Terra Vegana

Luisa Mafei é culinarista e professora de cozinha a base de vegetais

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Meu banquete para Caetano Veloso

É preciso abdicar daquilo que promove o Pacote da Destruição também no nosso prato

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Se você pudesse cozinhar para qualquer pessoa do mundo, quem escolheria? Essa pergunta me pegou de surpresa. Confesso que estava preparada para responder sobre os meus pratos preferidos, minha opção pela culinária vegetal, o percurso que percorri até chegar na cozinha… A resposta foi espontânea: Caetano Veloso.

A pergunta foi feita na final de um programa de competição de culinária de que participei ano passado, o "Faz-te Chef", do canal de televisão 24 Kitchen, presente em diversos países do mundo, inclusive em Portugal, onde hoje moro.

Nunca entendi muito bem por que respondi "Caetano Veloso". Sou fã? Sim, mas sou igualmente fã de Mano Brown, Marisa Monte, Billie Joe e Erykah Badu. Mas foi o nome do Caetano que me veio à cabeça, com direito a um suspiro.

Caetano Veloso liderou, no último 9 de março, o Ato pela Terra em frente —e dentro— do Congresso Nacional, com a participação de dezenas de artistas e organizações da sociedade civil. De Bela Gil à Paola Carosella, de Daniela Mercury a Emicida, de lideranças indígenas à lideranças do MST, os cartazes e falas exigiam o fim ——a não aprovação do chamado "pacote da destruição".

Ato pela Terra, em frente ao Congresso Nacional, no último dia 9 - Pedro Ladeira/Folhapress

Foi emocionante ver tanta gente reunida e mobilizada em defesa daquilo que deveria ser assegurado pelos nossos representantes no congresso: comida sem veneno, o direito à terra e uma floresta de pé.

A relação mais óbvia do "pacote da destruição" com a nossa comida —vegana ou não— é a PL 6.299/02. Popularizada como "pacote do veneno", é uma ameaça à nossa soberania e segurança alimentar, não apenas por revogar a atual Lei de Agrotóxicos (7.802/89), mas também por pretender transferir a aprovação de novos agrotóxicos para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - tirando da jogada o Ministério do Meio Ambiente e a Anvisa de qualquer poder de decisão nesse assunto.

Já aprovado pela Câmara dos Deputados, o projeto tramita agora no Senado.

Os outros quatro projetos de lei englobados pelo "pacote da destruição" dizem respeito ——ou falta de respeito ao licenciamento ambiental, à grilagem de terras, garimpo em terras indígenas e ao marco temporal.

Ato pela Terra, em frente ao Congresso Nacional. O protesto convocado pelo cantor Caetano Veloso busca derrubar projetos de lei que são considerados pelos ambientalistas nocivos ao meio ambiente. - Pedro Ladeira/Folhapress

O direito à terra e à vida dos povos indígenas, assim como a preservação da Amazônia, erguidos em cartazes com os dizeres "Brasil, terra indígena" e "Sem Amazônia não existe Brasil" são direitos que passam, também, pela nossa comida.

Afinal, a força que move serras elétricas, queimadas, invasões de terra, tiros e o apagamento da nossa história é a do agro, que de pop não tem nada. Com meses contados de governo Bolsonaro, a tentativa da bancada ruralista é de fazer a boiada toda passar a toque de caixa.

Se estamos atônitos com o "pacote da destruição" que se anuncia, podemos, desde já, abdicar daquilo que promove a destruição contra a qual queremos lutar, e essa luta vai para além dos nossos governantes.

Um prato que inclui carne, bacon no feijão e ovo na farofa é um prato da destruição. Leite de vaca no café e manteiga no pão é o café da manhã da destruição. É preciso lutar, também, contra os nossos próprios hábitos alimentares no processo de transição agroecológica que defendemos —e essa luta pode ser, ao menos no prato, gostosa.

Um dos meus melhores amigos me enviou um áudio tempos atrás para dizer que, numa das parcerias que fez com Caetano Veloso, se deu conta de que efetivamente estava na transição para o veganismo ao se sentir desconfortável com uma bandeja de queijos e frios que havia no camarim desse nosso artista imenso.

Lembro ele dizendo que já não reconhecia aqueles alimentos como comida, a ponto de se sentir nauseado. Esse desconforto pode vir da constatação de que, afinal, aquele queijo representa uma fatia de destruição, seja da vaca, seja da floresta, seja das nossas próprias células.

O mal-estar que se estabelece na contradição entre prazer em comer e o efeito destrutivo da comida pode ser insuportável a ponto de conduzir uma pessoa até a consequência última de se tornar vegana, ou pode, ainda, fazê-la optar por algumas refeições 100% vegetais.

Neste último caso, as estratégias são infinitas: fazer três almoços veganos na semana, ter uma alimentação completamente vegetal em casa e abrir exceções quando se come fora, trocar o leite de vaca pelo leite vegetal, escolher opções veganas sempre que pedir delivery… e todas elas são importantes para reduzir o nosso consumo de carne e deter o avanço do agronegócio com o nosso garfo.

"Caetano Veloso". Acho que a resposta que dei no programa guarda um dos meus desejos mais secretos: aproximar figuras fundamentais do debate político e cultural do país do veganismo pela chave do afeto e da boa comida.

Na minha fantasia, eu prepararia um banquete japonês vegano para o Caetano, porque, pelos stories, sei que ele ama um sushi. E de sobremesa, um bolo de aipim —seguiria a receita da Dona Canô, apenas substituindo a colher única de manteiga por uma alternativa vegetal— com sorvete de goiabada e chips de coco queimado.

Depois de horas sentado à mesa, ele sairia da minha casa com marmitas para a semana, convencido, espero, de que reduzir o consumo dos produtos de origem animal é não só possível, como preciso.

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