Novas empresas de lançamento espacial dizem que SpaceX adota táticas para esmagá-las

Em evento recente, executivo da empresa de Musk contestou que a empresa estivesse tentando eliminar concorrentes

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Eric Lipton
The New York Times

Ao longo das últimas duas décadas, Elon Musk agressivamente abriu caminho para atuar na área de lançamento espacial. Para isso, combinou genialidade em engenharia e um impulso empreendedor com a demanda de que o governo americano parasse de favorecer as empresas que havia muito dominavam a indústria.

Hoje, é Musk quem domina. A SpaceX é a principal provedora de serviços de lançamento para a Nasa e para o Pentágono. Seus foguetes levam muito mais satélites comerciais para a órbita do que qualquer outro, incluindo os de sua rede de comunicações, Starlink.

O bilionário estabeleceu novos padrões para alcançar o espaço de forma barata e confiável. Mas também passou a se assemelhar àqueles que no passado lutou para derrubar: cada vez mais, ele usa seu poder e influência para tentar manter longe novos rivais, dizem seus concorrentes.

O portão iluminado da SpaceX com o céu nublado do entardecer.
Entrada da SpaceX em Brownsville, no Texas - Gabriela Cardenas/Reuters

Uma nova geração de empreendedores está preocupada com o que consideram táticas anticompetitivas.

Tim Ellis começou a Relativity Space depois de ser inspirado pela busca de Musk por um foguete que pudesse levar humanos a Marte. Ouviu, então, de outros executivos do setor que indivíduos com laços com a SpaceX estavam tentando bloquear os esforços dele para levantar dinheiro para o projeto.

Jim Cantrell trabalhou com Musk na fundação da SpaceX em 2002. Quando começou a construir a empresa de lançamentos dele, a Phantom Space, dois potenciais clientes disseram a sua equipe de vendas que não poderiam assinar contratos porque a SpaceX insere cláusulas em seus contratos para desencorajar clientes de usarem concorrentes.

O engenheiro aeroespacial Peter Beck encontrou-se em 2019 com Musk para falar sobre sua empresa de lançamentos, a Rocket Lab. Meses depois, a SpaceX começou a transportar pequenas cargas a um preço com desconto que Beck e outros executivos do setor disseram ser destinado a minar suas chances de sucesso.

"Não acho que isso seja um monopólio acidental", disse Beck em uma entrevista sobre a SpaceX e Musk.

Nenhum desses executivos disse ter tomado medidas legais contra a SpaceX. E ninguém na indústria contesta que Musk e a SpaceX merecem enorme crédito por tornar os voos espaciais mais acessíveis e quase rotineiros.

No entanto, suas táticas estão gerando uma reação negativa dentro da indústria. Além disso, estão aumentando as preocupações no governo americano sobre depender tão fortemente de uma tecnologia de alguém conhecido tanto por sua habilidade em engenharia quanto por declarações polêmicas, posições políticas em desacordo com a dos EUA e profundos laços comerciais com rivais como a China.

A SpaceX não respondeu aos pedidos de comentário. Entrevistado em uma conferência recente do setor, um dos seus executivos, Gary Henry, contestou qualquer sugestão de que a empresa estivesse tentando eliminar concorrentes.

Em uma apresentação para funcionários no Texas neste ano, Musk não abordou diretamente as alegações de comportamento anticompetitivo. Mencionou, porém, que a SpaceX transportara carga para a órbita, ou concordara em fazê-lo no futuro, para concorrentes.

"Na verdade, estamos contratados para lançar a constelação Kuiper, da Amazon", disse Musk, provocando risos dos funcionários. "E tratamos todos de forma justa."

Defensores da SpaceX apontam ainda que o negócio de lançamentos parece estar se tornando mais competitivo, não menos.

A Blue Origin, de Jeff Bezos, está perto do primeiro lançamento do foguete New Glenn. A Rocket Lab está construindo o seu, Neutron, e a Relativity Space está trabalhando no Terran R, entre outros novos concorrentes.

