Pesquisa com DNA de mais de 400 vikings revela: eles não eram tão louros

Estudo genômico na Dinamarca mostra que guerreiros, vistos como ideal de pureza étnica, eram bastante miscigenados

São Carlos

O maior estudo já feito sobre o DNA dos vikings sugere que os guerreiros que aterrorizaram a Europa durante 300 anos não se encaixam exatamente nos estereótipos dos filmes e séries: eram, por exemplo, mais morenos e “mestiços” do que muita gente imagina.

Acontece que, ao contrário do que pregavam teóricos racistas dos séculos 19 e 20 que transformaram os vikings num ideal de pureza étnica, a Escandinávia medieval parece ter sido relativamente cosmopolita, recebendo influências de populações do Leste Europeu, dos atuais Reino Unido e Irlanda e até de regiões mais ao sul.

Da mesma forma, os ataques vikings acabaram produzindo novas populações miscigenadas em outros locais do continente e em ilhas mais distantes, como a Islândia e a Groenlândia.

A pesquisa que chegou a essas conclusões foi coordenada por Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague, um dos principais especialistas do mundo no estudo do DNA antigo (obtido a partir de esqueletos em sítios arqueológicos, por vezes com dezenas de milhares de anos).

Em artigo que acaba de ser publicado na revista científica Nature, Willlerslev e seus colegas analisaram o genoma (conjunto do material genético) de 442 indivíduos, que viveram num período de tempo que vai da Idade do Bronze (2400 a.C.) ao começo da Idade Moderna (1600 d.C.). Essa distribuição temporal ampla é importante para ter uma ideia das populações que precederam a chamada Era Viking e das que a sucederam.

É importante lembrar, aliás, que os escandinavos da Idade Média não usavam o termo “viking” como seu rótulo étnico. A origem da palavra é controversa, mas tudo indica que se tratava de um termo técnico usado para designar quem se ocupava de expedições militares por via marítima, sendo mais ou menos equivalente a “pirata” em português.

Escandinavos se envolveram em ataques desse tipo desde os períodos mais remotos, mas convencionou-se que a Era Viking propriamente dita vai de 750 d.C. a 1050 d.C.

Nesse período, barcos isolados e depois esquadras inteiras vindas das atuais Dinamarca, Suécia e Noruega atacaram e, em alguns casos, colonizaram uma área vasta, que vai da Inglaterra e da França, no oeste, à Rússia, no leste, com incursões na Espanha muçulmana e talvez até em Alexandria, no Egito. Os escandinavos foram ainda os primeiros europeus a alcançar a América, vivendo no atual Canadá por um curto período.

A pesquisa revelou, para começo de conversa, que não existiam grandes diferenças entre os escandinavos da Era Viking e a maioria dos outros habitantes da Europa. Ao mesmo tempo, havia distinções sutis dentro da própria Escandinávia –Dinamarca, Suécia e Noruega não eram geneticamente homogêneas.

De um lado, todos possuem DNA que mistura o de antigos caçadores-coletores pré-históricos, dos primeiros agricultores da Anatólia (atual Turquia) e de pastores das estepes (vindos da região atual Ucrânia). Além disso, em certas áreas da Suécia e da Noruega, há influências genéticas que podem ter vindo de regiões bem mais distantes ao leste, como a Sibéria.

Esse padrão se manteve ao longo da Era Viking: regiões da Dinamarca e da Noruega mantinham um intercâmbio voltado para o Ocidente, enquanto os vikings suecos, em geral, navegavam para o Oriente, atravessando inclusive os grandes rios do território russo. Ao longo da região, as comunidades marítimas são as mais diversas geneticamente, o que faz sentido considerando seu papel no comércio e na guerra em larga escala.

Foi possível fazer algumas análises das características físicas dos vikings. Um dado interessante é que as populações da Era Viking parecem ter tido genes ligados a cabelos escuros com mais frequência do que os escandinavos atuais. Ou seja, talvez eles fossem “menos louros” há cerca de mil anos.

As invasões vikings deixaram legados genéticos fora da Escandinávia, mas não foi nada exatamente avassalador. Na Inglaterra, calcula-se que essa contribuição fica em torno de 5%, mais ou menos o mesmo que se vê na atual Polônia.

Por outro lado, a interação dos vikings com os atuais territórios britânico e irlandês fez com que membros dessas populações fossem parar na própria Escandinávia, contribuindo com cerca de 10% do genoma dos descendentes dos vikings.

Uma hipótese é que esse “sangue novo” teria vindo de mulheres capturadas nos ataques vikings. O estudo, porém, não flagrou isso. “Não analisamos essa possibilidade porque usamos dados do genoma inteiro, e nesses casos as pistas sobre diferenças étnicas entre a linhagem materna e paterna somem muito rapidamente, em poucas gerações”, explicou Ashot Margaryan, coautor do estudo da Universidade de Copenhague.

Por outro lado, um esqueleto enterrado com armas e objet os tipicamente “vikings” nas ilhas Órcadas, na Escócia, tinha DNA não escandinavo, ligado a populações celtas. É sinal de que membros de outras regiões podiam ser totalmente incluídos na cultura dos guerreiros escandinavos.

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