Descrição de chapéu dinossauro

É preciso democratizar acesso a fósseis, diz descobridor do maior dino do Brasil

Geólogo mineiro Luiz Carlos Borges Ribeiro completou 30 anos à frente de projeto de escavação em Uberaba

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São Carlos

Uma curiosa cadeia de coincidências parece ter predestinado o geólogo Luiz Carlos Borges Ribeiro, 59, a se tornar um caçador de dinossauros.

Ele não apenas nasceu em Uberaba (MG), hoje uma das principais jazidas de fósseis desses monstros extintos no país, como também tem uma conexão familiar, por assim dizer, com os bichos: foi justamente na fazenda de seu bisavô que alguns dos primeiros dinos do Brasil foram encontrados, nos anos 1940.

Homem de meia idade trabalha em bancada com osso gigantesco. Ele usa camisa cáqui e olha a câmera.
Luiz Carlos Borges Ribeiro, no centro de pesquisas paleontológicas de Peirópolis, zona rural de Uberaba, MG - Pierre Duarte-1.dez.16Folhapress-

Se havia alguma predestinação na história, porém, ela veio tarde e por caminhos tortuosos. “Descobri tudo isso bem depois. Achava que ia ser geólogo de petróleo e mineração, nunca imaginei que fosse mexer com dinossauro”, conta ele.

De qualquer modo, os acasos acabaram se encaixando. Ribeiro completa em 2021 três décadas à frente do Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, hoje ligado à UFTM (Universidade Federal do Triângulo Mineiro).

Nesse período, ele e seus colegas tiraram do solo uberabense uma grande variedade de resquícios da Era dos Dinossauros, entre eles o maior animal terrestre que já viveu em território brasileiro – um herbívoro pescoçudo de até 27 m de comprimento.

O nome científico da criatura descomunal, aliás, homenageia tanto a cidade natal de Ribeiro quanto o próprio pesquisador – trata-se do Uberabatitan ribeiroi, membro do grupo dos titanossauros, que inclui os maiores dinos do planeta. A equipe do centro continua a escavar o Triângulo Mineiro –o cientista promete para breve a descrição de “fósseis fantásticos” de dinossauros carnívoros da região–, mas os planos de Ribeiro são mais amplos.

Seu principal objetivo é conseguir reconhecimento internacional para um projeto que reúne todos os principais atrativos científicos, ecológicos, turísticos e culturais de Uberaba num triângulo que tem como vértices, além dos dinos, as sagas do gado zebu e do espiritismo no Brasil.

Curiosamente, esses vértices também se encontram na história familiar do geólogo e paleontólogo. Em 1889, quando Dom Pedro 2º ainda governava o Brasil, o trisavô do pesquisador, Antônio Borges de Araújo, viajou para a região da capital imperial, o Rio de Janeiro, para tomar posse de um lote de cinco animais considerados exóticos na época: bovinos de origem indiana.

“Na época, o zebu era um boi de zoológico”, explica Ribeiro. Seu ancestral teria comprado os animais do médico pessoal do imperador. No entanto, quando o trem que trazia os zebus enfim chegou a Uberaba, era o dia 15 de novembro, e a República acabara de ser proclamada.

Nas gerações seguintes, a família de pecuaristas continuou investindo naqueles esquisitos bois da Índia, que se adaptaram admiravelmente bem ao clima e ao terreno do interior do país.

José Caetano Borges, bisavô do geólogo, junto com seu cunhado, realizou em 1906, na Fazenda Cassu, sua propriedade, a primeira exposição de zebus no mundo, com 1.246 animais. “Hoje, para você ter uma ideia, a ExpoZebu não reúne mais do que 1.800 animais”, conta Ribeiro, que ainda é membro da diretoria da ABCZ (Associação Brasileira de Criadores de Zebu), a maior instituição de pecuária do mundo.

O velho fazendeiro chegou até a fazer amizade com um sultão indiano para importar animais diretamente da Ásia. Fomentou a criação de sua própria raça zebuína, o Induberaba (mais conhecido como Indubrasil), resultado de cruzamentos entre bichos das raças gir, guzerá e nelore. E foi justamente a retificação de um trecho muito inclinado da ferrovia que passava pela Fazenda Cassu que acabou arrancando da terra os primeiros fósseis achados na região.

