Rodrigo Zeidan

Professor da New York University Shanghai (China) e da Fundação Dom Cabral. É doutor em economia pela UFRJ.

Salvar artigos

Recurso exclusivo para assinantes

assine ou faça login

Rodrigo Zeidan

As filas do SUS não vão acabar

Lula não vai conseguir acabar com a fila, mas tem a oportunidade de racionalizá-la

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

É possível acabar com as filas no sistema de saúde? De forma sustentável, não. E tudo bem. Esse é o custo do desenho de um sistema de saúde universal, seja no Brasil, na Inglaterra, ou qualquer outro lugar. Filas são consequência natural onde preços não são flexíveis para equilibrar oferta e demanda. O problema não é a existência de filas em si, mas o fato de que não há previsibilidade em relação ao tamanho ou racionalidade na priorização de procedimentos.

Lula não vai conseguir acabar com a fila do SUS de um milhão de cirurgias eletivas paradas no país. Mas tem a oportunidade de racionalizá-la, copiando o que for possível do resto do mundo.

Pacientes aguardam atendimento no Hospital Municipal do Servidor Público, em São Paulo
Pacientes aguardam atendimento no Hospital Municipal do Servidor Público, em São Paulo - Rivaldo Gomes - 17.mai.2019/Folhapress

Peguemos o exemplo da Dinamarca. Lá, a regra é simples. Se o sistema de saúde não conseguir garantir que o tratamento (ou consulta) definido como relevante vá se iniciar em 30 dias, o paciente tem o direito de "livre escolha", podendo recorrer a um hospital privado na Dinamarca ou no exterior. Isso parece ótimo, mas não resolve o problema. Muitos tratamentos sem qualidade são feitos só para resetar o período de 30 dias. Além disso, há pressão para que tratamentos sejam classificados como eletivos. E, finalmente, é raro conseguir consulta com menos de duas semanas; em grande parte do sistema, o agendamento é perto de 25 dias.

Algumas anedotas, mas informativas. Um colega precisava de uma consulta com oftalmologista, fazendo o pedido como se fosse algo relevante. Chegou lá e tomou esporro da médica, que disse que gente nova nunca deveria marcar esse tipo de consulta, a não ser que estivesse perto de ficar cego. A prioridade seriam os idosos. Outro caso, mais sério. Um ex-aluno sofreu um acidente de carro. Ele reclamava de dores na coluna, mas não o indicaram para fazer uma ressonância, pois a máquina custava caro e havia fila de prioridades. Mas ele tinha quebrado a espinha e, por pouco, não ficou tetraplégico. Mesmo depois de descobrirem a seriedade do problema, não queriam operá-lo. Ele passou dois anos fazendo fisioterapia (incluindo na Espanha, quando não o encaixaram no sistema público em 30 dias), sem resultado. Finalmente, aprovaram a cirurgia (em um painel de três cirurgiões, dois precisam aprovar cirurgias "eletivas" para que sejam agendadas).

Isso quer dizer que sistemas únicos de saúde são ruins? De forma alguma. O sistema dinamarquês (ou inglês ou canadense) é bom, embora não perfeito. Nenhum sistema de saúde é. Na China capitalista, sem sistema universal, o início da covid poderia ter sido contido se todos tivessem procurado atendimento. Mas como a maioria tem algum subsídio, mas precisa pagar do bolso algo se usar o sistema público, muitos preferiram não buscar o sistema para não gastar dinheiro (os testes, no começo, também não eram gratuitos). Os EUA, menos capitalistas, criaram um sistema de castas: os mais velhos têm atendimento quase universal, via Medicare e Medicaid, enquanto os outros se viram no mercado privado (também com subsídios). Outro modelo é o alemão, onde todos são obrigados a pagar um seguro privado. Sistemas de saúde são complexos e nunca são perfeitos. A realidade é dura. Mas isso não quer dizer que não podem ser melhorados. O SUS é vida. Mas pode ficar ainda melhor, se bem administrado. Esse governo bem que podia focar nisso, em vez de transferir dinheiro dos pobres para os ricos via subsídios para automóveis. Quem sabe, um dia saímos do século 20?

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar cinco acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Leia tudo sobre o tema e siga:

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.