Marina Izidro

É jornalista e vive em Londres. Cobriu seis Olimpíadas, Copa e Champions. Mestre e professora de jornalismo esportivo na St Mary’s University

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O que esperar de um treinador na Inglaterra fora de campo

Técnicos não precisam ser especialistas em direitos humanos ou política, mas evitar assunto pode pegar mal

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​Havia um tempo em que se esperava que técnicos soubessem e falassem só sobre futebol. Pelo menos aqui na Inglaterra, não parece mais ser o caso.

O mundo em que vivemos hoje é diferente do que há alguns anos. A percepção de que esporte e política não se misturam acabou, até porque os grandes acontecimentos recentes impactaram a esfera esportiva. Com o Brexit, a saída da União Europeia, o Reino Unido perdeu o direito à livre circulação de pessoas no bloco, o que incluiu atletas e treinadores europeus que até então podiam morar e trabalhar aqui sem precisar de visto.

Na pandemia, o lockdown tirou torcedores dos estádios. Agora, existe uma guerra perto de nós, milhares de famílias britânicas vão hospedar refugiados ucranianos em suas casas. As sanções ao dono do Chelsea, Roman Abramovich, fizeram o futebol olhar para dentro e questionar de onde vem a fortuna que ajudou a transformar a Premier League no campeonato mais poderoso do planeta. O esporte não consegue mais ficar alheio a questões como essas.

Jürgen Klopp parece sempre dizer a coisa certa - Ian Kington - 16.mar.22/AFP

Como na Inglaterra dirigentes não costumam falar com a imprensa, treinadores acabam sendo porta-vozes e rostos do clube. E isso nos leva a outro ponto que pode ter acelerado a mudança do que se espera deles, fora de campo: a chegada de nomes como Jürgen Klopp ao Liverpool, Pep Guardiola ao Manchester City e Thomas Tuchel ao Chelsea.

Klopp sempre parece dizer a coisa certa na hora certa e não tem medo de se posicionar. Indagado sobre Abramovich, defendeu o governo britânico e respondeu com outra pergunta, a que muitos se fazem agora: quando o russo comprou o clube de Londres, e na hora da aquisição do Newcastle, "alguém realmente se importou?". Guardiola fala sobre política ao defender a independência da Catalunha. E, fora um episódio pontual em que se irritou com perguntas sobre a guerra, Tuchel tem sido elogiado pela maneira honesta como trata a situação atual de seu clube.

Não existe a expectativa de que técnicos sejam especialistas em geopolítica ou direitos humanos, mas que pelo menos estejam minimamente preparados e não se neguem a falar, principalmente se há ligação com o clube onde trabalham.

Depois da partida contra o Chelsea, no domingo (13), Eddie Howe, que comanda o Newcastle –comprado por um fundo de investimentos da Arábia Saudita–, foi questionado várias vezes sobre a execução de 81 pessoas naquele país no dia anterior. Recusou-se a responder. Compreensível, já que falaria mal do próprio empregador. Mas não pegou bem.

Também após o jogo, o correspondente da ESPN brasileira, João Castelo-Branco, perguntou de forma muito educada ao brasileiro Bruno Guimarães se ele pensou na origem do dinheiro do clube antes de assinar contrato. "Não passou pela minha cabeça", disse o jogador do Newcastle. Em um momento em que o sportswashing é debatido intensamente no futebol inglês, a pergunta foi pertinente.

Dias depois de ter dito que só falaria de futebol, Howe mudou de postura. Afirmou que estava se informando sobre a situação na Arábia Saudita e que um treinador moderno precisa saber o que acontece ao redor do mundo.

Questionamentos nem sempre serão confortáveis, mas parece cada vez mais esperado que esses profissionais saibam se expressar sobre temas que afetam, por exemplo, a sociedade em que vivem. Isso pode até impactar positivamente a carreira, se os resultados são bons dentro de campo, claro. Tuchel, com a popularidade em alta, é um exemplo.

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