Hélio Schwartsman

Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…".

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Hélio Schwartsman

Depois da revolução

Livro provoca e diverte ao mostrar situações em que consensos da esquerda identitária se tornam meio delirantes

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"Morning After the Revolution", de Nellie Bowles, é um livro feito para provocar —e consegue fazer isso.

Antes de continuar, um pouco de contexto. Bowles é uma jornalista que até pouco tempo atrás abraçava de corpo e alma os consensos da esquerda identitária. Apoiava todas as causas gays, feministas e antirracistas e participou de um cancelamento. Bowles, perseguindo um sonho de infância, se tornou repórter do The New York Times. Mas aí veio o amor. Ela se apaixonou por Bari Weiss, que era a colunista de direita do NYT. Bowles, hoje casada com Weiss e já fora do jornal, se tornou crítica de muitas das ideias que antes defendia. Para os que simpatizam com a autora, ela despertou do sonho dogmático; para seus críticos, é uma traidora que produziu uma obra equivocada e desbalanceada.

A ilustração de Annette Schwartsman, publicada na Folha de São Paulo no dia 16 de junho de 2024, mostra, sobre um fundo vinho, uma figura feminina 'picassiana' pintada como um quadro cubista, representando a jornalista e escritora Nellie Bowles.
Annette Schwartsman

"Morning After..." são relatos, muitas vezes em primeira pessoa, de momentos em que a ortodoxia identitária se torna algo delirante, como as campanhas para acabar com a polícia que vieram na esteira do Black Lives Matter. Em algumas cidades, com o apoio de prefeitos de esquerda, foram criadas áreas onde a polícia não entrava. Desnecessário dizer que esses bolsões não se tornaram utopias anarquistas. Há passagens muito engraçadas como uma em que Bowles descreve um seminário para ensinar brancos a odiar a própria branquitude.

É claro que, ao procurar pelos exageros do movimento, a autora acaba destacando situações extremas, dando razão a quem aponta a obra como desbalanceada. É uma consequência do formato escolhido. Acho também que Bowles, sem ter se convertido numa reacionária (ela ainda se vê como uma feminista pró-gay e antirracista), comete erros de avaliação, como quando atribui os problemas de San Francisco com os dependentes de opioides a excessos de liberalismo em sua política de drogas.

Mas, pelo menos para quem mantém um certo espírito iconoclasta, o livro é garantia de boas risadas.

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