS

Não é animal, planta, nem mesmo fungo, mas um organismo primitivo, que apareceu há 500 milhões de anos, antes do reino animal. 

"Não sabemos muito bem onde colocá-lo no repertório do reino de seres vivos", explicou Bruno David.

Durante um tempo foi considerado um fungo, antes de unir-se nos anos 1990 aos mixomicetos, um grupo de protistas.

Como é unicelular, ao iniciar seu ciclo é microscópico e, portanto, difícil de detectar em seu ambiente, à sombra em florestas temperadas ou em locais subterrâneos.

Mas tem vários núcleos, que podem se multiplicar ou dividir à vontade.

"Blobs de todos os tamanhos podem ser criados, nenhum limite é conhecido", explicou à AFP a etóloga Audrey Dussutour, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França e especialista neste protista.

Esse organismo pode atingir até 10 metros em laboratório, onde pode ser subdividido por corte, uma vez que os fragmentos cicatrizam.

Nas câmaras de cultura do zoológico, os especialistas criam novos espécimes diariamente, a partir da mesma amostra, para poder apresentar o maior número possível ao público.

Marlène Itan, uma "blobicultora" recente, irriga e alimenta todos os dias os "bebês". "Sempre mudam. Você não sabe o que vai encontrar quando chegar!", diz.

Esse organismo realmente não para de surpreender. Pode morrer de várias maneiras, mas também entrar em estado dormente, secando a si mesmo. 

"Nesse estado, é quase imortal. Você pode até mesmo colocá-lo no micro-ondas por vários minutos!", de acordo com Dussutour.

Uma vez reumidificado, pode começar de novo, iniciando seu ciclo do zero, acrescenta a pesquisadora, que possui um laboratório de amostras com mais de 70 anos.

Outra curiosidade: graças à corrente que circula em sua rede venosa, o "blob" se move, entre um e quatro centímetros por hora. 

Como observá-lo através de um copo não é muito espetacular, o zoológico concebeu uma museologia interativa para vê-lo em ação através de vídeos de imagens aceleradas.

Seu sistema vascular complexo apaixona também os físicos. Alguns até tentam se inspirar para aplicá-lo nas redes elétricas.

Apesar da ausência de um sistema nervoso, ele é capaz de memorizar. 

No zoológico, uma experiência mostra como pouco a pouco ele aprende a ignorar o sal (que a priori causa repulsa a ele) colocado no caminho em direção a sua comida.

Com seus 720 sexos diferentes, possui uma reprodução sexual semelhante à do fungo.

"Como surgiu antes, foram os fungos e os animais que se inspiraram em seus hábitos", segundo Dussutour. 

O Physarum polycephalum, no entanto, é inofensivo, destacam.

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