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Falha no campo magnético da Terra cresceu, mas não oferece perigos

Região vulnerável à radiação solar pode eventualmente interferir em satélites e espaçonaves em órbita sobre o Brasil

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Gilberto Stam
Revista Pesquisa Fapesp

Em dezembro, a Nasa, a agência espacial norte-americana, divulgou u m relatório informando que a Amas (Anomalia Magnética do Atlântico Sul), uma região do campo magnético da Terra com intensidade reduzida, havia crescido 7% nos últimos quatro anos.

A partir daí, circularam notícias nas mídias sociais de que esse fenômeno, por reduzir a proteção da Terra à radiação solar, ofereceria riscos à saúde ou poderia até mesmo intensificar as enchentes no Rio Grande do Sul. Não há motivo para apreensão, de acordo com os especialistas.

"Eventuais falhas no campo magnético pouco afetam as pessoas ou o clima na Terra", disse o geofísico Gelvam Hartmann, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). "A radiação solar pode até atravessar o campo magnético e atingir aparelhos eletrônicos em órbita terrestre, mas a quantidade de partículas carregadas que chega à superfície é muito pequena."

A imagem mostra três satélites em órbita ao redor da Terra. Os satélites possuem painéis solares vermelhos e estão posicionados em diferentes distâncias da câmera. Ao fundo, é possível ver a curvatura da Terra com nuvens e uma aurora verde brilhante no horizonte do planeta. O espaço ao redor é escuro, com estrelas visíveis.
Representação gráfica dos três satélites Swarm, da Agência Espacial Europeia (ESA), que monitoram o campo magnético da Terra desde 2013 - ESA

Outra ideia que caiu por terra: até 2023, pensava-se que o vento solar na região da Amas poderia atingir voos intercontinentais, em altitudes de cerca de 13 quilômetros (km). Pesquisadores alemães, no entanto, encontraram baixos níveis de radiação solar em um voo de Hamburgo, na Alemanha, para Mount Pleasant, nas Ilhas Malvinas, passando pela Amas, conforme relatado em artigo publicado em junho de 2023 na revista científica Scientific Reports.

Detectada no final dos anos 1950 pelos primeiros satélites de órbita terrestre baixa, a Amas é monitorada de perto por pesquisadores dos Estados Unidos, da União Europeia e da China, preocupados com seus eventuais efeitos em satélites, espaçonaves e estações espaciais.

O astronauta norte-americano aposentado Terry Virts relatou ter visto flashes de luz intensos sem som ao passar pela Amas em 2010, em seu primeiro voo pilotando o ônibus espacial Endeavour, da Nasa. Naquele momento os computadores sofreram danos consideráveis e os astronautas foram expostos à radiação elevada, como Virts revelou em fevereiro de 2018 à rede britânica BBC. Por causa de relatos como esse, a anomalia ganhou o apelido de "triângulo das Bermudas do espaço".

Origem cada vez mais antiga

De origem incerta, a Amas seria gerada na fronteira entre o núcleo externo líquido do planeta, composto principalmente de níquel e ferro, e o manto, a camada intermediária constituída, basicamente, por silicatos, o mineral mais abundante da Terra, formado por silício e oxigênio.

A condução de calor do núcleo para o manto é maior na região abaixo da África e menor abaixo da América do Sul. "Segundo a hipótese mais aceita, essa diferença no fluxo de calor na base do manto faz com que haja uma expulsão de fluxo magnético na região do Atlântico Sul, dando origem à anomalia", observa o geofísico Ricardo Trindade, da Universidade de São Paulo (USP).

Recentemente, a Amas formou um segundo núcleo sobre o oceano Atlântico, perto da África, com área menor do que o núcleo da América Latina, aparentemente sem nenhum impacto relevante para a Terra ou seus habitantes. A região maior está sobre a América Latina e, segundo os especialistas, deve desaparecer em tempo indeterminado; a menor deve gerar uma nova anomalia, em um ciclo que se repete ao longo dos séculos. Por enquanto, porém, pouca coisa mudou nessa trajetória.

Sinais de variação na direção do campo magnético foram encontrados em artefatos arqueológicos no sul da África datados do século 5º, indicando, inicialmente, que a Amas já existia naquela época. Em agosto de 2020, cientistas britânicos e norte-americanos publicaram um artigo na revista PNAS no qual descreviam indícios semelhantes em rochas com cerca de 11 milhões de anos na ilha de Santa Helena, território britânico localizado no oceano Atlântico, a 1.850 km da África.

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