Vera Iaconelli

Diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, autora de "Criar Filhos no Século XXI" e “Manifesto antimaternalista”. É doutora em psicologia pela USP

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Vera Iaconelli

Serão os livros nossas pedras?

  De Felipe Neto à Geloteca, alguns exemplos de oposição  

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Todos os anos íamos à Livraria da Vila aproveitar a semana anual de descontos nos livros infantis. Junto com a farra de escolher títulos mais caros, que minhas filhas aguardavam para adquirir na ocasião, vinha o estresse.

Elas sabiam que sairíamos de lá com alguns livros ansiados e mais duas dúzias de pequenas publicações para presentear colegas de classe ao longo do ano. 

A discussão era sempre a mesma, ano após ano, só mudando a altura de minhas interlocutoras. Elas diziam “mãe, tenho colega que não gosta de ler”. Ouviam a resposta incrédula —“não existe tal coisa”—, a resposta proativa —“boa oportunidade para que comecem a gostar”— ou a resposta final —“vão ganhar livros e ponto”.

Nossa relação com esse espaço, no umbigo da Vila Madalena, tem sido tão afetiva que costumamos chamá-la de “nossa livraria”. Com o tempo nos conformamos com o fato de que muitos frequentadores têm a audácia de dizer o mesmo.

O último e modorrento Sete de Setembro —que além de cair num sábado, estragando o feriado, começou com Jair Messias saudando os Estados Unidos— foi salvo pelo movimento em torno da liberação de livros sobre questões de gênero, sexualidade e orientação sexual na Bienal. 

Foi um dia inteiro de ações a favor e contra a censura dos livros perpetrada pelo governador do Rio de Janeiro. 

Na ocasião, o milionário youtuber Felipe Neto —finalmente adulto— num gesto espetacular, comprou todos os 14 mil exemplares ameaçados e os doou durante o evento.

Um grupo de policiais ostentando armas atravessou a Bienal para recolher o material entre famílias e crianças atônitas. Tarde demais, o último exemplar acabara de ser entregue.

Em seguida, como que para salvar definitivamente o moral do dia, houve uma manifestação espontânea de visitantes do evento gritando palavras de protesto e empunhando livros. Se esses gestos não foram inspiradores, não sei mais quais seriam.

Enquanto a Unesco desenvolve inúmeras ações educativas para que crianças tenham acesso a informação de qualidade sobre sexualidade e gênero com o intuito de diminuir violências de gênero, doenças sexualmente transmissíveis e gravidezes indesejadas, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), entra em disputa judicial para censurar livros pedagógicos que tocam nos temas.

Grandes negociações foram feitas para diminuir danos causados pela perda das informações e das discussões preciosas que esses temas trariam para a sala de aula.

O sarrafo educacional da Unesco não parece à altura das autoridades brasileiras. Aqui reza-se por outra cartilha.

Na esquina da avenida Ipiranga com a avenida São João está sendo formada uma pequena biblioteca. No endereço imortalizado por Caetano Veloso, em um prédio antes abandonado e agora ocupado por famílias pobres, uma geladeira quebrada foi pintada pelo artista Tody One.

É a “estante” de uma biblioteca de livros infantis em um lugar onde as geladeiras que funcionam, quando existem, costumam estar vazias.

De um lado da Geloteca, como foi batizada, vemos a pintura de uma criança negra sorridente portando um livro. Do outro, está escrito “mais livros, menos armas”.

A luta pela educação e contra a censura tem se mostrado o único ponto de convergência de uma oposição que se mantém desbaratinada.

Não seriam, então e mais do que nunca, os livros, como formas de transmissão da arte e da ciência, nossas armas? E como tais, serão pedras diante de tanques ou diante da arrogância de um Golias? Seja como for, só nos resta empunhá-los.

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