Luiza Duarte

Correspondente na Ásia, doutora em ciência política pela Universidade Sorbonne-Nouvelle e mestre em estudos de mídia pela Universidade Panthéon-Assas.

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Morta ou enterrada?

Discursos ambíguos são a regra e não a exceção na comunicação de líderes chineses

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​Diante das câmeras, Carrie Lam, a chefe do executivo de Hong Kong, afirmou nesta terça-feira (9), em inglês, que a lei de extradição está “morta”. Em cantonês, a outra língua oficial do território, ela preferiu usar o termo "壽終正寢" ("Shòuzhōngzhèngqǐn") ou "fim da vida", uma expressão utilizada para falar de morte por velhice.

O jogo de palavras não vai colocar fim à crise.

A demanda das ruas é que ela se comprometa de forma direta com a retirada oficial e permanente do projeto de lei que permitiria a extradição de suspeitos para serem julgados por Pequim.

Hong Kong enfrenta semanas de protestos que já reuniram até dois milhões de pessoas em um só dia e culminaram na invasão do Parlamento e no suicídio de quatro manifestantes. Mesmo assim, o último pronunciamento de Lam não traz nenhuma alteração do estado em que a lei já se encontrava —o engavetamento.

A declaração dada abre margem para interpretações e nada garante que o projeto de lei não voltará a ser apresentado pelo seu governo. É isso que inflama a situação.

A polícia vai ser investigada pela atuação nos protestos —outra demanda dos manifestantes—, mas não por uma comissão independente. A falta de representatividade é explícita e a saída de Lam do governo segue sendo uma demanda da juventude que está nas ruas.

Lam já se desculpou, uma ação praticada com frequência no cenário politico asiático, mas que dessa vez não foi suficiente. Uma geração de honcongueses parece se irritar com algo muito tradicional na comunicação dos líderes chineses: o compromisso em “colocar panos quentes”.

A comunicação política é sinuosa, regada a metáforas e jogos de palavras, que abrem margem para interpretações diversas. Brechas para voltar atrás, desdizer sem "perder a face", ser constrangido ou humilhado.

“Perder a face” é a maior de todas as vergonhas na China. O grande medo dos chineses na vida e nos negócios é ser criticado em público.

O conselho que aparece sempre em qualquer guia turístico ou manual para expatriados no país asiático traz esse conceito tão abstrato para ocidentais e que se torna ainda mais incompreensível quando é traduzido para os códigos da política. Perder o controle, ter um ataque de fúria é também um sinal de quebra de “harmonia social”, algo absolutamente repreensível para os padrões locais.

Nesse estilo de liderança, trazer aspectos negativos à tona é visto como inconveniente; debater abertamente problemas também. Membros do governo evitam tornar detalhes públicos e fazer declarações polêmicas, mesmo tomando decisões controversas de forma velada. Questionar não é bem-vindo ou estimulado, nem na rua, nem em casa.

Em mandarim, "问题" ("wèntí") pode significar "problema" e "pergunta ou questão". Uma ilustração interessante do pensamento dominante chinês, que vê no espírito crítico uma erva daninha, um distúrbio na tão prezada ordem geral, e não a via para novas soluções. 

Há um claro descompasso entre a comunicação do governo e da população. As trocas digitais que organizaram os protestos através de aplicativos deram espaço a uma surpreendente e direta forma de comunicação pública.

Por toda a cidade se espalharam paredes com mensagens de protesto e de apoio aos manifestantes. Chamadas de “Lennon Wall”, são simplesmente espaços que de forma espontânea exibem uma coleção de post-its coloridos colados por passantes.

A primeira delas apareceu em 2014 perto da sede do governo, durante o Movimento dos Guarda-chuvas. Agora são muitas mais em diversos bairros. A materialização do desejo de ser ouvido. ​

Uma "Lennon Wall" em Hong Kong - Philip Fong/AFP

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