A notícia da descoberta chegou aos ouvidos de um filho de missionários americanos chamado Lllewellyn Ivor Price (1905-1980), ex-aluno da Universidade Harvard que se tornara uma espécie de caçador de dinossauros oficial do DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral) no fim da ditadura Vargas.

Price chegou à fazenda para investigar e se deparou com um ovo de dinossauro sendo usado como bola de bocha por operários da ferrovia.

De tanto levar pancadas no jogo, o ovo perdeu toda a casca, mas mesmo assim Price conseguiu estudar o fóssil e publicar, em 1951, uma comparação entre ele e ovos similares achados na Provença (sul da França). Esse achado é reconhecido como o primeiro ovo de dinossauro da América do Sul e pertencia a um titanossauro.

Mais tarde, Price foi para as cercanias de Peirópolis (bairro rural que fica 25 km a oeste de Uberaba), onde realizou escavações sistemáticas e fez uma série de novos achados. O pioneiro da paleontologia acabaria homenageado no nome do centro de pesquisas liderado por Ribeiro em Peirópolis –e provavelmente ficaria feliz ao saber que dois outros ovos de dinossauro da região, desta vez intactos, foram presenteados aos pesquisadores da instituição pelo DNPM (que os recebera de um doador anônimo) em 2015.

Embora tivesse ouvido falar de modo vago, na adolescência, sobre a descoberta de restos de dinossauros na região, Ribeiro nunca se encontrou com Price nem tinha se dado conta da relação familiar com os fósseis.

Sem interesse pelas carreiras universitárias tradicionais, como direito, medicina ou engenharia, acabou optando por geologia após se aconselhar com o “Tio Zé” –o jornalista José Hamilton Ribeiro, então já renomado por sua cobertura da Guerra do Vietnã, que sempre visitava Uberaba– e ler o verbete sobre a área numa enciclopédia.

Formando-se em 1985 pela UFMG, o geólogo passou alguns anos trabalhando com prospecção de petróleo no Nordeste e de ouro na serra da Mantiqueira. “Não deu muito certo, e pensei em voltar para Uberaba para ser pecuarista”, conta. “Mas, chegando aqui, estava fervilhando a ideia de criar um museu dos dinossauros, e fui convidado para ser o diretor por ser geólogo.”

Ele fala com modéstia de sua contribuição científica. “Acho que meu mérito maior foi ter coletado muito material e colocado isso de forma democrática à disposição dos paleontólogos que poderiam descrever os fósseis”, pondera. “Na paleontologia de vertebrados é comum haver muita ciumeira e restrição ao acesso aos fósseis. Aqui não tem disso.”

Seu principal objetivo, no entanto, é conseguir o reconhecimento, por parte da Unesco (órgão cultural das Nações Unidas), do Geopark Uberaba –Terra de Gigantes, iniciativa pela qual trabalha desde o seu doutorado na UFRJ (concluído em 2014).

Os geoparques reconhecidos pela Unesco devem unir diversos elementos, como preservação do patrimônio geológico, valorização da herança histórica e cultural de cada região e apoio ao desenvolvimento sustentável por meio do turismo. Além da riqueza dos dinossauros e dos zebus, outro trunfo para conseguir o reconhecimento é a associação da área com os pioneiros do espiritismo.

A crença foi trazida para a região ainda no século 19 pelo imigrante espanhol Frederico Peiró, difusor das obras do francês Allan Kardec (daí o nome de Peirópolis), e o célebre médium Chico Xavier se fixou em Uberaba a partir do fim dos anos 1950, lá ficando até sua morte em 2002.

Para garantir o reconhecimento do geoparque, Ribeiro e seus colegas da UFTM têm trabalhado com as autoridades para garantir que obras de infraestrutura na cidade não afetem o patrimônio paleontológico.

E duas praças de Uberaba já contam com recriações artísticas de seus astros extintos. “A cidade está se enchendo de dinossauros e as pessoas estão percebendo a importância de valorizar esse legado”, diz o pesquisador. ​

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