Por enquanto, no entanto, a capacidade dos EUA de alcançar a órbita, especialmente para seus satélites militares e espiões, permanece dependente de Musk e de seu foguete Falcon 9.

Ao longo da última década, a SpaceX recebeu US$ 14,7 bilhões (R$ 76,4 bilhões) em contratos principais federais envolvendo lançamentos, de acordo com uma análise realizada pelo The New York Times e pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

Apenas no ano passado, a empresa garantiu US$ 3,1 bilhões (R$ 16 bilhões) em contratos principais federais, conforme os dados, quase tanto quanto o montante combinado que o governo federal se comprometeu com transporte espacial e serviços relacionados de nove concorrentes, entre as quais Boeing, Northrop Grumman e Blue Origin.

Um homem branco está em pé com os braços cruzados em primeiro plano, olhando para o lado, com uma plataforma de lançamento de foguetes ao fundo
O empresário Elon Musk, fundador da SpaceX, no Centro Espacial Kennedy, da Nasa, em Cabo Canaveral - Todd Anderson/The New York Times

Como é uma empresa privada, a SpaceX não divulga números de receita, mas o Payload, um site de pesquisa da indústria, estimou que quase 60% da receita relacionada a lançamentos da empresa no ano passado partiu do governo federal.

Isso significa que, apesar do desdém inicial de Musk por subsídios governamentais concedidos a seus concorrentes, incluindo Lockheed e Boeing, a ascensão da própria SpaceX foi financiada em grande parte pela Nasa e pelo Pentágono.

Ao mesmo tempo, a SpaceX tem adotado cada vez mais táticas comerciais que Musk uma vez condenou, incluindo a expansão de sua presença de lobby em Washington e a contratação de executivos de alto escalão do Pentágono e da Nasa depois que desempenharam papéis-chave na concessão de contratos à SpaceX.

Beck fundou a Rocket Lab em 2006, quatro anos após a criação da SpaceX e antes desta ter enviado seu primeiro foguete à órbita. Desde então, o veículo de lançamento Electron fez mais de 40 viagens bem-sucedidas para a órbita, entregando quase 200 satélites ao espaço a um dos custos mais baixos da indústria.

Hoje, a Rocket Lab é a segunda empresa em lançamento comercial orbital, atrás apenas da SpaceX, e se prepara para construir o Neutron, foguete que competirá diretamente com o Falcon 9.

O CEO da empresa e outros executivos do setor afirmaram estar convencidos de que a SpaceX definiu o preço de seu serviço transporter, no qual empresas de pequenos satélites podem reservar espaços em um lançamento do Falcon 9, com o objetivo de minar concorrentes.

O preço do serviço, inicialmente US$ 5.000 (R$ 26 mil) por quilo, estaria abaixo do que alguns executivos do setor calculam ser o custo básico da SpaceX. Eles concluíram que a empresa só poderia oferecer um preço tão baixo subsidiando esses voos com parte de sua receita de contratos governamentais.

Mais recentemente, a SpaceX iniciou o que chamou de Bandwagon, que oferece lançamentos para órbitas que proporcionam melhor cobertura aos fabricantes de satélites sobre seções-chave do mundo.

A SpaceX está vendendo esses voos muito abaixo de seus próprios custos para minar a concorrência, afirmou Beck, citando suas próprias estimativas. A empresa dele cobra cerca de US$ 21,5 mil (R$ 111,7 mil) por quilo para seus lançamentos em órbitas específicas.

Gary Henry contestou a ideia de que a SpaceX possa estar usando sua dominância de mercado para prejudicar seus concorrentes. "Ganhamos dinheiro em todos os nossos lançamentos."

Voos que carregam múltiplas cargas privadas e governamentais em um único lançamento do Falcon 9, segundo ele, estão beneficiando a indústria espacial comercial tornando mais acessível para pequenas empresas colocarem satélites em órbita.

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