Descrição de chapéu Financial Times

Elon Musk está 'criando as regras' no espaço, avisa chefe da Agência Espacial Europeia

Para ele, os líderes do continente devem parar de facilitar a ambição do empresário

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Peggy Hollinger Clive Cookson
Luxemburgo | Financial Times

O chefe da Agência Espacial Europeia (ESA na sigla em inglês) pediu que os líderes do continente parem de facilitar a ambição de Elon Musk de dominar a nova economia espacial, advertindo que a falta de ação coordenada significa que o bilionário está "criando as regras" sozinho.

Josef Aschbacher, novo diretor-geral da ESA, disse que a disposição da Europa a ajudar na rápida expansão do Starlink, o serviço de internet via satélite de Musk, corre o risco de prejudicar as companhias regionais de realizar o potencial do espaço comercial.

"O espaço será muito mais restritivo [em termos de] frequências e 'janelas' orbitais", disse ele em entrevista ao Financial Times. "Os governos da Europa devem coletivamente ter um interesse em dar aos provedores europeus oportunidades iguais de atuar em um mercado justo."

Elon Musk participa de entrevista no Centro Espacial Kennedy, da Nasa, em Cabo Canaveral, na Flórida (EUA) - Steve Nesius - 19.jan.2020/Reuters

A Alemanha recentemente se inscreveu na União Internacional de Telecomunicações, que coordena o uso de frequências sem-fio para transmissão de dados, para conceder o espectro da Starlink a cerca de 40 mil satélites. Musk já conquistou a aprovação para mais de 30 mil satélites através dos reguladores dos EUA.

Este ano, Musk disse que a SpaceX, sua companhia privada de foguetes, está preparada para gastar até US$ 30 bilhões para expandir a Starlink.

Aschbacher disse que a Starlink de Musk já é tão grande que está difícil para os reguladores ou rivais acompanharem. "Temos uma pessoa que é dona de metade dos satélites ativos no mundo. Isso é surpreendente. Na verdade, ele está criando as regras. O resto do mundo, incluindo a Europa, simplesmente não está reagindo com rapidez suficiente."

A Starlink e a OneWeb, apoiada pelo governo britânico, estão liderando uma corrida para criar constelações de centenas e até milhares de satélites em órbita baixa da terra (LEO na sigla em inglês) para fornecer banda larga a regiões difíceis de alcançar por cabo.

O governo chinês e o Projeto Kuiper da Amazon pretendem lançar suas próprias constelações de LEO.

Uma nova geração de empresas espaciais, impelidas pela redução dos custos de lançamento e pelos satélites mais baratos, também pretende entregar serviços comerciais de LEO, como observação terrestre.

A corrida para aproveitar o potencial do espaço comercial alimentou preocupações sobre a falta de um sistema de administração do tráfego espacial global para a órbita baixa da terra, região de até 2.000 quilômetros acima da terra, para onde a maioria dos novos serviços comerciais está se dirigindo.

No ano passado, a Associação da Indústria de Satélites avaliou que poderia haver mais de 100 mil espaçonaves comerciais em órbita até 2029.

As preocupações de Aschbacher foram repetidas por Franz Fayot, ministro da Economia de Luxemburgo, que disse que novas regras são necessárias para garantir a utilização segura do espaço.

"Temos pessoas como Elon Musk simplesmente lançando constelações de satélites e pondo Teslas em órbita. Precisamos definir regras comuns. A colonização, ou simplesmente fazer coisas em um espaço totalmente desregulamentado, é uma preocupação", disse ele nos bastidores da conferência New Space em Luxemburgo.

A Starlink não respondeu a pedidos de comentários.

O setor de satélites da Europa é dominado por operadores tradicionais que contam com um número muito menor de satélites caros, em órbita alta, para fornecer serviços como transmissão de televisão.

Embora a ITU coordene as radiofrequências, não há uma autoridade internacional superior ou órgão regulador controlando o lançamento de satélites. Um temor é que, quando as órbitas ficarem lotadas, haja um risco crescente de colisões, o que poderia gerar quantidades catastróficas de detritos. O lixo espacial já é um risco significativo.

Steve Collar, executivo-chefe da operadora de satélites SES, disse que a indústria está "rumando para uma situação em que haverá satélites demais em uso. Muitos desses planos são uma reação direta ao fato de que ninguém está regulando adequadamente". Luxemburgo possui um terço dos direitos de voto da SES.

Musk em particular está sob ataque de astrônomos e rivais pelo ritmo de sua expansão. Este ano, a companhia de foguetes SpaceX lançou mais de cem satélites por mês, com cerca de 2.000 atualmente em órbita baixa da terra.

Os astrônomos temem que um número enorme de satélites interfira com telescópios em terra e possam "impactar a aparência do céu noturno para observadores de estrelas em todo o mundo", segundo um relatório da Sociedade Astronômica Americana.

Ralph Dinsley, fundador da NORSS, que rastreia objetos no espaço, disse que o fato de Musk fabricar seus próprios satélites e poder lançá-los com a SpaceX significa que ele poderá se mover mais depressa do que as rivais para ocupar os planos orbitais mais desejáveis. "Na velocidade com que ele está colocando estes [artefatos] em órbita, ele é quase dono desses planos orbitais, porque ninguém pode entrar neles. Ele está criando uma soberania Musk no espaço."

Aschbacher disse que está claro que os reguladores americanos, como parte de um governo nacional, estão "interessados em desenvolver não só a economia, mas também certo domínio de alguns setores econômicos. Isso está acontecendo muito, muito, muito claramente. E com muita força."

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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