Antonio Prata

Escritor e roteirista, autor de "Por quem as panelas batem"

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Antonio Prata

Racismo estrutural

Ao ouvir a frase em um hotel, 150 anos passaram diante dos meus olhos

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Só um negacionista climático, um terraplanista hidrófobo ou outra besta do tipo é capaz de afirmar que não existe racismo no Brasil. A construção "existe racismo no Brasil" é até meio descabida. Se a escravidão foi a base da nossa economia por três séculos, se é o fundamento do nosso edifício social e a principal razão das nossas desigualdades, seria mais correto inverter a ordem dos fatores (sem, infelizmente, alterar o produto) e afirmar que o Brasil é que existe no racismo.

Cheguei do almoço e tinha que pegar a chave na recepção do hotel, em Ribeirão Preto. Três homens faziam o check-in: jovens, pardos, correntes douradas, bonés, tênis chamativos. Os tipos que a PM pararia para revistar, logo pensei. Não sei bem por que, imaginei que fossem roadies de uma banda. Talvez seguranças de algum famoso, ainda sem os ternos que inexplicavelmente os seguranças usam. Os três riam e conversavam alto, despreocupados. O cara da recepção me entregou a chave. O elevador chegou, entrei.

A ilustração de Adams Carvalho, publicada na Folha de São Paulo no dia 02 de Junho de 2024, mostra o desenho de quatro pessoas usando roupas largas e coloridas, num estilo de moda de rua ou de hip-hop. Na imagem, onde seriam desenhados os braços e rostos, há um quadriculado branco e cinza, como se fosse anulado a cor dessas pessoas.
Adams Carvalho

Dentro estava uma funcionária do hotel, uns 65 anos, segurando uma pilha de toalhas brancas como ela – e eu. Entrei, a senhora olhou os caras por cima do meu ombro e resmungou "ai, meu Deus, tomara que não estejam indo pro meu andar...".

Ao ouvir a frase, 150 anos passaram diante dos meus olhos. Vi ali a imigração europeia chegando ao interior paulista na virada do século 19 pro 20 com o intuito de "embranquecer" o país. Vi o esforço dos descendentes daqueles europeus brancos e pobres em se distanciar dos pretos, durante todo o século 20, agarrando-se à branquitude, adotando os hábitos das elites, falando frases como a daquela senhora, no elevador.

Lembrei do bandeiroso bordão dos ricos patrícios no início dos anos Lula, com a ascensão da classe C: "esse aeroporto tá parecendo uma rodoviária". Era um eufemismo pra "tá cheio de preto no aeroporto". Ou: "tá cheio de pobre no avião". É uma elite para quem a desigualdade não é um problema, é um conforto, uma marca de distinção. Somos um país em que a palavra "exclusivo" deveria causar vergonha, mas é usada para valorizar produtos, lugares, eventos. Um país em que estar na ala VIP talvez importe menos por aproximar os supostos "very important" do que por afastá-los da escumalha.

Um detalhe que me incomodou ainda mais na situação foi a tranquilidade com que a senhora havia me dito "ai, meu Deus, tomara que não estejam indo pro meu andar...". Quer dizer, ela não só parecia assumir seu racismo sem qualquer receio, mas supunha que eu também compartilhasse dele. Pensei no quanto aquilo dizia sobre São Paulo e seu riquíssimo interior, sobre suas cidades do agro e do sertanejo que se enxergam mais próximas do Texas do que da Bahia.

Não quis deixar barato. Respondi, um tanto ríspido: "por que a senhora não quer que eles vão para o seu andar? Você conhece eles? Eles já vieram pro hotel? Causaram algum problema?". Queria que ela lesse, nas entrelinhas, que, se não os conhecia, se era a primeira vez deles ali, só podia estar sendo preconceituosa. A senhora me encarou meio sem entender, por trás da pilha de toalhas brancas: "Não, não faço ideia de quem são, é que todos os quartos já tão arrumados, só faltam três pra mim no oitavo andar".

Impressionante o Brasil. O racismo vem de onde a gente menos espera.

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