Djamila Ribeiro

Mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros Feminismos Plurais.

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Djamila Ribeiro
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Em breve, cinco anos de colunas

E rumo ao próximo ano, no que conto com a companhia de vocês

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No próximo dia 21, completo cinco anos de coluna semanal aqui na Folha. Aproveito para agradecer ao jornal pelo espaço, o que faço na pessoa de Sérgio Dávila, bem como pelo cuidado editorial de toda a equipe durante estes anos.

Escrevo com total liberdade de pensamento e sou, ainda, privilegiada por contar com a companhia brilhante de Aline Bispo como ilustradora dos textos.

Escrever semanalmente é um dos maiores desafios que tive nestes últimos anos. Mal entrego uma coluna tenho que pensar na próxima, por vezes em meio a um turbilhão de outros compromissos, como eventos ou mesmo um livro para escrever. Algumas colunas entrego quando soa a última badalada do sino, madrugada adentro. Outras vezes consigo preparar o texto com a precisão de quem talha a madeira sem nenhuma pressa. A verdade é que não há receita, vou vivendo e lidando com esse compromisso como posso.

É uma oportunidade única para refletir sobre temas do dia a dia, fazer devidas homenagens, resenhar obras. Há alguns anos mantenho este espaço como uma conversa nossa, pois parei de trazer a coluna para minha página pessoal das redes sociais –penso que o clima de hostilidade ao pensamento crítico pode ser tóxico quando se aproxima de lugares onde também compartilhamos momentos pessoais.

Mas, em geral, sou abordada de forma positiva por pessoas que me contam que acompanham esse espaço às sextas-feiras. Quando sou apresentada em público, dizer que sou "colunista do jornal Folha de S.Paulo" é algo reiteradamente reforçado por mestres de cerimônia. Tenho um pressentimento de que, para além de ser algo digno de nota escrever um texto semanal de 4.400 caracteres toda semana, esta própria Folha exerce um misto de fascínio e revolta em muitas pessoas.

Lembro-me da primeira vez em que fui entrevistada pelo jornal. Foi há quase dez anos, em setembro de 2014, quando escrevia para a iniciativa Blogueiras Negras, onde assinei a primeira coluna de minha carreira. Nas Blogueiras Negras fiz parte de um grupo de ativistas que organizou uma guerrilha contra a série "Sexo e as Nega", que estreava na Rede Globo. Para nós, tudo naquilo era um imenso absurdo, a começar pelo título, as chamadas para a estreia e os próprios episódios, que reforçavam o estereótipo de hipersexualização de nossos corpos.

Sobre a mesa de fundo rosa claro estão um livro de capa vermelha à esquerda, notebook à frente, de onde saem muitas plantas coloridas, folhas de sulfite espalhadas e uma mão com unhas vermelhas escrevendo em uma dessas folhas.
Ilustração de Aline Bispo para coluna de Djamila Ribeiro de 13 de junho de 2024 - Aline Bispo/Folhapress

O movimento iniciado pelas Blogueiras Negras começou a tomar força nas redes sociais, e passou a ficar difícil ignorá-lo. Até então, aquilo era uma novidade: mulheres negras organizadas, com voz e espaço midiático para denunciar um produto da mídia hegemônica. Eram as delícias das redes sociais, que, talvez por isso, passaram a deixar o alcance cada vez mais restrito a quem tem o poder de "impulsionar".

Éramos algumas escritoras e passamos a publicar textos críticos à série. A série, por meio de seu diretor e de personalidades da emissora, passou a responder às críticas, ao que o site das Blogueiras Negras publicou um manifesto chamado "Ah, branco, dá um tempo!". Ainda fizemos lives aos sábados, chamadas #AsNegaReal. Eram tempos áureos da articulação política de mulheres negras em um Facebook que ainda permitia, por meio de seus algoritmos, que algo dessa natureza tomasse corpo.

A mobilização estava fervendo e meu telefone tocou: era o jornalista Nelson de Sá, desta Folha, que escrevia na Ilustrada. Na ligação, fui instada a reagir às declarações do diretor da série, que argumentava que a ficção estaria ameaçada por esse movimento extremista.

Então respondi: "Quando grupos historicamente marginalizados reclamam, é óbvio que quem está numa posição de poder se incomoda". Foi minha primeira citação neste jornal e penso que ela seja uma síntese possível da obra "Lugar de Fala", que escreveria três anos depois.

Enfim, para a nossa alegria, a série acabou cancelada. Pudemos saborear a vitória e seguir trabalhando para ecoar a voz dissonante das mulheres negras e conquistar espaço de fala na mídia, luta esta que persiste até hoje, em todos os espaços.

Sigo nesta coluna rumo ao próximo ano, no que conto com a companhia de vocês.

Até a semana que vem!

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