João Pereira Coutinho

Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.

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João Pereira Coutinho

Lições de história

O que seria dos tiranos sem a omissão das futuras vítimas?

1.  Adeus, Colombo. Essa despedida não é uma citação erudita do livro homônimo de Philip Roth. É um adeus sincero à estátua em bronze do navegador, que era possível admirar no Grand Park, em Los Angeles.

Não mais. Organizações indígenas opuseram-se ao ultraje e a cidade agiu em conformidade, removendo a maléfica estátua. Colombo não tem uma biografia imaculada; e os descendentes dos descendentes dos indígenas americanos não esquecem a violência que os descobridores europeus cometeram sobre os antepassados. O caso não é novo. Regularmente, lá encontramos mais uma notícia sobre uma estátua que os contemporâneos não suportam. Se a biografia não permite canonizar o personagem, fogueira com ela.

Tudo isso me provoca um pasmo imenso. Por dois motivos. O primeiro é a ingenuidade dos meus contemporâneos. Eles partem sempre do pressuposto de que a história se divide em opressores e oprimidos, uma caricatura da caricatura marxista original.

A história, e as evidências que ficaram dela, mostra o contrário: não há inocentes. Todo o processo histórico é uma lista de barbáries entre povos —e, óbvio, no seio de uma mesma sociedade. Será que “por detrás de uma grande riqueza há um crime”, como escrevia Balzac?

Verdade. Só que essa máxima não se aplica apenas a uma civilização em particular. Aplica-se a todas elas em algum momento da sua evolução —e “evolução” é a palavra, até no sentido darwinista do termo.

A ideia de que os descobridores europeus desembarcaram em solo sagrado, onde não havia maldade ou cobiça, não é só de um paternalismo fantasioso. É um grosseiro erro histórico.

Mas existe outro: a redução de um fenômeno tão complexo como os “descobrimentos” dos séculos 15 e 16 à sua dimensão mais cruel. Que os “descobrimentos” tenham permitido também uma revolução tecnológica e científica que praticamente forjou o mundo moderno, eis uma heresia que poucos se atrevem a sussurrar.

Não admira que, perante esse clima de censura e autocensura, o mundo acadêmico se prepare para receber, no próximo ano, o periódico The Journal of Controversial Ideas.

O projeto tem no seu conselho editorial nomes como Peter Singer e Jeff McMahan. O objetivo é meritório: publicar, anonimamente, autores que temem pelas suas carreiras se os seus estudos não se ajustarem ao cânone politicamente correto. É o paradoxo do nosso tempo: tão progressistas na aparência e tão medievais nos procedimentos. Para quando uma nova inquisição? 

Ilustração de Angelo Abu para João Pereira Coutinho de 20.nov.2018.
Angelo Abu

2. Em 2017, o Prêmio Goncourt foi para “L’Ordre du Jour”, de Éric Vuillard. Estranho: o livro não é um romance. Mas também não é, em rigor, um ensaio de história. O que é, então?

Opinião pessoal: uma das narrativas mais primorosas que li nos últimos tempos. É uma meditação —historicamente rigorosa, literariamente imaginativa— de como Hitler subiu ao poder.

Não, Vuillard não está interessado nas grandes explicações clássicas —a suposta humilhação do Tratado de Versalhes depois da Primeira Guerra, a hiperinflação da República de Weimar, o apelo ideológico do antissemitismo nazista.

Vuillard ocupa-se dos pequenos episódios de capitulação moral que estenderam a passadeira vermelha a Adolf Hitler.

Vemos isso —e “ver” é a palavra certa, porque Vuillard, também cineasta, escreve como se usasse uma câmera oculta— na forma como os grandes banqueiros e empresários da Alemanha não hesitaram em conceder o seu apoio financeiro ao partido nazista nas eleições de 1933, esperando ganhar algo em troca.

Vemos isso na rendição da Áustria às ameaças do Führer —a patética covardia de Kurt von Schuschnigg, o chanceler austríaco, no seu derradeiro encontro com Hitler, é dolorosa de ler. Dolorosa e hilariante. Sem esquecer, claro, os “apaziguadores” ingleses, como Halifax e Chamberlain, incapazes de reconhecer na besta a sua boçalidade criminosa.

E, no entanto, os sinais estavam todos lá —e houve quem percebesse. Falo das pessoas comuns, como os 1.700 austríacos que se suicidaram às vésperas da anexação de seu país, em 1938.

Lendo Éric Vuillard não nos limitamos apenas a revisitar a história. Entramos nela como se o passado fosse habitado por gente sonâmbula, que caminha para o destino fatal por incapacidade de “imaginar o desastre” —ou, em alternativa, de fazer algo para impedir esse desastre, um gesto ou uma palavra sequer.

O que seria dos tiranos sem a omissão das futuras vítimas?

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