Fazenda doada por Raduan Nassar para UFSCar acumula falhas, e pesquisa para

Exigências da doação do escritor não foram cumpridas; reitora diz que oferece melhorias ao campus

Açude da fazenda do campus da UFSCar doada por Raduan Nassar

Açude da fazenda do campus da UFSCar doada pelo escritor Raduan Nassar Ricardo Benichio/Folhapress

Buri (SP)

Açudes estão esvaziados, alunos não conseguem ter aulas práticas numa estufa que estragou, prédios que deveriam estar prontos ainda não estão.

Esses são alguns dos problemas do campus Lagoa do Sino, da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), em Buri, na região de Sorocaba , implantado numa fazenda de 643 hectares (quatro vezes a  área do parque Ibirapuera, em São Paulo) doada em 2011 pelo escritor Raduan Nassar, autor de “Lavoura Arcaica” e “Um Copo de Cólera”.

O escritor doou a fazenda de “porteira fechada”, com equipamentos de irrigação, tratores e colheitadeiras e produção de culturas como soja e milho. Mas muitas coisas não estão mais como o escritor deixou nem foram cumpridas exigências da doação, como a de que até 2017 deveria haver 25 mil m² de área construída no local. Nassar reduziu pela metade a cláusula de área erguida, que ainda não foi alcançada.

A reitora da UFSCar, Wanda Hoffmann, culpa javaporcos pela seca de um açude e afirma que a conclusão de uma obra fará com que os compromissos em relação aos prédios construídos sejam cumpridos.

No campus, a reportagem encontrou dois açudes esvaziados e ouviu queixas sobre falta de incentivo a pesquisas.

Uma estufa não é usada por alunos de engenharia agronômica e biologia devido a estragos em sua cobertura. Em outro local, um espaço para receber aves também não é usado desde sua construção, há um ano, por falta de autorização para a compra dos animais.

Uma pesquisa com vacas leiteiras que resultaria numa verba de R$ 100 mil à universidade não foi adiante por veto administrativo.

 

Docentes, estudantes e servidores relatam ainda a retenção de verbas da produção agrícola da fazenda —que deveriam ser destinadas ao campus—, a perda de habitat de jacarés com a seca de açudes, a transposição irregular de água e o corte de árvores em área de preservação.

Há apenas sete técnicos para dez laboratórios nos cinco cursos oferecidos no campus —administração, ciências biológicas e engenharias agronômica, ambiental e de alimentos. O quadro de funcionários atinge apenas a metade do ideal, segundo eles.

Servidores dizem que o campus é deixado de lado pela reitoria —há outros três, em São Carlos, Araras e Sorocaba— e que a universidade passa a impressão de agir para sucateá-lo. Além disso, também fazem críticas à extinção do conselho gestor da fazenda, criado pelo reitor anterior, Targino de Araújo Filho.

Nassar não quis comentar o caso. Seu assessor há 17 anos, Messias Barboza, que atuou na implantação do campus, afirmou que o cenário atual causa “espanto e apreensão”. “Inclusive por parte do Raduan, posso afirmar. Problemas ambientais foram causados no campus, sob responsabilidade da atual gestão, com esvaziamento de açudes que afeta a fauna ali existente, inclusive espécie em extinção, sem falar em desmatamento em área de nascente.”

Segundo ele, a fazenda ainda acumula outros problemas agrícolas, como prejuízos na safra e o abandono de uma experiência de redução de agrotóxicos e uso de sementes de soja não transgênica.

“O silêncio do Raduan quanto à literatura está diametralmente no oposto do que ele tem de disposição para lutar pela democracia e pela educação pública, gratuita e de qualidade. Nesta luta permanecemos unidos, daqui o silêncio não será nem hipótese”, disse.

OUTRO LADO

Ex-reitor da UFSCar e ex-presidente da Andifes (associação dos reitores), Araújo Filho disse que os problemas ambientais no campus não existiam em sua gestão.

“É preciso racionalidade para usar a água [dos açudes]. Não sei se o pessoal que entrou é inexperiente ou o que houve, é uma loucura o que está ocorrendo. Nunca tivemos problema com água. Não tínhamos problemas ambientais até 2016, quando entregamos [a gestão]”, diz ele, que integra um grupo de oposição à atual reitoria.

A ideia do campus surgiu em 2010 e foi oficializada no ano seguinte, quando o ex-ministro Fernando Haddad (Educação) perguntou à reitoria da possibilidade de a UFSCar receber a fazenda. “A oferta dele era algo que nunca se imaginava. Doar uma fazenda? Uma fazenda produtiva e, por incrível que pareça, ele [Nassar] ainda pagou o imposto pela doação”, conta o ex-reitor.

Segundo o professor, a partir de 2014 a universidade passou a enfrentar problemas de caixa e não foi possível fazer tudo o que estava planejado. “Mas deixamos o campus em condições de funcionamento, estava muito bem.”

A reitora da UFSCar, Wanda Hoffmann, afirmou que apenas 1 dos 7 açudes secou, devido à ação de javaporcos que destruíram a canaleta que serve para transferir a água de um reservatório para o outro, e que oferece apoio à pesquisa por meio de melhorias na infraestrutura do campus. Disse ainda, sobre a destituição do conselho gestor, que “essa figura foi uma anomalia inventada pela antiga gestão com o objetivo de conquistar capital político.”

Segundo ela, as canaletas que interligam os açudes já existiam quando a fazenda foi doada e várias foram construídas na mata, o que exige trabalho manual. “Como pode-se observar, aproveitam-se da ação dos javaporcos para imputar à minha gestão uma irresponsabilidade que não temos. Na verdade, estamos trabalhando no sentido de fazer um trabalho exemplar que demonstre ser possível ter uma fazenda produtiva de grãos e, ao mesmo tempo, preservar o meio ambiente”, disse a reitora, por meio de nota.

Ela disse ter assumido a gestão a três meses do prazo para cumprir a meta de construir os 25.000 m² exigidos pelo acordo com Nassar e que, nos cinco anos anteriores, foram erguidos pouco mais de 8.000 m². “É possível construir 17.000 m² em três meses? Por isso, foi repactuado para se chegar a 12.500 m² em três anos.” Ela diz que, com a finalização das obras de uma área, essa meta será cumprida.

Sobre a área de preservação com árvores cortadas, ela afirmou que sua orientação é fazer com que a fazenda sirva de exemplo para a sociedade “em termos da convivência pacífica do binômio produção e preservação”.

Questionada sobre a retenção de verbas obtidas com a fazenda, Hoffmann afirmou que há dois tipos de recursos, os do superávit da produção e os da chamada parcela de retribuição que todo projeto de extensão da universidade deve fornecer. Ela diz que, em 2018, uma parcela de R$ 200 mil foi liberada para o campus e que há verba reservada, mas que só poderá ser liberada após o término formal do projeto, que ainda não foi entregue pelo coordenador anterior.

Já em relação ao conselho gestor, a reitora afirmou que não há na universidade essa figura institucional e que não houve destituição, mas um processo natural de institucionalização. "Essa figura foi uma anomalia inventada pela antiga gestão com o objetivo de conquistar capital político."

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