Documentos revelam que Gagárin quase morreu no primeiro voo espacial da história

Trama de viagem russa que aconteceu há 60 anos é permeada por lendas

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São Paulo

Sessenta anos depois, a trama geral é bem conhecida, embora permeada de lendas: em 12 de abril, Iuri Gagárin se tornou o primeiro ser humano a deixar a Terra, dando uma volta ao redor do mundo em sua cápsula Vostok-1, antes de retornar ao chão. O que poucos sabem é que, por muito pouco, a primeira missão espacial tripulada da história não terminou em catástrofe.

A história do programa espacial soviético lembra muito as famosas matrioskas russas: bonequinhas que, ao serem abertas, vão revelando figuras cada vez menores e mais profundas. Segredos dentro de segredos. Os últimos foram desenterrados em 2015, pelo historiador bengalês-americano Asif Siddiqi, revirando em Moscou documentos liberados pelo governo russo em 2011.

Entre eles, Siddiqi encontrou um relatório, marcado como "confidencial", destinado às mais altas autoridades soviéticas, sobre a missão. É meio como um sumário executivo dos resultados, preparado pelos engenheiros liderados pelo projetista-chefe Sergei Korolev, em 9 de maio de 1961 –menos de um mês após o voo histórico.

Cosmonauta russo Iuri Gagárin (1934-1968) prestes logo antes de se tornar o primeiro homem a viajar pelo espaço - AFP

O documento reafirma muito do que já havia ficado demonstrado por liberações anteriores, como o fato de que Gagárin foi de fato o primeiro cosmonauta (derrubando lendas urbanas de que teria havido outras tentativas anteriores, malogradas, de enviar um soviético ao espaço). Mas apresenta algumas revisões relevantes – a começar pelo tempo total de voo.

Os livros de história, bem como a Federação Aeronáutica Internacional, registram que o primeiro voo espacial tripulado durou 108 minutos, entre a decolagem a bordo de um foguete Vostok, em Baikonur, e a descida de Gagárin ao solo – feita por paraquedas após ele ejetar da cápsula, a 7 km de altitude (por sinal, essa foi a primeira camada da matriosca: do dia do voo até 1971, a União Soviética negou que o cosmonauta tivesse ejetado, porque o registro do recorde com a FAI exigia que o piloto retornasse ao solo dentro do veículo).

A documentação revela que Gagárin, segundo o próprio relato do cosmonauta (a única testemunha, além de um fazendeiro e sua filha), teria chegado ao chão dois minutos antes do que consta no recorde oficial, indicando um tempo total de voo foi de 106 minutos.

Para além disso, o documento sublinha o significado de promover um voo espacial pioneiro em meio a uma corrida desenfreada entre duas superpotências. "Descobrimos no documento que, durante a preparação de duas missões precursoras com cães em março de 1961, e então na fabricação do próprio veículo do Gagárin, pelo menos 70 anomalias foram detectadas nos instrumentos de bordo", diz Siddiqi. "E ainda assim o voo foi adiante!"

O perfil de voo era simples: uma cápsula no topo de um foguete derivado dos mísseis balísticos R-7 seria colocada em órbita, daria uma volta na Terra, e usaria seu retrofoguete para induzir a reentrada, retornando ao solo soviético.

Contudo, era a primeira vez que se fazia isso com um humano a bordo, e o documento revela que o sistema de suporte de vida "não atendeu totalmente aos requisitos [de design]", o que significa que operou no limite para manter o jovem cosmonauta de 27 anos em bom estado (em contrapartida, o material confirma que Gagárin não passou mal em nenhum momento do voo, outro dos rumores persistentes sobre a missão).

Também foi identificada uma falha em válvulas de um dos estágios do foguete, o que colocou a nave numa órbita mais alta do que a planejada. Em vez de um apogeu de 230 km, ela acabou com 327 km. Pode parecer um detalhe, mas era crítico. A órbita original foi escolhida para fazer a nave reentrar automaticamente, mesmo sem retrofoguetes, em coisa de uma semana –os suprimentos de bordo poderiam sustentar Gagárin por dez dias. Na órbita real, uma reentrada não assistida levaria um mês. Ou seja, se o retrofoguete da Vostok-1 não funcionasse, o cosmonauta morreria em órbita.

O retrofoguete funcionou, mas disparou por um segundo a menos do que o planejado, por falha de outra válvula. Isso fez Gagárin pousar 300 km aquém da área planejada. E algum drama adicional ocorreu porque o módulo de instrumentos, com o retrofoguete, falhou em ejetar da cápsula, ficando preso por cabos que só se soltaram no início da reentrada –por ocasião disso extremamente arriscada.

Gagárin ganhou um giro desagradável de 30 graus por segundo até que a aerodinâmica colocasse a cápsula na orientação correta. Durante a descida, ele passou por forças de 10 a 12 G, segundo seu próprio relatório (como se tivesse 10 a 12 vezes seu peso, por conta da desaceleração).

E então veio a ejeção da cápsula. O cabo que ligava Gagárin aos suprimentos de emergência, caso ele pousasse em local de difícil acesso, se rompeu. E, além do paraquedas principal, o paraquedas reserva se abriu parcialmente. Poderia ter tido efeitos severamente adversos na descida. Mas a sorte favorece os bravos.

De volta ao chão, Gagárin foi encontrado por um fazendeiro e sua filha, situação peculiar que o cosmonauta descreveu assim. "Quando eles me viram no meu traje espacial e com o paraquedas ao lado enquanto eu andava, eles começaram a se afastar de medo. Eu disse a eles, não tenham medo, sou um cidadão soviético como vocês, que desceu do espaço e precisa encontrar um telefone para ligar para Moscou!"

Por pouco, a história não acabou sendo menos divertida. O programa Vostok ainda levaria outros cinco cosmonautas ao espaço, dentre eles a primeira mulher, Valentina Tereshkova, demonstrando que, apesar das falhas no voo de Gagárin, o sistema estava pronto para manter os soviéticos à frente dos americanos na primeira fase da corrida espacial.

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