Ricardo Araújo Pereira

Humorista, membro do coletivo português Gato Fedorento. É autor de “Boca do Inferno”.

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Ricardo Araújo Pereira

Piada de luso-brasileiro

Dentro de cada brasileiro há um português, e vice-versa

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Ilustração em linhas pretas de duas pessoas de perfil, uma de frente. A pessoa do lado esquerdo está vestindo regata, calça comprida e tênis. A pessoa do lado direito está vestindo cachecol, blusa de frio, calça comprida e tênis
Publicada neste domingo, 1º de dezembro de 2019 - Luiza Pannunzio/Folhapress
 

Há uma história de Ray Bradbury em que um homem tem pavor de esqueletos. Acontece que, um dia, contemplando as próprias mãos, ele começa a constatar o óbvio: dentro dele existe um esqueleto. Ele contém o que mais abomina e teme.

Começo a perguntar-me se as piadas de português, no Brasil, não dariam uma boa história de Ray Bradbury.

Sabe aquela do português que chegou ao país do futebol e em menos de seis meses ganhou o campeonato brasileiro e a Copa Libertadores? Sabe aquela do português cuja equipe igualou um feito anteriormente alcançado apenas pelo Santos do Pelé?

Sabe aquela do português que foi designado cidadão honorário do Rio de Janeiro e, na cerimônia da homenagem, revelou que a sua avó era brasileira? Esta é a minha tese: dentro de cada brasileiro há um português, e vice-versa.

Ou seja, portugueses e brasileiros são mais ou menos iguais (desculpem se ofendo). Significa isto que as piadas de português que os brasileiros contam não são um sinal de suave xenofobia, são autodepreciação.

O sucesso de Jorge Jesus no Brasil também se deve a uma instituição luso-brasileira que o mundo moderno parece empenhado em fazer desaparecer: a malandragem. Hoje, as coisas querem-se assépticas, otimizadas, retas, eficazes, alemãs.

Especialistas em empreendedorismo não aprovariam que Garrincha driblasse duas vezes o mesmo joão. É um desperdício de recursos. E também não é politicamente correto. O pobre joão, sem direito sequer a letra maiúscula no nome, humilhado duas vezes quando uma já seria demais. E, no entanto, o futebol brasileiro era isso, e o de Jorge Jesus ainda é.

Uma vez, quando Jesus orientava o Benfica, perguntei-lhe como é que ele preparava os jogos, consoante o adversário. Ele respondeu, com um entusiasmo infantil bastante engraçado numa pessoa de 60 anos, como se contasse um segredo perverso: "É preciso arrumar a melhor forma de os enganar".

Uma pequena cápsula de malandragem: a ideia de que o adversário é um "eles" indefinido que a gente precisa enganar à força de esperteza. Nisso, Jorge Jesus é uma espécie de concentrado de português. Seria, aliás, mais apropriado ele chamar-se Manuel Joaquim Jesus. Jorge é só para disfarçar. Ou seja, é malandragem.

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