Descrição de chapéu The New York Times

Imagens mostram a superfície do Sol em detalhes jamais vistos

Fotos foram feitas pelo telescópio solar Daniel K. Inouye (DKIST), localizado no Havaí

The New York Times

Na quarta-feira, astrônomos divulgaram fotos que definiram como as mais detalhadas já obtidas da superfície do Sol.

Visto pelo novíssimo Telescópio Solar Daniel K. Inouye, no Havaí, o Sol se parece com uma panela fervente de pipocas, contrariando a imagem que fazemos dele como uma esfera amarela e plácida.

Vistas de longe, as estrelas são arautos do romance e da ordem misteriosa e secreta do universo, reluzindo suavemente. Servem como tema para papos-cabeça à beira das fogueiras de acampamentos e para discussões ociosas sobre astrobiologia. 

De perto, a história é muito diferente.

Aqui, a quase 150 milhões de quilômetros da estrela mais próxima —aquela a que chamamos Sol—, as criaturas da Terra sobrevivem à beira de um espetáculo de violência quase incompreensível. A cada segundo, reações termonucleares no centro do Sol transformam cinco milhões de toneladas de hidrogênio em energia pura. 

Essa energia abre caminho para o exterior do Sol, atravessando gases fervilhantes marcados por tempestades magnéticas que estalam, rodopiam e chicoteiam o espaço com cascatas de partículas elétricas e radiação. Essas tempestades são definidas como “clima espacial”. 

Na Terra, são capazes de paralisar redes elétricas e cegar satélites. Um estudo recente por cientistas da Universidade de Warwick, Inglaterra, concluiu que as supertempestades mais poderosas do Sol ocorrem mais ou menos a cada 25 anos. No espaço exterior, a corrente solar pode colocar astronautas em risco.

Em companhia da ausência de gravidade e do tédio, os perigos meteorológicos espaciais são vistos como maiores obstáculos às viagens humanas a Marte e mais além.

Registrada em detalhes notáveis, a superfície do Sol se divide em “kernels”, estruturas semelhantes a células, cada qual com cerca de 700 mil quilômetros quadrados, que carregam calor do interior para o exterior do astro.

Gases quentes ascendem no centro brilhante das células, se resfriam e voltam a afundar, por meio das fendas negras que separam as células.

As imagens foram registradas como parte do teste inicial, conhecido como “primeira luz”, do telescópio Inouye, construído pela Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos no topo do Monte Haleakala, um antigo vulcão dotado de cratera que os habitantes originais do Havaí consideravam sagrado, na ilha de Maui. Haleakala quer dizer “casa do Sol” em havaiano. Que melhor lugar para construir o maior telescópio dedicado à observação solar no planeta?

O telescópio leva o nome do senador havaiano Daniel K. Inouye, que morreu em 2012 e é visto como um dos responsáveis por ajudar a fazer do Havaí uma potência no ramo da astronomia. O espelho primário do telescópio tem diâmetro de 401 centímetros. Mais de 11 quilômetros de encanamentos subterrâneos são necessários para eliminar o calor solar que o telescópio coleta e para manter o instrumento refrigerado. 

O tamanho grande do espelho, auxiliado por sistemas de óptica adaptativa que reduzem a distorção causada pela atmosfera, oferece resolução maior – mais detalhes sobre o movimento, os estouros e as cascatas de energia na superfície do Sol.

De alguma forma esse processo aquece os gases solares cuja temperatura é de cinco mil graus, quando chegam à superfície. Na corona que se projeta para fora, saltando da superfície em feixes visíveis durante eclipses solares, as temperaturas chegam a um milhão de graus. Como isso acontece?

Para esse trabalho de investigação sobre a corona, o telescópio Inouye terá ajuda da Sonda Solar Parker, da Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Nasa), e do Solar Orbiter, um projeto conjunto da Nasa e da Agência Espacial Europeia que deve ser lançado na semana que vem, no que representa um novo esforço internacional coordenado para investigar nosso velho e reluzente amigo.

  Tradução de Paulo Migliacci 

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