Gregorio Duvivier

É ator e escritor. Também é um dos criadores do portal de humor Porta dos Fundos.

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Gregorio Duvivier

O centro foi parar na puta que o pariu

Entre a civilização e a barbárie, o meio-termista vai defender a meia-barbárie

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De todos os fanáticos, o mais perigoso é o moderado. Em qualquer discussão imbecil e impensável dez anos atrás, sempre terá alguém pregando o caminho do meio. Entre a civilização e a barbárie, o meio-termista vai defender a meia-barbárie.

“O erro da ditadura foi torturar e não matar”, dirá o presidente. “Você é um sujeito doente”, dirá alguém a quem sobrou um pouco de humanidade. Eis que chega essa figura opaca, fantasiada de sensatez, toda trabalhada na isenção: o meio-termista. “Nem oito nem oitenta. Essa coisa de ‘tortura nunca mais’ é muito dogmática, mas não me ponha na turma do ‘tortura sempre’. Prefiro ‘tortura, quem sabe’. ‘Tortura, às vezes.’ Eletrochoque, por exemplo, tudo bem: desde que seja numa voltagem baixa.”

 

O mesmo acontece nos debates científicos. “Cannabis é um remédio potente que pode salvar vidas”, dizem todas as evidências. “Maconha é uma epidemia que leva ao crack e esvazia as ruas de Copacabana”, diz o ministro da Cidadania.

Chega o jornalista e faz uma reportagem ponderada: “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. Mas entre Osmar e a Terra, a distância é longa. Nesse caso, a terra é a ciência e o mar é o terraplanismo. Nesse 
novo meio-termo, todo o mundo se afoga. “Nem plana nem redonda”, diz o jornalista. “Uma análise fria e desapaixonada da discussão indica que deve ser côncava.”

Ilustração de Catarina Bessel para coluna de Gregório Duvivier de 11.set.2019.
Catarina Bessell/Folhapress

“O Brasil precisa de candidatos de centro!”, repetem os articulistas da TV a cabo. Mas onde é que você vai colocar o centro? O meio-termista calcula o centro político fazendo uma média aritmética, somando e dividindo. Mas quando o presidente se coloca à direita da extrema-direita, ele joga o centro pra extrema-direita, e a antiga direita vira esquerda, e qualquer posição de centro passa a ser percebida como fanática.

Bolsonaro chutou o centro pra puta que o pariu.  

Saiu da Sé e passou pra Alphaville. No Rio, o epicentro agora fica no condomínio Vivendas da Barra. Todo o mundo que mora à direita, tá à esquerda.

A esquerda, perdidinha, fica correndo atrás do novo centro, sem entender que, nesse cabo de guerra, tá sendo puxada pra direita. Tudo o que um fascista precisa é de um conciliador. Ganha a discussão quem escolhe o campo de batalha. O único centro possível é a defesa da democracia e do socialismo. Daqui não saio, daqui ninguém me tira.

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